sexta-feira, 19 de outubro de 2012
domingo, 24 de junho de 2012
Poema Para Depois das Festas Juninas
Ainda perdura o sol no inverno:
brandos véus de luz a vibrar e a entoar
melodia que um claro silêncio margeia.
Ainda nas casas vizinhas um festival
de rumores alegres no domingo:
vozes de crianças que cantam parabéns,
o fraco farfalhar das folhas de bananeiras
e o tíbio, mas nunca opaco,
canto de pássaros ocultos.
Em cadência lenta, o dia evoca
as vésperas das férias.
Ainda ontem havia pipas no céu.
Ainda ontem uma mulher vendia morangos
na praça diante da capela;
os morangos eram vermelhos e túrgidos
e a mulher disse que os colhera
durante o amanhecer.
Ainda na última madrugada o drapejar
das bandeiras de festa junina
após todos irem dormir.
Escutar este drapejar era
escutar etéreo pranto enluarado;
como se o luar fosse alma que chorasse
entre a neblina e cada lágrima sua
houvesse se mudado numa destas bandeirinhas
que alvorecem úmidas de orvalho -
leve e breve estandarte de uma festa encerrada.
sábado, 23 de junho de 2012
Meu Nome É Meu Coração
Meu nome é meu coração.
Meu nome: não mais do que o vento
erguendo poeira no dia seco.
Vêm as manhãs em que não se consegue respirar.
Vem a garoa fina a gotejar dos beirais do telhado.
Vem um torvelinho de folhas mortas e terra vermelha.
Vem um miserável com a carne em chagas.
Vem um cão ferido após a chuva.
Vêm carcaças de animais na estrada quando volto para casa.
Vem a ruína de uma esquina que permanece.
Vem um clarim fúnebre a reverberar
o epitáfio do último homem a morrer
e tudo conclama o meu nome
porque o meu nome é o meu coração
e o meu coração é aqui morrer.
Vem a exaustão após o amor.
Vem a pele fria de abandono.
Vem corpos unidos como numa escultura de Rodin
mas que artesão nenhum sabe preservar
e cujo bronze é todos os dias roído e quebrado
pela brisa salgada de uma lágrima
fundida ao gozo e no coração trêmulo de silêncio
enrodilham-se verdade e mentira.
Vem uma palavra após a outra.
Vem uma palavra tantas vezes dita e se torna sombra
do que tantas vezes foi calado.
Meu nome é meu coração:
meu nome que quer se somar a outro nome,
meu coração que quer se somar a outro coração,
mas sempre é apenas o meu nome
e sempre é apenas o meu coração.
Vem a véspera de um canto de exaltação.
Vem uma casa erguida sobre o barro.
Vem a alegria de viver nesta casa.
Vem Cronos a devorar o filho e depois o filho do filho.
Vem uma tulipa vermelha que tento partilhar
como se partilhasse o meu coração
porque o meu nome é o meu coração
e o meu coração está trêmulo de silêncio.
Vem a véspera de um canto de despedida.
Vem uma mágoa que me diz o seu nome
e então pede esqueça o meu nome.
Vem um coração que não me pertencia
mas sujo com o meu sangue e diz o seu nome
e então pede nunca esqueça o meu nome
e eu apenas digo o meu nome é o meu coração
e o meu coração é não esquecer.
quinta-feira, 21 de junho de 2012
Cantiga Com Nomes de Flores
Pequenas pétalas roxas
e rosas nascidas próximas
aos tijolos empilhados
no fundo do quintal, não
longe dos escorpiões
e não longe do dulçor
dos abertos frutos do conde.
Eram pétalas miúdas
que ninguém sabia o nome.
São flores do brejo, disse
a mulher que eu amaria.
São flores do brejo e lá
onde nasci até adornam
alegres buquês de noivas.
Flores do brejo, pequenas
pétalas roxas e rosas
que murchas se evaporaram
entre os pomares da infância
e vãos altares do amor.
Flores da chuva, tapete
amarelo que o aguaceiro
estendeu sobre jardins -
sobre tais caminhos fui
ao deixar de ser menino.
Flores da chuva, crepúsculo
puído pela luz puída,
mortiça e suave sombra
curvada sobre a cidade.
Vinde cá, meu coração,
meu primeiro secretário,
faz canção a sua dor
e torna canção a dor
de esquálidas margaridas
que a chuva antes ceifou
de eu lhes cantar o esplendor.
Vinde cá, neves de antanho,
violetas que o temporal
levou. Vinde cá, estrelas
do céu frio. Vinde cá, flores
que aprendi a nomear
ao me tornar pietá
curvada sobre mãe triste:
lírios comprados na praça,
jasmins em vasos rachados,
rosas de uma casa escura
e lá fora a Babilônia
que Ítaca se transformou.
Vinde cá, meu coração,
eterno rei coroado
por aquilo que não tem.
Vinde cá na penumbra
da aurora.Vinde cá e olha
este vaso de tulipas
que fantasma aqui deixou
para encarnar o vazio.
sábado, 2 de junho de 2012
Poemas Revisitados: Descobrindo Ítacas (em dezembro de 2010)
Tantas vezes coube o céu em meus olhos
que o próprio céu se mudou em raiz
saída da fundura mais doída.
Entrava nova estação e eu sabia
que luar a cingiria e qual fogaréu
traria as cinzas do dia futuro.
Era belo, mas também magoava
e deste encanto onde cantos eu
buscava vinha a idéia de que Ítaca
era minha e era o que me bastava.
Mas Ítaca não existe se não
existe casa para trás deixada.
Preciso é que a distância se desdobre
não em algo maior ou nunca visto
mas em algo que o sangue não conheça
como seu, ainda que imagens gêmeas
sejam dos muitos dias repetidos.
Eis o luar, o lusco fusco,
o luar embebido em luz, fogo leve,
não diverso da brandura de abril
embora lá outubro agonizasse.
Um mundo multiplicado em espelhos
é imenso ou é repetição?
Longe, encontrei beleza daqui
diferente, mas o que me aturdiu
é que o pólen de todo o coração
é soprado por um único deus
ou é vestígio de única ruína.
Longe, outras ítacas encontrei
e quanto mais eu as tornava minhas
mais a casa deixada para trás
era dor que ia do branco ao vermelho.
sábado, 19 de maio de 2012
Cantiga Enamorada
O que quero, enamorado,
é o mais doce dulçor,
é este beijo que lembra
maçãs de amor, namorada.
Me dá este beijo e vem
morar em minha tristeza
que em teu riso enamorado
o meu pesar adormece
tão leve e primaveril.
Sorve o dia, namorada,
este vinho tão doído,
esta rosa devolvida
por terra então exaurida.
Sei que o sol, enamorado,
tanto demorou a vir
mas hoje o pranto e seus véus
são arco-íris, namorada.
