1. Sobre a pele, a carícia
que não se queda fria
apesar da brumosa
e dolorosa aurora.
Sobre os olhos, a vigília
e as cinzas da alegria
trazidas por esta hora
em que nada vai embora.
Sobre a cama, todavia,
só um corpo cicia
e parece que chora
pois nada há lá fora:
ainda não é dia
e a noite ainda expia
estas chagas de outrora,
este nada que demora.
2. Da chuva, o sombrio
murmúrio só escuto
quando já está frio
o amor gozado bruto -
forte ardor luzidio
que vai da luta ao luto
e que acaba no estio
sem que lhe reste fruto.
Dos ventos, o assobio
torna longo o minuto
e prolonga o bafio
do que existiu oculto.
Da paixão, o senhorio
sossego é diminuto:
templo agora vazio
de animal dissoluto.
3. Da luz, o seu início
vem revelar a ausência
tua - sombras da essência
de um perfume em declínio.
Do teu abraço, o exílio
é para o sangue a urgência,
para a pele a dolência
e nada mais é idílio.
Da manhã, o seu brilho
é a vã permanência
da vã incandescência:
perdura um calor tíbio
que também é vestígio
e agora é outra a ardência:
ardem, sem complacência,
a memória e o silêncio.
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