domingo, 29 de janeiro de 2012

Segunda Garapa Com Manuel Bandeira

Ainda me lembro da última garapa ao seu lado.
Entre todos os meus amigos, era o único morto
e o que mais vinha até mim, o que mais vinha
quando a tarde abria o peito
e trazia uma dor que não era apenas dor:
era um espasmo de ternura, uma vertigem amorosa
pelo que vem e pelo que passa, uma ânsia de reter
neste peito doído o longo vôo das andorinhas
e eu aqui, como um dia você aqui esteve,
eu aqui à toa e cantando a tarde
(a tarde que fere, a tarde com um cheiro
de terra e cheiro de flores e cheiro de morte
mas não cheiro de mortos, que os vivos
que aqui estão ainda caminham solenes);
eu aqui à toa, o peito aberto, ao lado
do meu único amigo morto e lavrando cada palavra
sua como se fosse minha e assim passei
a nomear todo pássaro de andorinha
e a nomear a tarde de tardinha. Tardinha funda
e doída e nós aqui à toa, bebendo a primeira garapa,
e olhando para as mulheres de pele cheirosa
e dizendo Lá vão as mulheres de Araxá. Lá vão,
e assim a noite veio e assim
você se diluiu. Deixou-me com a noite
cada vez mais próxima. A noite que abria
as suas asas em meu coração
e eu ainda à toa, ainda sozinho, ainda
enrodilhado ao tempo que se desfazia.
Ó noites do límpido frio de maio.
Ó ventanias enoveladas ao calor de agosto.
Ó nascente canto de cigarras nos idos de outubro.
Ó dia que se demora - luz que reverbera em dezembro
entre coros natalinos, e o coração imerso
em ternura orfã. Ternura que, por não saber onde olhar,
abisma-se perante os abertos céus da infância.
Ternura que, por não saber o que dizer, guarda a voz
da chuva forte e depois da chuva mansa.
Ternura que, por ser silêncio, agarra-se à voz úmida e pura
que é a noite após o temporal: madrugada
embalada pela garoa que apenas é
um orvalho mais ardente e mais denso.
Ternura orfã e eu preso ao tempo que me desfaz, saudoso
da garapa bebida com um amigo morto
e confiante, alegre, também solene
caminhando junto aos amigos de agora. Homens
que irão morrer e eu um homem como eles.
Um homem que teme a vida passada à toa
e que se lança para a frente: ao irreversível
dos sonhos que podem ser erguidos uma única vez
e ao tremor que é beijar a estrela da manhã e saber
que a estrela da manhã é uma mulher
e não há milagre maior do que este: ter
a estrela da manhã; queimar na estrela da manhã;
com a estrela da manhã partir
aos dias vindouros, aos dias que já se somam
ao presente. Com a estrela da manhã
ingressar na alegria dos dias não vividos
mas já enrodilhados ao tempo que constrói.
Destes dias extrair da poeira o que me seja
imagem e semelhança.
Destes dias e deste sonho extrair a argila
do que pode ser erguido uma única vez
e construir, construir, construir
e você de novo ao meu lado -
um morto, mas não um fantasma;
apenas um amigo que me fala A vida é traição
e no entanto amei a vida. Apenas um amigo
que me fala Perdi muitas mulheres
e no entanto não há milagre maior
do que um ventre fecundo. Apenas um amigo
que me escuta falar do que construo,
que me escuta falar dos homens
e das mulheres de agora. Apenas um amigo
preso às minhas retinas quando vejo
que a vida é traição (tão triste é o que vejo
pelos corredores do tribunal)
e que sabe o que evoco quando evoco
a estrela da manhã e para a estrela da manhã
digo Quero que seja a estrela de toda a vida.
Um amigo que, bebendo garapa,
comigo entra nas tardinhas
e observa o revoar das andorinhas
e de que modo as vidas se misturam:
a vida passada, a vida vivida, a vida que nunca vem
enquanto, caindo sobre os ombros do sol crepuscular,
ao meu lado se assombra com o tempo
que evapora todos os rostos
e iguala as palavras de um vivo às de um morto.

1 comentários:

  1. Um brinde ao Bandeira, tanto pelo que ele assina quanto pelo que ele inspira.
    Thaís

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