domingo, 15 de janeiro de 2012

Saber (todos os poemas até agora, ordem cronológica)

I


Saber dos mortos que são atirados
ao mar para que lá desapareçam
e para que o espírito, atônito,
jamais esqueça a calma com que os deuses
ocultam um naufrágio. Quietas as águas,
quieta a descida às algas, quietos os olhos
que fixam este improvável sepulcro:
saber em qual sombra caiu a sombra,
saber em qual madrugada a manhã
uma última vez clareou o rosto
espelho do amor e da juventude.


II


Saber do primeiro morto: aquele
rosto que se transmudou no bolor
de dias claros – o pai, os cigarros
fumados nas tardes sem esperanças,
a palha com que me coçava as plantas
dos pés, o enterro a que não assisti.
Saber que não somente os cemitérios
reúnem mausoléus. Saber que a cidade
é a maior cova comum que existe.
Saber que ali, à Rua São José,
jogava-se bilhar naquela casa.
Jogava-se aos fundos, entre os velhos
que ouviam música passada e o cão
que ali havia, agrilhoado às ruínas.
Saber que aquele cão amigo é morto.


III


Saber que um morto germina somente
no coração que envelhece e na mente
que esquece. Saber que a descida às algas
e às ervas é descida ao oblívio,
descida ao escuro sítio que o sol
não alcança. O fado da carne é
o fado das sombras: tudo acaba.
Saber que as palavras também são sombras
embora durem mais. Saber falar
a tudo isto: carne e sombras de agora
e carne e sombras que ainda virão.


IV


Saber que a lenta hora é o entardecer
e é lenta para que os olhos não percam
cada matiz da paisagem vista
pelas janelas deste comboio
que parte sem destino onde chegar
e que chega sem nunca ter partido.
Saber que o porvir é luz vindoura
da próxima, mas longínqua cidade,
e que a infância é aquele bosque
do qual nos aparta não a distância
mas a névoa que cai sobre o arvoredo.
Saber que a hora é lenta porque o comboio
é tão veloz que o dia se queda inerte.
Saber que o comboio apenas existe
quando se mira o que já partiu.


V.


Saber que há homens que perseguem Ítaca
sem terem deixado Ítaca. Saber
que voltar para casa a cada dia
dói como partir. Conta-me, Ó Musa,
um destino de Musa que não seja
o destino da erva: surgiu verde
e agosto que torna a tornou castanha.
Saber que há homens que jamais alcançam
Ítaca por não terem deixado Ítaca.
Saber que o chamamento das sereias
não foi mais do que as sirenes da velha
cervejaria. Ao amanhecer,
ao meio dia e às dezoito em ponto:
ressoava e um cheiro de cevada
marcava cada dia de trabalho.
Saber que no areal ficaram todos
aqueles chamados pela sirene
enquanto galeras iam ao mar.


VI.


Saber que apenas trazes a alegria
em ti (devolvida, imaculada)
porque trazes ferido o coração
desde o início. Saber o fado -
nem duro, nem leve - somente o fado
das noites de calor tempestuoso.
Saber que este vapor que se eleva
do teu corpo é incandescente sopro
do querer saciado: queima o céu
e não há pele que lamente o frio.
Saber que não existe altar de amor
que não tenha como bruto artesão
o gozo passado ou o prometido.
Saber que se a manhã seguinte vem
chuvosa é preciso saber andar
entre ruínas. Saber que o coração
não é virgem e não é intocado
igual um jardim de inverno. Saber
beijar a lágrima como beijaste
o gozo. Saber que apenas celebras
a imorredoura alegria do agora
porque apenas sabes celebrar - do início
até ao fim - um coração ferido.


VII.


Saber consagrar o que mais lancina
quanto mais se tem: pungente e precária
chaga aberta em teu peito e no entanto
o sangue que ali queima não provém
apenas de ti. Também ali grita
sangue clandestino pois clandestina
é toda a alegria no início - júbilo
inominado que tanto mais gozas
quanto mais numerosas as palavras
que de ti se elevam. Febre. Amor.
Exílio. Lume que arde, perene,
e não existe dia que não seja
delírio, noite que não seja êxtase,
e no entanto este olimpo, esta chaga,
este gozo é fagulha que a si própria
não aquece e por isso tu evocas
o júbilo também inominado
deste corpo que agora é exaurido
pelo teu. Corpo que na crua noite
dorme tão próximo que é indistinto
do teu próprio abraço. Assim ingressas
no amanhecer. Assim um rio encontra
outro rio e assim, lânguidas as águas,
há quem confunda estes rios com o mar
e assim confunde (no olhar a distância)
tal mar com o céu que se incendeia.
Saber que estas espumas que requeimam
se enrodilham no rubro seixo que é
este coração de sangue cruzado.
Saber que as espumas que ainda avançam
fecundam o sal do gozo e da lágrima.

0 comentários:

Postar um comentário