Cada dia que morreu
morreu pálida açucena
em jardim que namorado
sozinho cuidou - relvado
onde o orvalho secou
sem evocar, namorada,
os teus olhos de alegria
úmidos, estes teus olhos
do quais bebi toda lágrima.
domingo, 6 de maio de 2012
Sobre A Tristeza dos Domingos
Talvez o que mais doa no domingo
não seja o silêncio ou a antecipação
do trabalho que, inexorável, retornará.
Talvez o que mais doa
seja de que modo a luz - a límpida luz
que descortina as manhãs de domingo -
cai na treva. Uma melancolia
que avança feito maré; um oceano
de sombras crescentes que, em seu limiar,
ainda traz espumas que cheiram a sol
e toda a sorte de constelações
até que vem o soçobrar das águas.
Vem um silêncio que é o pungente
réquiem da luz. Cambiante, difuso funeral
do único deus que os olhos
um dia lograram ver.
Inevitável naufrágio de um alvorecer
em que o fogo foi infinito; em que a luz
foi um irisado perfume de cabelos
batidos pelo sol; em que o maduro canto
da tarde foi de um fruto que, doce,
parecia que nunca apodreceria.
Principia o domingo, tão leve,
e principia um poema que só pode ser escrito
com palavras leves: tangerinas, tamarindos,
risos de crianças ora vindo das macieiras
e ora vindo do azul do céu, pipas a adejar,
uma súbita lembrança vinda da infância
que, destilada pelos anos,
torna-se este vinho tão raro de ser bebido:
este vinho com gosto de sol, este vinho
que abranda o sangue, este cálice breve
que sorvemos com um longo gole,
esta doce tontura que diz a vida é nada
apenas porque a vida é tudo,
este esplendor do qual um velho
pela primeira vez se viu apartado
sob a trêmula e sôfrega luz de Bizâncio:
Jovens aos beijos, saltos de salmão,
aves a cantar, música sensual
até que as sombras se fecham
e a calmaria de um negro oceano
dilui tudo o que era espuma e ardência.
Longe, tão longe, dobram os sinos
da fúnebre catedral. Entre sombras,
sombras se arrastam. A cidade é inerte,
tudo ganha uma qualidade de silêncio
(até os cães que ladram) e não há
coração humano que não seja
pesaroso como o mármore;
não há coração humano que não se perceba
cindido por súbitos abismos de sombras.
terça-feira, 20 de março de 2012
Março (Cantiga 2)
Em março, esta mudança:
maduram os milharais.
Longe do mar, a planície
ondula ao sabor do vento
e vagas se formam; vagas
que amarelas se dissolvem
no brando calor da tarde.
Em março, este tumulto:
outono que se inicia
ardendo nas quaresmeiras;
calor que se esvazia
neste ardor que chicoteia.
Em março, uma menina
sente frio ao acordar
para depois, tarde plena,
na praça leve de cores
querer na pele a carícia
que parecia perdida.
Em março, uma menina
vai ao luar - lancinante
e celeste cicatriz,;
vontade aberta e ferida
dos dias de breve luz.
maduram os milharais.
Longe do mar, a planície
ondula ao sabor do vento
e vagas se formam; vagas
que amarelas se dissolvem
no brando calor da tarde.
Em março, este tumulto:
outono que se inicia
ardendo nas quaresmeiras;
calor que se esvazia
neste ardor que chicoteia.
Em março, uma menina
sente frio ao acordar
para depois, tarde plena,
na praça leve de cores
querer na pele a carícia
que parecia perdida.
Em março, uma menina
vai ao luar - lancinante
e celeste cicatriz,;
vontade aberta e ferida
dos dias de breve luz.
terça-feira, 13 de março de 2012
Março
Em março, esta esperança:
que o pétreo dia não calcine
a terra; que ao fim do verão
ascenda o agreste perfume
das raízes que preservam
o orvalho de uma manhã
que sequer ficou inscrita
na vã memória das pedras.
Em março, esta alegria:
ainda quando o calor finda
em longo estio, ventanias
lentas desfraldando abril
e as suas tardes de véus
límpidos. Vem a manhã
e a aurora fenece úmida;
vem a noite e o luar
é o coração renascido
de um deus que o sol não tornou
ruína - deus que palpita
no renovado sabor
das tangerinas de maio:
raiz que do sol bebeu
a luz e apenas a luz;
rubro fruto que na noite
irradia bravia febre
sobre a pele que arde insone.
que o pétreo dia não calcine
a terra; que ao fim do verão
ascenda o agreste perfume
das raízes que preservam
o orvalho de uma manhã
que sequer ficou inscrita
na vã memória das pedras.
Em março, esta alegria:
ainda quando o calor finda
em longo estio, ventanias
lentas desfraldando abril
e as suas tardes de véus
límpidos. Vem a manhã
e a aurora fenece úmida;
vem a noite e o luar
é o coração renascido
de um deus que o sol não tornou
ruína - deus que palpita
no renovado sabor
das tangerinas de maio:
raiz que do sol bebeu
a luz e apenas a luz;
rubro fruto que na noite
irradia bravia febre
sobre a pele que arde insone.
domingo, 11 de março de 2012
Para Ana Que Me Pediu Um Poema (trilogia acabada)
I.
Ana me pede um poema
que já não sei escrever:
um poema que seja Ana
e que traga um canto que Ana
nunca ouviu.
Sem saber o início, olho uma foto de Ana
e traço o inventário
que sequer é o inventário da beleza de Ana:
Ana tem os olhos castanhos.
Ana tem os cabelos também castanhos
e os cabelos castanhos de Ana
são cortados à altura dos ombros, à moda de Anna Karina.
Ana traz sempre os ombros desnudos.
Ana traz sempre os ombros desnudos vermelhos de sol.
Ana adora usar vestidos.
Ana passa batom antes de sair de casa.
Ana tem as mãos pequenas.
Ana tem os pés ainda mais pequenos.
E aqui paro, a pensar
em Ana e nos pequeninos pés de Ana.
Aqui paro para adivinhar
que Ana está descalça
e continuo a adivinhar o poema
que possa existir e que possa levar o nome de Ana:
Ana está descalça
e os pés de Ana e os movimentos claros e fluídos de Ana
são pequenas açucenas
dispersas na nascente de um rio
e que seguem - docemente, molemente -
para longe da nascente deste rio.
E aqui paro, pois já não há no retrato de Ana
nada mais que eu possa retratar.
