domingo, 6 de novembro de 2011

Para Uma Amiga Que Se Assusta Com a Expansão do Universo

Queria eu, como os poetas de cem anos atrás,
ir ao velho mundo e saber o nome de cada esquina
e o que houve ali. Saber os nomes dos mortos
que sequer ficaram como umidade nas paredes
e saber os nomes dos amantes que se entregaram
em quartos de hotéis atravessados por uma luz
tantas vezes sobrevivente ao inverno e à sordidez.
Saber o nome de cada assassino e dizer aqui os assassinos
tiveram a sua última noite enquanto inocentes
e aqui veio ao mundo uma criança que morreu na geada
e aqui um velho judeu jogava xadrez antes de ficar cego
e aqui, em tardes de calor,
Ulisses adormecia junto de Circe
enquanto os soldados caíam de borco
na praia devastada e tantos anos depois
o areal voltou a ser branco como era
antes dos heróis e dos algozes.
Mortos já Circe, Ulisses e Penélope
e já diluído o canto das sereias e já sem sentido
qualquer périplo para tornar a Ítaca
pois Ítaca já é apenas um ponto de chegada
servido por dezenas de companhias aéreas;
uma ilha cuja outrora branca e impossível espuma
que vem à praia agora envolve
os calcanhares de uma criança a dançar
e tantos turistas junto dela e tantos outros
sob a sombra dos cafés, com as suas máquinas fotográficas,
imortalizando o que nunca será imorredouro.


E eu cantaria como tudo é nunca mais
se ao menos perdurasse a sensação
de também ter os calcanhares salgados pela espuma
feito um Aquiles às avessas.
Eu que não sei os nomes das praças seculares
e os nomes dos santos e dos reis
e que agonia ou esplendor vazou os seus olhos.
Eu que perambulei por museus de holocaustos
e vi os semblantes, todos eles esmaecidos,
das crianças e mulheres deixadas na neve
e também vi o que restou de ferozes dentes afiados:
um retrato também dissipado e o sangue negro e seco
no fio das espadas deixadas ao porvir.
Também eu, nestes mausoléus consagrados à dor,
fui sombra e sombra desfilei
por todos os seus cômodos
e escutei a suave e dorida melodia dos órgãos
e ainda estive entre lápides, epitáfios,
e ao final fui a uma gift shop
apinhada de sombras como eu.
Tantos dias passados e cada um desses dias
poderia ser o nome de um morto que não conheço.
Estar aqui, entre tanta memória bruta,
e, no entanto, lembrar
não é mais do que evocar uma evanescente imagem
em sonhos vislumbrada:
uma imagem que recordo e não recordo;
uma imagem que perdura, cada vez mais transparência,
mas nunca transparência absoluta;
uma imagem cujo sentido se reconstrói
a lapsos de clareza, como se uma torrente de vento
agitasse as cortinas e permitisse que a luz
revelasse o que existe dentro de cada quarto.
Mas logo o vento cessa, logo
todo lar se transmuda em sepulcro
e é pungente como tudo volta a ser penumbra:
cada esquina percorrida,
cada passeio por praças floridas,
cada sala de museu, cada catedral,
e tudo não é diferente da amante
cujo nome se ilumina para então se apagar
nos recantos do coração tantas vezes penetrado e fortalecido
pelo sangue deste corpo amado.


E eu cantaria o que é o retorno
a esta cidade ainda atravessada pela luz
porque é a cidade da infância e porque é uma cidade
de tal modo impressa em minha epiderme
que para lembrá-la não preciso de palavras
ou imagens. Apenas sei o que a cidade é
e o que é cada homem e o que são
as raparigas que descem a rua.
E se aqui um velho morre, ainda que eu não saiba
o seu nome, sei o que a morte é
pois é a mesma morte que encontrei
nos rostos de mortos queridos.
Sei o que a cidade é pois em mim
ela permanece não como memória bruta
mas sim como força bruta e se desejo
ir além é porque sei que essa energia essencial
perdura em cada cidade além da minha.
Perdura em cada esquina cantada
por poetas de cem anos atrás;
em cada vilarejo consagrado ao passado,
mas que continua pois tudo continua
e continua ao largo dos mortos em geadas
e ao largo das sombras em gifts shops
e ao largo dessa memória que tenho
e não tenho, dessa compreensão
que encontro mas não encontro;
ao largo de Circe, Ulisses, Penélope;
ao largo de cada herói que existe
mas não existe. Energia bruta.
Apenas energia bruta em mim e fora de mim,
e na cidade que tenho
e nas cidades pelas quais transito
mas nunca permaneço. Energia bruta
e um desejo de cantar o que canto
e o que não posso cantar
pois também eu continuo e continuo ao largo
dos nomes dos algozes e dos inocentes
e dos amantes em quartos de hotel
e do velho judeu que jogava xadrez
e dos soldados caídos no areal.

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