domingo, 15 de março de 2009

Poema

POUCO A POUCO, OS DIAS DE CALOR

Pouco a pouco, os dias de calor
mudam-se em horas de irisada luz
enquanto aqui, neste quarto de estudos,
a morta infância parece afogada
em águas claras e lisas– as quais
não escavam os seixos mais profundos.

Quereria eu, em bonito dia,
da carne caduca alcançar a fuga
para a carne pueril visitar.
Com esse corpo, à praça central
iria – perto das flores do estio
e dos mascates da falência próximos –
e lá escapar do exílio que à mente
e ao coração isolou; regressar
às tardes mais do que suaves: fáceis,
e às moças mais do que fáceis: entregues
à febre que por esplendor se toma.
Esplendor o qual, como o orvalho queima
a frágil relva, machuca os seus rostos
na hora que a luz parece perene
embora morra: crepúsculo claro
e veloz – crepúsculo feito sonho
no qual a dor não é dor, e o cair
não é cair, e o tempo não é tempo
(assim inscientes vamos ao Hades,
assim cegos pela primeira vez
a estiolada luz nos vaza os olhos,
assim ignorantes esquecemos
as palavras tolas e os deuses tolos).

Nada a fazer contra esse entardecer.
Embora branda, a tarde lá fora
é a tarde de agora, pois a noite
que virá depois, mesmo constelada,
é a profunda noite da velhice.
E a praça central, embora concreta,
não é a praça central: é apenas
um lugar triste, algo como um túmulo
ou um nome de morto que também
é o nome de um vizinho – um homem
calado mas gentil, familiar
mas estrangeiro: apenas a sombra,
a estranha sombra do que não existe.

domingo, 8 de março de 2009

Poema

MAIS VELHO DO QUE TELÊMACO

Estar aqui, na casa paterna,
entre os animais e o pomar
cujos frutos, colhidos pelo dia, apodrecem
sobre a terra, à sombra da infância.

Por mais quantos anos isso durará?
Percebo que fiquei tempo demasiado
e que se exilar desses jardins e dessas noites
seria o início da morte.

Assim não seria se jovem
- com a idade de Telêmaco, talvez -
eu fosse visitado por Palas
e com a sua empresa tivesse
ido para longe de Ítaca.

Mas essa deusa de olhos glaucos, se existe,
é a fulgurante vigília das estrelas
que ardem nas noites límpidas e quietas:
trazido pelo vento, não chega
o marulhar das ondas contra as pedras.
Tudo o que ouço – sozinho nos fundos
da casa, perto da piscina –
é o que ouço desde menino:
morcegos que agitam as asas
e a faiscante trajetória dos vagalumes
e os gatos que andam sobre as folhas secas
e o frêmito que chega da cidade
e outro murmúrio, este tão misterioso
que ora penso ser o chispar dos astros próximos
e ora penso ser o lamento da vida
que de mim se evade.

E tudo é tão familiar: sei de onde virá o sol
e com que sutilezas uma estação ingressará na outra.
Portanto, se tudo é como na infância,
por que há noites em que a alegria verte-se em dor?
Por que um anseio por outro céu e outra casa
se a casa que habito e o céu que contemplo
é o que mais temo perder?
E por que desejo que as estrelas
sejam de fato a deusa dos olhos glaucos?

Se fecho os olhos, até imagino como ela
viria até mim, que decisivas palavras diria
e como depois, mudada em faiscante vagalume,
retornaria ao céu estrelado.
Eu ainda não escutaria, ao longe,
as ondas que rebentam contra as pedras,
mas talvez deixasse de temer
o crescente eco que de mim se acerca.

domingo, 1 de março de 2009

Espólio do antigo computador - Conto: Documentário

Os olhos dele eram azuis, assim como os dela. Quem observava a ambos, pai e filha, não pensava que pudesse ser adotada: um bebê vindo do sul com apenas quatro meses de idade, subnutrido, olhar muito triste, rosto pálido, com poucos cabelos ruivos cobrindo a cabeça. O homem tinha trinta anos; a esposa era mais jovem, contava vinte e seis. Ele era médico, cuidava de crianças, embora na faculdade tivesse sonhado ser oftamologista.

Os olhos eram azuis, mas agora ele está morto e ela está diante de um homem de olhos e cabelos negros. O que devo dizer? O riso é encabulado, as pessoas costumam ficar tímidas quando filmadas. Fale sobre aquela sua teoria. Qual teoria? A que diz que as pessoas têm mais virtudes do que defeitos. Fale para a câmera, por favor. Não é teoria, é apenas uma opinião. Mas fale. Eu acho que as pessoas têm mais virtudes do que defeitos: se você conhece uma pessoa, pode ser o mais cruel assassino, vai conhecer as suas qualidades e vai nascer o sentimento de afeto. É isso que devo dizer? É, é isso mesmo, as pessoas têm mais virtudes do que defeitos. Desliga a câmera.