Aqui paro e aqui passo
a falar do único dia que teria visto Ana
pois a verdade é que nunca vi Ana
e na parede do meu quarto há gravuras holandesas:
Vi Ana numa manhã de chuva e ela não parecia triste
e o seu guarda-chuva amarelo, aberto como um girassol,
deveria ser o modelo para todos os girassóis
e depois vi Ana na tarde de sol e ela era um trigal,
mas um trigal inquieto, um trigal ardente, um trigal em chamas,
um trigal depois queimado pelo orvalho e pelo luar,
um trigal de uma umidade trespassada pela sede,
um trigal cansado de ser trigal,
um trigal e a espera nervosa de um tigre
que sente fome de carne e que reluz
- metade na penumbra azul, metade na penumbra brônzea -
como uma silhueta de fêmea
e por isso os caçadores que voltam das planícies
retornam todos enlouquecidos e todos se entorpecem
como se não quisessem existir apenas porque
tudo o que fere é a vontade de existir.
E aqui paro pois o dia em que vi-mas-não-vi Ana
terminou e não sei como Ana é
em todos os outros dias.
Aqui paro e passo a dizer o que Ana é
ao dizer aquilo que Ana não é
e tiro imagens de um sonho
embora nunca lembre os meus sonhos:
Ana não é a menina da porta ao lado.
Ana não é a Anna Flor do poema que eu lia quando amava outra Ana.
Ana não é algo que termina.
Ana não é a luz que empalidece.
Ana não é um animal que foge do êxtase.
Ana não é um piano que naufraga.
Ana não é um poema que se escreva
sem que se saiba o que são açucenas,
sem sem que se saiba o que são girassóis,
sem que se saiba o que são trigais,
sem que se saiba o que são meninas da porta ao lado,
sem que se saiba quem foi Anna Flor,
sem que se saiba das coisas que terminam,
sem que se saiba o que são animais em êxtase.
II.
Fui até Ana após ter escrito um poema
que não era Ana - um poema que era
apenas o que eu sonhava em Ana.
Assim cantei os seus olhos castanhos
mas não cantei como Ana revela
os seus olhos castanhos após o beijo;
estes olhos olhos que vem à superfície
como vem à superfície um lírio
nascido e desabrochado na fundura
de um rio que leva o coração de Ana
até a superfície da pele, um rio
que adormece este coração-vertigem de Ana
sob o peso das pálpebras e cílios
que apenas suportam o peso da luz,
que apenas bebem o silêncio da penumbra
do erguer do sol e do cair do sol.
Assim comecei a cantar os olhos de Ana
mas o que cantei foi o que eu buscava em Ana:
uma elegia que era uma cicatriz
nascida em mim antes de Ana
e um hino que era a exaltação
de uma terra nunca vista
e tão plenamente fértil que tudo germinava:
Ana e os seus pés que eram açucenas.
Ana e o seu guarda-chuva que era um girassol.
Ana que não era um piano a naufragar.
Ana que era a luz trêmula e dura
das aquarelas que perduram...
Mas agora que estive com Ana
e agora que acordei junto de Ana
digo: Ana é um alegre madrigal
e por isso a alegria de Ana é um festival
de flores numa praça ao entardecer
após a chuva, quando temos os corpos ainda quentes
do amor tido no alvorecer,
uma praça que cheira a terra e árvores molhadas
e então Ana aponta flores brancas
e as nomeia como se nomeasse a própria alegria:
são margaridas - eis o júbilo de Ana,
eis a luz trêmula e vibrante que é Ana
a nomear as coisas, eis os mais lindos girassóis
que ainda não vi, eis um piano
que não naufraga embora eu saiba
que o silêncio de Ana é o diminuto murmúrio
de algo que se afoga em meu sangue.
E tanto cantei Ana
que até cantei que Ana era um trigal
mas agora que estive com Ana e agora
que despi Ana digo que a nudez de Ana
ondula como um trigal às vezes ondula
e por isso digo e me corrijo:
Ana é um trigal, mas um trigal não é Ana.
Um trigal arde mais quando arde o sol
e bebe a umidade que vem do luar
e lança aos ventos uma cantiga e um perfume
que pertencem ao luar e ao trigal
sem que sejam o luar e o trigal.
Já Ana pode queimar (pois eu a vi queimar)
ainda quando o dia é branco
e Ana tem uma voz claramente sua - a voz de Ana! -
e um perfume só seu atravessado pelo dulçor
mas que não é apenas dulçor.
Um perfume que na sua hora mais plácida
pode ser uma plácida cantiga de amor
que toda menina aprende quando ninada
por uma mãe triste ou por um avô de violão triste.
Um perfume que na sua hora mais agreste
pode ser a essência de uma romã bravia
ou de um animal ferido pela primeira vez
e que foge mata adentro, sangrando,
e das funduras da mata vem apenas o uivo
desta carne jovem, desta carne já acesa,
desta carne que reconhece como possível
apenas o mundo em que flua o seu sangue,
apenas o mundo em que caiba o seu gozo
e o que vem depois é uma revoada de pássaros.
III.
O que eu não sabia quando Ana me pediu um poema
e o que eu não sabia ao cantar que Ana não era um a piano naufragar
é que Ana se confunde com a revoada de pássaros
que migram do seu pulso em busca de terra primaveril.
E o que eu não sabia, ainda após contemplar
esta primeira e assombrosa revoada de pássaros,
é que outras viriam e que Ana também é um areal:
uma dourada faixa de terra no princípio de um dia
que nunca cessa de principiar; uma dourada faixa de terra
plana e mais além, também planas, as plácidas águas do oceano
e tudo é silêncio até que uma alteração na densidade das horas
torna o ar sôfrego e do areal dourado se ergue um grito
de amor pungente: as águas convulsionam, forma-se a espuma
que se desfaz em arfares e após o último arfar
surge outra revoada de pássaros - brancos
e numerosos, pássaros que vão ao céu
até que não haja mais abismo.
O que eu não sabia (e o que eu sabia, afinal?)
é tudo aquilo que apenas Ana me ensina
quando ela é tremor saciado e quando ri
quando faz festas com os animais
e quando ela, Ana, fala sobre a infância
em meio ao esplendor negro das penas de galinhas d'angola
e quando fala sobre a juventude
enquanto uma agonia cega, uma agonia de fugas,
uma agonia que apenas encontrava quieta morada
na sua coleção de seixos que - apesar dos dias brutos
e das horas brutas e do bruto curso das vazantes -
permaneceram belos: último eco, última forma
de uma natureza candente pois também assim
é o coração de Ana: cadente estrela da manhã que
- apesar dos dias brutos e das horas brutas
e do bruto curso das auroras - anseia
ser a estrela de uma vida inteira.
E o que eu não sabia sobre Ana é o que eu não sabia
sobre uma mulher adormecida
mas agora sei e digo: uma mulher adormecida é um rio
à espera, um rio que traz em sua fundura
e em suas cheias e em seus afluentes
o arquejar pulsante e secreto de novas vidas
e ao rio me dirijo - animal nunca saciado -
e me sento junto à sua foz
e bebo as suas águas frescas
e lavo o rosto e encontro um espelho
na planura das águas adormecidas.
