terça-feira, 16 de agosto de 2011

Não Pode Ser Pouco

As árvores queimadas e a memória
de ter amado alguém cujo semblante
esteve em meu olhos como a neblina
tolda as vidraças a cada manhã.
O que último se apaga é a memória
de um dia quente; lembrança de ter
amado alguém que cheirava a piscina
e a frutos de um dulçor que se prendia
a cada melodia prolongada
e que parecia aumentar o dia.
Mas o que nunca soube, o que nunca
sei é que um dia maior é um dia
mais fundo e é tão difícil emergir,
tão difícil saber o que é memória
e o que a própria memória construiu
para assim prolongar a melodia
finda, para assim aumentar o dia
ínfimo; tardes de árvores queimadas,
de ares férvidos, de luares líquidos
que entram nos olhos, que beijam os olhos
igual o beijo de uma boca tenra
qual primeiro orvalho e primeiro sangue.
Não pode ser pouco estar aqui
entre as árvores secas e a memória,
a antecipada memória de um dia
que já começa a se prolongar.

1 comentários:

  1. belíssimo poema - como já venho dizendo de outros teus.Abraço

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