Sempre o chamou de pai, mesmo durante toda a confusão, aqueles meses dominados pela loucura e pelo ódio. Ele estava num esquife na última vez que o viu. A sala onde aconteceu o velório fedia; cheiro de cigarros, de café requentado, de flores maceradas, de comentários graves. Aproximou-se com passos lentos, com medo da magra figura coberta por lençóis brancos. As únicas partes do corpo descobertas eram as mãos, cruzadas sobre o peito, e o rosto pálido e chupado. Apresentava a morbidez típica dos suicidas. A sala fedia, cheiro de cigarros, de ódio também - ódio, espanto e culpa. Foi durante uma tarde de muito calor. Antes de sair para o funeral, quis almoçar, mas estava sem apetite. Apenas ficou na cozinha, em silêncio, com os cotovelos apoiados sobre a mesa de mármore, olhando as samambaias que eram queimadas pelo sol do meio-dia. No decorrer da cerimônia as pessoas começaram a transpirar. Tornou-se irrespirável o cheiro de flores para defunto, um cheiro doce, muito doce. Sobre o rosto do pai pousaram algumas moscas. Quis espantá-las, mas não conseguiu.

O homem de olhos negros a observa. É um amigo, embora saiba que ele está apaixonado por ela. Quem vai ouvir agora? Não sei. No céu amontoam-se nuvens de chuva e o vento que percorre a cidade uiva ao bater contra a janela. Poderia chover, é bom pra dormir. O homem de olhos negros a observa. Ela mantém os olhos baixos, melancólicos. Tem vontade de filmar a sua primeira lembrança. Foi numa fazenda. Lembra-se da sombra do pai projetada sobre a terra batida, avermelhada. A sombra do pai caminhava ao lado da sua e ela, ao caminhar, dava passos cada vez mais largos, na tentativa de pisar os joelhos da própria sombra projetada no chão. O sol era tênue. Pararam diante de um viveiro enorme, habitado por coelhos (no viveiro ao lado galinhas faziam um barulho estridente e seco). Respirava-se o cheiro de água suja. O pai pegou um coelho, o menor de todos, e deu para que ela o segurasse. Os olhos do coelho estavam cheios de pavor. Ela ficou imóvel, segurando o animal com as duas mãos, sentindo o coração do coelho bater cada vez mais acelerado, como um pequeno tambor. Tuctuctuc: o som era amortecido pelas camadas de tecidos e músculos, não deixava qualquer eco. Ela também estava apavorada. O pai ria.

Foi pela manhã que os policiais vieram, tão subitamente que o pai parecia ser inocente. Considerou que talvez o filme devesse começar com o som peremptório das batidas na porta, com o rosto do pai assustado, a barba por fazer, os olhos azuis, a expressão de rato acossado contra a parede. Graças à Deus, sua mãe está morta, disse a avó, e ela nunca soube se este foi o seu último comentário lúcido ou o primeiro sinal da demência. Por que Graças à Deus? - pensa todas as vezes que olha a avó. Acha estranho ter sido tirada de uma família que nunca conheceu para ser colocada numa família maldita, para ser muito mimada na infância e violentada na adolescência. A mãe está morta, o pai também. Graças à Deus por quê? Tem vontade de ligar a câmera e perguntar. Somente a avó ainda resta, a avó quase cega, com os olhos cobertos por uma membrana esgazeada (olhos idiotas, ruminantes), com a boca sempre nojenta, a pele mal cheirosa, marcada por sulcos profundos e secos, como se o câncer que a devora tivesse deixado de existir, deixando-a em ruínas, como se a avó tivesse ficado velha apenas para se cagar e para não reconhecer a suposta neta.

Chega uma hora em que o cansaço quebra o seu espírito, é que há muitos filhos da puta no mundo. E esses filhos da puta, quando apanhados, transformam-se em cordeiros de olhos assustados e inocentes. É horrível olhar para um homem e saber que ele é culpado: você quer matá-lo, é um ódio que nasce aqui dentro (aponta o próprio peito) e depois que você começa não consegue parar. É horrível saber que o seu coração vai se encher de maldade a partir do momento em que você começar a torturá-lo, porque é horrível machucar um homem, mesmo o mais culpado, é horrível chutar o rosto de um homem e ouvir os barulhos dos dentes se quebrando, é horrível, horrível.