À foz do rio me dirijo e ali adormeço, apaziguado
pelo canto melífluo das vagas e os olhos fitos no céu;
os olhos fitos no luar alto, gotejante e imenso;
os olhos fitos no luar e, no instante em que adormeço,
reconheço no luar alto, gotejante e imenso o reflexo
do coração ardente que espera dentro do rio
e tanta ternura se agita em mim,
tanta ternura e tanto medo de morrer
e não estar mais junto à água que me será espelho
e não mais estar junto à mulher que traz no ventre
o que me será continuação e tanto medo de perder
esta herança antes que ela venha.
Tanto medo, tanta ternura, tanta febre: tudo a me dizer
que eu não sabia o que era medo
e que eu não sabia o que era ternura
e que eu não sabia o que era febre
e que eu sequer desconfiava do que Ana me ensinaria
pois o que eu não sabia sobre Ana
é o que eu não sabia sobre o amor, o que eu não sabia
sobre as febris alquimias do querer:
revoada de pássaros saídos
do pulso aberto de Ana para abrirem o meu pulso
e aqui encontrarem abrigo e aqui pulsarem.
Ana me pede um poema
que já não sei escrever:
um poema que seja Ana
e que traga um canto que Ana
nunca ouviu.
Sem saber o início, olho uma foto de Ana
e traço o inventário
que sequer é o inventário da beleza de Ana:
Ana tem os olhos castanhos.
Ana tem os cabelos também castanhos
e os cabelos castanhos de Ana
são cortados à altura dos ombros, à moda de Anna Karina.
Ana traz sempre os ombros desnudos.
Ana traz sempre os ombros desnudos vermelhos de sol.
Ana adora usar vestidos.
Ana passa batom antes de sair de casa.
Ana tem as mãos pequenas.
Ana tem os pés ainda mais pequenos.
E aqui paro, a pensar
em Ana e nos pequeninos pés de Ana.
Aqui paro para adivinhar
que Ana está descalça
e continuo a adivinhar o poema
que possa existir e que possa levar o nome de Ana:
Ana está descalça
e os pés de Ana e os movimentos claros e fluídos de Ana
são pequenas açucenas
dispersas na nascente de um rio
e que seguem - docemente, molemente -
para longe da nascente deste rio.
E aqui paro, pois já não há no retrato de Ana
nada mais que eu possa retratar.
Aqui paro e aqui passo
a falar do único dia que teria visto Ana
pois a verdade é que nunca vi Ana
e na parede do meu quarto há gravuras holandesas:
Vi Ana numa manhã de chuva e ela não parecia triste
e o seu guarda-chuva amarelo, aberto como um girassol,
deveria ser o modelo para todos os girassóis
e depois vi Ana na tarde de sol e ela era um trigal,
mas um trigal inquieto, um trigal ardente, um trigal em chamas,
um trigal depois queimado pelo orvalho e pelo luar,
um trigal de uma umidade trespassada pela sede,
um trigal cansado de ser trigal,
um trigal e a espera nervosa de um tigre
que sente fome de carne e que reluz
- metade na penumbra azul, metade na penumbra brônzea -
como uma silhueta de fêmea
e por isso os caçadores que voltam das planícies
retornam todos enlouquecidos e todos se entorpecem
como se não quisessem existir apenas porque
tudo o que fere é a vontade de existir.
E aqui paro pois o dia em que vi-mas-não-vi Ana
terminou e não sei como Ana é
em todos os outros dias.
Aqui paro e passo a dizer o que Ana é
ao dizer aquilo que Ana não é
e tiro imagens de um sonho
embora nunca lembre os meus sonhos:
Ana não é a menina da porta ao lado.
Ana não é a Anna Flor do poema que eu lia quando amava outra Ana.
Ana não é algo que termina.
Ana não é a luz que empalidece.
Ana não é um animal que foge do êxtase.
Ana não é um piano que naufraga.
Ana não é um poema que se escreva
sem que se saiba o que são açucenas,
sem sem que se saiba o que são girassóis,
sem que se saiba o que são trigais,
sem que se saiba o que são meninas da porta ao lado,
sem que se saiba quem foi Anna Flor,
sem que se saiba das coisas que terminam,
sem que se saiba o que são animais em êxtase.
II.
Fui até Ana após ter escrito um poema
que não era Ana - um poema que era
apenas o que eu sonhava em Ana.
Assim cantei os seus olhos castanhos
mas não cantei como Ana revela
os seus olhos castanhos após o beijo;
estes olhos olhos que vem à superfície
como vem à superfície um lírio
nascido e desabrochado na fundura
de um rio que leva o coração de Ana
até a superfície da pele, um rio
que adormece este coração-vertigem de Ana
sob o peso das pálpebras e cílios
que apenas suportam o peso da luz,
que apenas bebem o silêncio da penumbra
do erguer do sol e do cair do sol.
Assim comecei a cantar os olhos de Ana
mas o que cantei foi o que eu buscava em Ana:
uma elegia que era uma cicatriz
nascida em mim antes de Ana
e um hino que era a exaltação
de uma terra nunca vista
e tão plenamente fértil que tudo germinava:
Ana e os seus pés que eram açucenas.
Ana e o seu guarda-chuva que era um girassol.
Ana que não era um piano a naufragar.
Ana que era a luz trêmula e dura
das aquarelas que perduram...
Mas agora que estive com Ana
e agora que acordei junto de Ana
digo: Ana é um alegre madrigal
e por isso a alegria de Ana é um festival
de flores numa praça ao entardecer
após a chuva, quando temos os corpos ainda quentes
do amor tido no alvorecer,
uma praça que cheira a terra e árvores molhadas
e então Ana aponta flores brancas
e as nomeia como se nomeasse a própria alegria:
são margaridas - eis o júbilo de Ana,
eis a luz trêmula e vibrante que é Ana
a nomear as coisas, eis os mais lindos girassóis
que ainda não vi, eis um piano
que não naufraga embora eu saiba
que o silêncio de Ana é o diminuto murmúrio
de algo que se afoga em meu sangue.
E tanto cantei Ana
que até cantei que Ana era um trigal
mas agora que estive com Ana e agora
que despi Ana digo que a nudez de Ana
ondula como um trigal às vezes ondula
e por isso digo e me corrijo:
Ana é um trigal, mas um trigal não é Ana.
Um trigal arde mais quando arde o sol
e bebe a umidade que vem do luar
e lança aos ventos uma cantiga e um perfume
que pertencem ao luar e ao trigal
sem que sejam o luar e o trigal.
Já Ana pode queimar (pois eu a vi queimar)
ainda quando o dia é branco
e Ana tem uma voz claramente sua - a voz de Ana! -
e um perfume só seu atravessado pelo dulçor
mas que não é apenas dulçor.
