quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Estio

No estio ainda existem noites como esta,
de nuvens escarlates, ventos brancos,
e o peito que se expande por espaços
no próprio peito cavados e assim
também a alegria é cicatriz
e também o sono é lampejo trêmulo
feito a luz que nas candeias se extingue
quando vem uma outra e mais jovem luz
e amanhece. Memória da tua pele
sob várias penumbras e abrandada
por vários arquejos; maior memória
dos teus seios qual memória de um dia
que se esgota e se perpetua; teus
olhos que se abrem como ipês de agosto
e a tua voz que afirma adorar tudo
o que seja fogo, fulgor, distância;
tua hora calma como a única hora
calma e este saber de mim e de ti -
no estio ainda há corpos que regressam
como se muito houvessem laborado
na vindima e da vindima trouxessem
ainda doce a boca e curtida a pele.
Tantas canções ouvirei hoje, tantas
ouvirei amanhã; tantas canções
para este primeiro gozo e outras
tantas para que a colheita perdure.

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