domingo, 21 de dezembro de 2008

Poema

Há dias que se prendem à memória
como se fossem o nome de um morto.

Lembro-me de uma tarde chuvosa,
da juventude, da luz em queda,
dos tediosos minutos, da praça
e da catedral tão vazias ao anoitecer.

Lembro-me de caminhos brumosos
e de como havia placidez
nas poças d'água espelhando o néon
nas pétalas caídas sobre a terra
no murmurejar da chuva
sobre a cidade esfumada.

Lembro-me também do reencontro
com uma antiga colega, uma rapariga
cuja beleza nunca atingiu o esplendor
e que já naqueles dias começava a fenecer
enquanto em mim, a tristeza,
ia além da vontade de chorar
e muito tímida revolvia o desejo
de nunca ter nascido.

E tanto naquele dia como hoje
permanecem em erro
o espírito, o coração,
o amor colhido e ofertado.

Foi cantado: os anos são de mudanças
mas também deve ser cantado
que algo permanece em inércia.
Pois, como antes, o anoitecer chuvoso
e nevoento o horizonte.
Como antes, incendeia-se
a alegria que haverá de regressar.
Como antes, algo se inquieta, algo
que não existe e que nunca
poderá existir. Algo como nostalgia
de uma luz nunca vista
e que permanece, estiolada,
dentro do espírito ignorante.