Um perfume que na sua hora mais plácida
pode ser uma plácida cantiga de amor
que toda menina aprende quando ninada
por uma mãe triste ou por um avô de violão triste.
Um perfume que na sua hora mais agreste
pode ser a essência de uma romã bravia
ou de um animal ferido pela primeira vez
e que foge mata adentro, sangrando,
e das funduras da mata vem apenas o uivo
desta carne jovem, desta carne já acesa,
desta carne que reconhece como possível
apenas o mundo em que flua o seu sangue,
apenas o mundo em que caiba o seu gozo
e o que vem depois é uma revoada de pássaros.
III.
O que eu não sabia quando Ana me pediu um poema
e o que eu não sabia ao cantar que Ana não era um a piano naufragar
é que Ana se confunde com a revoada de pássaros
que migram do seu pulso em busca de terra primaveril.
E o que eu não sabia, ainda após contemplar
esta primeira e assombrosa revoada de pássaros,
é que outras viriam e que Ana também é um areal:
uma dourada faixa de terra no princípio de um dia
que nunca cessa de principiar; uma dourada faixa de terra
plana e mais além, também planas, as plácidas águas do oceano
e tudo é silêncio até que uma alteração na densidade das horas
torna o ar sôfrego e do areal dourado se ergue um grito
de amor pungente: as águas convulsionam, forma-se a espuma
que se desfaz em arfares e após o último arfar
surge outra revoada de pássaros - brancos
e numerosos, pássaros que vão ao céu
até que não haja mais abismo.
O que eu não sabia (e o que eu sabia, afinal?)
é tudo aquilo que apenas Ana me ensina
quando ela é tremor saciado e quando ri
quando faz festas com os animais
e quando ela, Ana, fala sobre a infância
em meio ao esplendor negro das penas de galinhas d'angola
e quando fala sobre a juventude
enquanto uma agonia cega, uma agonia de fugas,
uma agonia que apenas encontrava quieta morada
na sua coleção de seixos que - apesar dos dias brutos
e das horas brutas e do bruto curso das vazantes -
permaneceram belos: último eco, última forma
de uma natureza candente pois também assim
é o coração de Ana: cadente estrela da manhã que
- apesar dos dias brutos e das horas brutas
e do bruto curso das auroras - anseia
ser a estrela de uma vida inteira.
E o que eu não sabia sobre Ana é o que eu não sabia
sobre uma mulher adormecida
mas agora sei e digo: uma mulher adormecida é um rio
à espera, um rio que traz em sua fundura
e em suas cheias e em seus afluentes
o arquejar pulsante e secreto de novas vidas
e ao rio me dirijo - animal nunca saciado -
e me sento junto à sua foz
e bebo as suas águas frescas
e lavo o rosto e encontro um espelho
na planura das águas adormecidas.
À foz do rio me dirijo e ali adormeço, apaziguado
pelo canto melífluo das vagas e os olhos fitos no céu;
os olhos fitos no luar alto, gotejante e imenso;
os olhos fitos no luar e, no instante em que adormeço,
reconheço no luar alto, gotejante e imenso o reflexo
do coração ardente que espera dentro do rio
e tanta ternura se agita em mim,
tanta ternura e tanto medo de morrer
e não estar mais junto à água que me será espelho
e não mais estar junto à mulher que traz no ventre
o que me será continuação e tanto medo de perder
esta herança antes que ela venha.
Tanto medo, tanta ternura, tanta febre: tudo a me dizer
que eu não sabia o que era medo
e que eu não sabia o que era ternura
e que eu não sabia o que era febre
e que eu sequer desconfiava do que Ana me ensinaria
pois o que eu não sabia sobre Ana
é o que eu não sabia sobre o amor, o que eu não sabia
sobre as febris alquimias do querer:
revoada de pássaros saídos
do pulso aberto de Ana para abrirem o meu pulso
e aqui encontrarem abrigo e aqui pulsarem.
terça-feira, 27 de dezembro de 2011
Blow Up
Pedro sofreu o acidente que o deixou coxo em dezembro, e a sua esposa, se me recordo bem, teve machucados ainda mais horríveis. Portanto o natal foi pouco comemorado: após uma ceia breve e saudações à meia-noite, todos foram dormir. Eu estava sem sono e pensei em pegar o carro e dar uma volta pela cidade, talvez ir até o Radio City.
Na tarde seguinte liguei para um amigo e combinamos de nos encontrar no salão de bilhar. Assim que iniciamos a disputa, começou a chover. Junto ao balcão, o homem que administrava o lugar jogava um estranho jogo de cartas com outro sujeito. Às vezes esse outro sujeito gritava. Perto deles, comendo de um prato que recendia a gordura antiga, estava sentada uma adolescente – rosto claro ungido pelo suor e pela gordura que se emanava da chapa de grelhar hambúrgueres, os seios salientes (talvez engordurados também) sob o fino tecido da blusa, cabelos à altura do pescoço. À medida que a chuva ficava mais forte, a madeira dos tacos tornava-se pegajosa e não conseguimos nos divertir. Antes do crepúsculo eu já tinha voltado para casa e, quando a noite se insinuou e parou de chover, veio, dos fundos do quintal, um cheiro de bananeiras molhadas.
Nos dias que se seguiram, eu e Cartago voltamos a perambular pela cidade velha. As lojas – após a alegria natalina – estavam todas fechadas. A prefeitura ainda não tinha dado início aos trabalhos de limpeza, e as ruas encontravam-se atulhadas de papel picado e jornais de propaganda. Chovia forte quase todas as tardes, mas depois vinha o sol, e ascendia um mormaço doente e preguiçoso. A impressão que se tinha era de que a água estava estagnada há não sei quantas semanas e por isso apodrecera.
Na última tarde do ano também vagamos pelo centro: primeiro uma caminhada pelas ruas quietas e ensolaradas (aqui e ali explodiam bombas, e ao mormaço fundia-se o cheiro de pólvora), depois algumas partidas no salão de bilhar e por fim uma visita ao shopping, que tinha todas as lojas fechadas e, na praça de alimentação, as cadeiras empilhadas. Era a última sessão de cinema do ano e havia poucas pessoas na sala de exibição. Sentámo-nos e, enquanto esperávamos o filme, vimos chegar um grupo formado por uma mulher e duas raparigas de quinze ou dezesseis anos. As meninas não pareciam ser irmãs ou primas – o tom da pele, a cor dos cabelos, os ossos do rosto, as sombras ao redor dos olhos, os gestos: nada indicava parentesco e o único aspecto que tinham em comum era uma magreza desengonçada (era como se o silêncio e a melancolia – uma tristeza apenas adivinhada, apenas imaginada – tornassem o ar mais espesso ou rarefeito; como se as duas meninas, ou melhor, como se os seus dois corpos magros ainda não estivessem acostumados a variações na densidade das horas).
