sábado, 3 de dezembro de 2011

Manhã: Três Canções

1. Sobre a pele, a carícia
que não se queda fria
apesar da brumosa
e dolorosa aurora.


Sobre os olhos, a vigília
e as cinzas da alegria
trazidas por esta hora
em que nada vai embora.


Sobre a cama, todavia,
só um corpo cicia
e parece que chora
pois nada há lá fora:


ainda não é dia
e a noite ainda expia
estas chagas de outrora,
este nada que demora.


2. Da chuva, o sombrio
murmúrio só escuto
quando já está frio
o amor gozado bruto -


forte ardor luzidio
que vai da luta ao luto
e que acaba no estio
sem que lhe reste fruto.


Dos ventos, o assobio
torna longo o minuto
e prolonga o bafio
do que existiu oculto.


Da paixão, o senhorio
sossego é diminuto:
templo agora vazio
de animal dissoluto.


3. Da luz, o seu início
vem revelar a ausência
tua - sombras da essência
de um perfume em declínio.


Do teu abraço, o exílio
é para o sangue a urgência,
para a pele a dolência
e nada mais é idílio.


Da manhã, o seu brilho
é a vã permanência
da vã incandescência:
perdura um calor tíbio


que também é vestígio
e agora é outra a ardência:
ardem, sem complacência,
a memória e o silêncio.

0 comentários:

Postar um comentário