Quando saímos do cinema e ganhamos a rua, o crepúsculo ia pela metade. Tinha sido uma tarde sem chuvas e um sopro quente varria os papéis e as copas das árvores. Bombas ainda explodiam aqui e ali (agora com mais frequência). Do alto dos postes descia uma luz que, misturada à poeira do entardecer, assumia um tom alaranjando, enquanto o céu poente oscilava entre matizes pálidos e de um azul muito escuro. Por quase uma quadra, a mulher e as meninas caminharam diante de nós, e durante todo o tempo tivemos a impressão (agora também em relação à mulher) de magreza destroçada, aniquilada. Era como olhar para o retrato de alguém – um retrato tirado durante um momento de introspecção – e adivinhar uma morte triste, talvez por suicídio.
quarta-feira, 21 de dezembro de 2011
Tribunal: Augusto
AUGUSTO
Se a Augusto, que nunca teve o hábito da leitura,
fosse incumbida a magna e dolorosa tarefa
de gravar nas portas de mármore do tribunal
(embora a sede do tribunal de nosso burgo
não seja mais do que uma creche abandonada)
o que é a justiça dos homens (afinal, Augusto
serviu esta casa por quarenta anos)
ele provavelmente olharia para o próprio coração
e apenas diria Por aqui ter entrado
aqui deixei toda a minha esperança.
Feito esse trabalho, uma sombra de silêncio
cairia sobre Augusto, que então evocaria
os seu idos dias enquanto diretor
e por que motivos mesquinhos perdeu o cargo:
deixou de mandar à incineração
os papéis que deveriam ser incinerados.
Por mais de um ano os processos
ficaram nos fundos do tribunal, expostos
à chuva e ao sol, exalando um nauseante cheiro
de bolor até que a sorte de Augusto foi selada
por um cadáver de rato ali encontrado.
Mas os ratos tomaram conta deste prédio
há décadas. Eles estão em todas as sombras -
ainda argumentou o pobre
à magistrada que lhe tirou o poder.
Isto, é verdade, aconteceu há muitos anos
e por muitos anos Augusto continuou a servir
à lei e aos magistrados.
Não havia sequer um dia que, magoado,
deixava de maldizer os ratos que haviam sido
a sua ruína. E assim ferido, Augusto,
continuava a perseguir as belas advogadas
e jovens prepostas que sequer conseguira ter
quando se julgava poderoso.
Estes os últimos dias de Augusto no tribunal
e se a ele fosse incumbida a tarefa
de dizer o que pode acontecer a um homem
teríamos então o mais próximo relato
do que Napoleão sofreu na ilha de Santa Helena.
Se a Augusto, que nunca teve o hábito da leitura,
fosse incumbida a magna e dolorosa tarefa
de gravar nas portas de mármore do tribunal
(embora a sede do tribunal de nosso burgo
não seja mais do que uma creche abandonada)
o que é a justiça dos homens (afinal, Augusto
serviu esta casa por quarenta anos)
ele provavelmente olharia para o próprio coração
e apenas diria Por aqui ter entrado
aqui deixei toda a minha esperança.
Feito esse trabalho, uma sombra de silêncio
cairia sobre Augusto, que então evocaria
os seu idos dias enquanto diretor
e por que motivos mesquinhos perdeu o cargo:
deixou de mandar à incineração
os papéis que deveriam ser incinerados.
Por mais de um ano os processos
ficaram nos fundos do tribunal, expostos
à chuva e ao sol, exalando um nauseante cheiro
de bolor até que a sorte de Augusto foi selada
por um cadáver de rato ali encontrado.
Mas os ratos tomaram conta deste prédio
há décadas. Eles estão em todas as sombras -
ainda argumentou o pobre
à magistrada que lhe tirou o poder.
Isto, é verdade, aconteceu há muitos anos
e por muitos anos Augusto continuou a servir
à lei e aos magistrados.
Não havia sequer um dia que, magoado,
deixava de maldizer os ratos que haviam sido
a sua ruína. E assim ferido, Augusto,
continuava a perseguir as belas advogadas
e jovens prepostas que sequer conseguira ter
quando se julgava poderoso.
Estes os últimos dias de Augusto no tribunal
e se a ele fosse incumbida a tarefa
de dizer o que pode acontecer a um homem
teríamos então o mais próximo relato
do que Napoleão sofreu na ilha de Santa Helena.
terça-feira, 20 de dezembro de 2011
Tribunal: dois poemas iniciais.
DOUTOR PAULO ABRANCHES
2011 não foi um bom ano para o Doutor Paulo Abranches.
Ainda em Março, a sua casa
foi invadida por homens armados.
Durante o seu depoimento, enquanto vítima,
o Doutor Abranches foi mil vezes mais eloquente e preciso
do que enquanto advogado.
Agosto veio, e um estio terrível
passou a lhe sufocar durante o sono
e ele então acordava e com os olhos
mal habituados às trevas mirava
as formas cambiantes que eram o corpo de sua velha mulher
e os móveis e as roupas ao redor, fantasmagóricos.
Esperava então pelo murmúrio, o calmo sussurro
da chuva fina que começa alta noite
e invade a manhã - brisa gotejante
a cair dos beirais dos telhados e do alto das árvores.
Em Outubro, às primeiras tempestades,
foi novamente vitimado por homens armados:
acertaram-no o intestino, mas o que o matou
foi a infecção que atacou os pulmões.
Naquelas noites, igual em Agosto,
acordava sufocado, com os olhos
que agora eram flores devolvidas pelas sombras
e escutava a fina chuva que caía lá fora
e sabia que já não apenas o desejo
havia o abandonado (tanta coisa
perde um homem antes de perder tudo).
No dia de seu funeral, como é comum
em nossa pequena cidade, um carro com alto-falantes
percorreu lento as ruas, reverberando um clarim fúnebre
e isto era, apenas isto era o dobrar dos sinos
por aqueles levados no barco de Caronte.
Após ecoar o áspero clarim, uma voz também áspera
informava que o Doutor Paulo Abranches estava morto
e que deixava uma mulher outrora bela.
DOUTOR JUSTINO
O Doutor Justino - melhor amigo do Doutor Abranches -
ficou de tal modo ferido pelo acontecido
que no dia seguinte à ida de seu companheiro às raízes
permitiu que um acusado a quem fora incubida a defesa
fosse condenado sem a observância do processo legal.
Na noite seguinte, a insônia que recaiu
sobre o Doutor Justino foi por ele próprio
reconhecida como vã e, no entanto, o que tanto pungia
o seu peito magoado?
Era o amigo morto
ou o ladrão mal defendido?
Levantou-se com a esperança de que um copo de conhaque
devolvesse o sono perdido.
Entre um gole e outro evocava
os ladrões crucificados ao lado de Cristo.
O Doutor Justino bem sabia, amargo,
que a história dos dias é a história
de homens que morrem por outros homens
e sequer um nome fica como erva.
2011 não foi um bom ano para o Doutor Paulo Abranches.
Ainda em Março, a sua casa
foi invadida por homens armados.
Durante o seu depoimento, enquanto vítima,
o Doutor Abranches foi mil vezes mais eloquente e preciso
do que enquanto advogado.
Agosto veio, e um estio terrível
passou a lhe sufocar durante o sono
e ele então acordava e com os olhos
mal habituados às trevas mirava
as formas cambiantes que eram o corpo de sua velha mulher
e os móveis e as roupas ao redor, fantasmagóricos.
Esperava então pelo murmúrio, o calmo sussurro
da chuva fina que começa alta noite
e invade a manhã - brisa gotejante
a cair dos beirais dos telhados e do alto das árvores.
Em Outubro, às primeiras tempestades,
foi novamente vitimado por homens armados:
acertaram-no o intestino, mas o que o matou
foi a infecção que atacou os pulmões.
Naquelas noites, igual em Agosto,
acordava sufocado, com os olhos
que agora eram flores devolvidas pelas sombras
e escutava a fina chuva que caía lá fora
e sabia que já não apenas o desejo
havia o abandonado (tanta coisa
perde um homem antes de perder tudo).
No dia de seu funeral, como é comum
em nossa pequena cidade, um carro com alto-falantes
percorreu lento as ruas, reverberando um clarim fúnebre
e isto era, apenas isto era o dobrar dos sinos
por aqueles levados no barco de Caronte.
Após ecoar o áspero clarim, uma voz também áspera
informava que o Doutor Paulo Abranches estava morto
e que deixava uma mulher outrora bela.
DOUTOR JUSTINO
O Doutor Justino - melhor amigo do Doutor Abranches -
ficou de tal modo ferido pelo acontecido
que no dia seguinte à ida de seu companheiro às raízes
permitiu que um acusado a quem fora incubida a defesa
fosse condenado sem a observância do processo legal.
Na noite seguinte, a insônia que recaiu
sobre o Doutor Justino foi por ele próprio
reconhecida como vã e, no entanto, o que tanto pungia
o seu peito magoado?
Era o amigo morto
ou o ladrão mal defendido?
Levantou-se com a esperança de que um copo de conhaque
devolvesse o sono perdido.
Entre um gole e outro evocava
os ladrões crucificados ao lado de Cristo.
O Doutor Justino bem sabia, amargo,
que a história dos dias é a história
de homens que morrem por outros homens
e sequer um nome fica como erva.
domingo, 11 de dezembro de 2011
Às Tangerinas
Manuel Bandeira dedicava a sua grande ternura
aos passarinhos mortos
e às meninas bonitas que se tornaram feias mulheres.
Eu oferto a minha ternura às tangerinas.
Este fruto de sabor mais do que ácido: ardente.
Esta fresca acidez feita para um dia de sol
mas que madura no inverno.
Basta dizer tangerinas que sinto uma luz vibrante
a me sair pela garganta.
Fruto que mais desejo quanto mais sede tenho
e o dia é reverberação da luz.
A minha grande ternura às tangerinas
porque me lembram um coração
há pouco ferido e há pouco consagrado
em tardes ungidas de amor.
A minha grande ternura às tangerinas
e a este trêmulo coração que entra na noite
e ainda palpita.
aos passarinhos mortos
e às meninas bonitas que se tornaram feias mulheres.
Eu oferto a minha ternura às tangerinas.
Este fruto de sabor mais do que ácido: ardente.
Esta fresca acidez feita para um dia de sol
mas que madura no inverno.
Basta dizer tangerinas que sinto uma luz vibrante
a me sair pela garganta.
Fruto que mais desejo quanto mais sede tenho
e o dia é reverberação da luz.
A minha grande ternura às tangerinas
porque me lembram um coração
há pouco ferido e há pouco consagrado
em tardes ungidas de amor.
A minha grande ternura às tangerinas
e a este trêmulo coração que entra na noite
e ainda palpita.
sábado, 15 de outubro de 2011
Para Ana, Que Me Pediu Um Poema
I.
Ana me pede um poema
que já não sei escrever:
um poema que seja Ana
e que traga um canto que Ana
nunca ouviu.
Sem saber o início, olho uma foto de Ana
e traço o inventário
que sequer é o inventário da beleza de Ana:
Ana tem os olhos castanhos.
Ana tem os cabelos também castanhos
e os cabelos castanhos de Ana
são cortados à altura dos ombros, à moda de Anna Karina.
Ana traz sempre os ombros desnudos.
Ana traz sempre os ombros desnudos vermelhos de sol.
Ana adora usar vestidos.
Ana passa batom antes de sair de casa.
Ana tem as mãos pequenas.
Ana tem os pés ainda mais pequenos.
E aqui paro, a pensar
em Ana e nos pequeninos pés de Ana.
Aqui paro para adivinhar
que Ana está descalça
e continuo a adivinhar o poema
que possa existir e que possa levar o nome de Ana:
Ana está descalça
e os pés de Ana e os movimentos claros e fluídos de Ana
são pequenas açucenas
dispersas na nascente de um rio
e que seguem - docemente, molemente -
para longe da nascente deste rio.
E aqui paro, pois já não há no retrato de Ana
nada mais que eu possa retratar.
Aqui paro e aqui passo
a falar do único dia que teria visto Ana
pois a verdade é que nunca vi Ana
e na parede do meu quarto há gravuras holandesas:
Vi Ana numa manhã de chuva e ela não parecia triste
e o seu guarda-chuva amarelo, aberto como um girassol,
deveria ser o modelo para todos os girassóis
e depois vi Ana na tarde de sol e ela era um trigal,
mas um trigal inquieto, um trigal ardente, um trigal em chamas,
um trigal depois queimado pelo orvalho e pelo luar,
um trigal de uma umidade trespassada pela sede,
um trigal cansado de ser trigal,
um trigal e a espera nervosa de um tigre
que sente fome de carne e que reluz
- metade na penumbra azul, metade na penumbra brônzea -
como uma silhueta de fêmea
e por isso os caçadores que voltam das planícies
retornam todos enlouquecidos e todos se entorpecem
como se não quisessem existir apenas porque
tudo o que fere é a vontade de existir.
E aqui paro pois o dia em que vi-mas-não-vi Ana
terminou e não sei como Ana é
em todos os outros dias.
Aqui paro e passo a dizer o que Ana é
ao dizer aquilo que Ana não é
e tiro imagens de um sonho
embora nunca lembre os meus sonhos:
Ana não é a menina da porta ao lado.
Ana não é a Anna Flor do poema que eu lia quando amava outra Ana.
Ana não é algo que termina.
Ana não é a imaterial luz que empalidece.
Ana não é um animal que foge do êxtase.
Ana não é um piano que naufraga.
Ana não é um poema que se escreva
sem que se saiba o que são açucenas,
sem sem que se saiba o que são girassóis,
sem que se saiba o que são trigais,
sem que se saiba o que são meninas da porta ao lado,
sem que se saiba quem foi Anna Flor,
sem que se saiba das coisas que terminam,
sem que se saiba o que são animais em êxtase.
II.
Ana me pede um poema
que já não sei escrever:
um poema que seja Ana
e que traga um canto que Ana
nunca ouviu.
Sem saber o início, olho uma foto de Ana
e traço o inventário
que sequer é o inventário da beleza de Ana:
Ana tem os olhos castanhos.
Ana tem os cabelos também castanhos
e os cabelos castanhos de Ana
são cortados à altura dos ombros, à moda de Anna Karina.
Ana traz sempre os ombros desnudos.
Ana traz sempre os ombros desnudos vermelhos de sol.
Ana adora usar vestidos.
Ana passa batom antes de sair de casa.
Ana tem as mãos pequenas.
Ana tem os pés ainda mais pequenos.
E aqui paro, a pensar
em Ana e nos pequeninos pés de Ana.
Aqui paro para adivinhar
que Ana está descalça
e continuo a adivinhar o poema
que possa existir e que possa levar o nome de Ana:
Ana está descalça
e os pés de Ana e os movimentos claros e fluídos de Ana
são pequenas açucenas
dispersas na nascente de um rio
e que seguem - docemente, molemente -
para longe da nascente deste rio.
E aqui paro, pois já não há no retrato de Ana
nada mais que eu possa retratar.
Aqui paro e aqui passo
a falar do único dia que teria visto Ana
pois a verdade é que nunca vi Ana
e na parede do meu quarto há gravuras holandesas:
Vi Ana numa manhã de chuva e ela não parecia triste
e o seu guarda-chuva amarelo, aberto como um girassol,
deveria ser o modelo para todos os girassóis
e depois vi Ana na tarde de sol e ela era um trigal,
mas um trigal inquieto, um trigal ardente, um trigal em chamas,
um trigal depois queimado pelo orvalho e pelo luar,
um trigal de uma umidade trespassada pela sede,
um trigal cansado de ser trigal,
um trigal e a espera nervosa de um tigre
que sente fome de carne e que reluz
- metade na penumbra azul, metade na penumbra brônzea -
como uma silhueta de fêmea
e por isso os caçadores que voltam das planícies
retornam todos enlouquecidos e todos se entorpecem
como se não quisessem existir apenas porque
tudo o que fere é a vontade de existir.
E aqui paro pois o dia em que vi-mas-não-vi Ana
terminou e não sei como Ana é
em todos os outros dias.
Aqui paro e passo a dizer o que Ana é
ao dizer aquilo que Ana não é
e tiro imagens de um sonho
embora nunca lembre os meus sonhos:
Ana não é a menina da porta ao lado.
Ana não é a Anna Flor do poema que eu lia quando amava outra Ana.
Ana não é algo que termina.
Ana não é a imaterial luz que empalidece.
Ana não é um animal que foge do êxtase.
Ana não é um piano que naufraga.
Ana não é um poema que se escreva
sem que se saiba o que são açucenas,
sem sem que se saiba o que são girassóis,
sem que se saiba o que são trigais,
sem que se saiba o que são meninas da porta ao lado,
sem que se saiba quem foi Anna Flor,
sem que se saiba das coisas que terminam,
sem que se saiba o que são animais em êxtase.
II.
Fui até Ana após ter escrito um poema
que não era Ana - um poema que era
apenas o que eu sonhava em Ana.
Assim cantei os seus olhos castanhos
mas não cantei como Ana revela
os seus olhos castanhos após o beijo,
estes olhos olhos que vem à superfície
como vem à superfície uma rosa
nascida e desabrochada na fundura
de um rio que leva o coração de Ana
até a superfície da pele, um rio
que adormece este coração-vertigem de Ana
sob o peso das pálpebras e cílios
que apenas suportam o peso da luz,
que apenas bebem o silêncio da penumbra
do erguer do sol e do cair do sol.
Assim cantei os olhos de Ana
mas os olhos de Ana são um poema que se esgota
e por isso cantei além dos olhos
e o que cantei foi o que eu buscava em Ana:
uma elegia que era uma cicatriz
nascida em mim antes de Ana
e um hino que era a exaltação
de uma terra nunca vista
e tão plenamente fértil que tudo germinava:
Ana e os seus pés que eram açucenas.
Ana e o seu guarda-chuva que era um girassol.
Ana que não era um piano a naufragar.
Ana que era a luz trêmula e dura
das aquarelas que perduram...
Mas agora que estive com Ana
e agora que acordei junto de Ana
digo: Ana é um alegre madrigal
e por isso a alegria de Ana é um festival
de flores numa praça ao entardecer
após a chuva, quando temos os corpos ainda quentes
por termos nos protegido da chuva,
uma praça que cheira a terra e árvores molhadas
e então Ana aponta flores brancas
e as nomeia como se nomeasse a própria alegria:
são margaridas - eis o júbilo de Ana,
eis a luz trêmula e dura que é Ana
a nomear as coisas, eis os mais lindos girassóis
que ainda não vi, eis um piano
que não naufraga embora eu saiba
que o silêncio de Ana é o diminuto murmúrio
de algo que se afoga em meu sangue.
E tanto cantei Ana
que até cantei que Ana era um trigal
mas agora que estive com Ana e agora
que despi Ana digo que a nudez de Ana
ondula como um trigal às vezes ondula
e por isso digo e me corrijo:
Ana é um trigal, mas um trigal não é Ana.
Um trigal arde mais quando arde o sol
e bebe a umidade que vem do luar
e lança aos ventos uma cantiga e um perfume
que pertencem ao luar e ao trigal
sem que sejam o luar e o trigal.
Já Ana pode queimar (pois eu a vi queimar)
ainda quando o dia é gris
e Ana tem uma voz claramente sua - a voz de Ana! -
e um perfume só seu atravessado pelo dulçor
mas que não é apenas dulçor.
Um perfume que na sua hora mais plácida
pode ser uma plácida cantiga de amor
que toda menina aprende quando ninada
por uma mãe triste ou por um avô de violão triste.
Um perfume que na sua hora mais agreste
pode ser a essência de uma romã bravia
ou de um animal ferido pela primeira vez
e que foge mata adentro, sangrando,
e das funduras da mata vem apenas o uivo
desta carne jovem, desta carne já acesa,
desta carne que reconhece como possível
apenas o mundo em que flua o seu sangue,
apenas o mundo em que caiba o seu gozo.
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