Desliga a tevê, cansada do depoimento do policial. Silêncio. O clarão de um relâmpago ilumina o quarto. Fecha os olhos e espera: o trovão demora cerca de sete segundos para ecoar. A chuva aumenta. No quarto escuro o cheiro de terra molhada soma-se ao cheiro do incenso e ao cheiro da avó, que dorme no cômodo ao lado. Vêm a vontade de dormir e a saudade do antigo nome, que murmura como se chamasse alguém. Depois fica atônita, sem entender por que motivos sente saudades de se chamar Muriel. Acho que é porque estou ficando velha, conclui, virando-se de lado e puxando as cobertas até quase cobrir o rosto. A chuva deixa de ser ouvida, mas permanece o cheiro de terra molhada. Acho que é porque estou ficando velha, a frase ecoa no quarto escuro, tão absurda quanto antes. Fecha os olhos e fica muito quieta, como se quisesse ouvir o próprio coração bombeando o sangue cuja origem lhe é estranha.

O avô também tinha olhos azuis, a família sempre foi pura, próspera. Das sombras da vigília emerge, com perturbadora nitidez, o retrato afixado na parede. São três as pessoas fotografadas: o pai ainda criança, a avó e o avô. Os três com os olhos fixos na câmera, como se soubessem que se tornariam fantasmas. Pensa demoradamente no avô, que nunca conheceu, um homem que todos dizem ter sido severo e justo. Pensa depois na avó, ao ouvir a pesada respiração no cômodo ao lado. Por fim pensa no pai, como se a sua alma ainda estivesse no quarto, à espreita, esperando que ela adormecesse. A alma é uma grande mentira, pondera, entre o sonambulismo e a vigília. A alma não existe, o que existe é a culpa que a morte não pode expiar – a culpa e o cansaço e um ódio que as pessoas não levam quando morrem; um cansaço e uma culpa e um ódio que ficam por aí, até serem herdados por alguém.

Eu acho que as pessoas têm mais qualidades do que defeitos. Se você conhece uma pessoa, pode ser o mais cruel assassino, vai conhecer as suas qualidades e vai nascer o sentimento de afeto. Na tevê, o homem de olhos negros também é um fantasma otimista, por isso é perturbador ouvi-lo. Ele fala sobre conhecer os homens e se esquece do real objetivo do filme: transformar em quebra-cabeças uma história que a realizadora conhece muito bem, como se a compaixão fosse apenas nascer dos pensamentos mais precários e dispersos, como se o perdão só pudesse decorrer da impossibilidade de compreender um homem, seus atos, seus crimes, sua miséria, seus pecados. Considera que talvez o filme devesse começar no funeral do pai: o corpo esquálido e franzino afundado no caixão enorme, os lençóis brancos, descobertas apenas as mãos e o rosto pálido, o cheiro de café, cigarros, flores para defunto, o calor lancinante, as manchas de suor nas camisas dos homens, a perversidade e a hipocrisia dos comentários graves, a culpa que a morte não pode expiar, o cansaço, o zunir dos mosquitos que pousam sobre o rosto do pai morto, ela tentando espantá-los e falhando.

É mais fácil adormecer com o quarto iluminado pelo brilho da tevê, enquanto ouve o homem de olhos negros; o homem que fala sobre perdoar e aceitar como se fosse a reencarnação do próprio Cristo. A decadência de uma família de boa fortuna, the rise and the fall, é assim que entenderão o filme, mas prosperidade e decadência são idéias idiotas, sem o menor sentido. No quarto ao lado, a avó ressona; o cheiro de terra molhada vai se diluindo, ou talvez seja o sono chegando. Então uma família é decadente por que o pai é um estuprador e a avó, uma demente que vive nas sombras, fedendo a bosta e a mijo? Então a casa vizinha é afortunada por que na hora do jantar todas as luzes estão acesas e ouvem-se os risos das crianças? Tudo é absurdo e sem o menor sentido, alegria e dor acontecem de modo totalmente imprevisto, como um trovão reverberando na tarde quente. O filme deve mesmo começar com o peremptório som das batidas na porta. Finalmente adormece e sonha com o pai debruçado e ofegante sobre seu corpo. O pai fede a bosta e a mijo, como a avó, que tudo consente, no limiar da loucura, e diz Graças à Deus a mãe está morta.

Os olhos dele eram azuis e os olhos desta outra são negros. A pele é muito clara e os cabelos são castanhos, lisos e longos, com a franja caindo sobre a metade direita do rosto, o que confere ao seu semblante uma inesperada doçura. Chove pela terceira manhã consecutiva e, para além da janela cujos vidros estão embaçados pela umidade, a cidade é um tumulto de sons e lama. O riacho transbordou e alagou as ruas que separam o centro dos outros bairros. A sala recende a incenso, a maneira encontrada para mascarar o forte cheiro de esgoto. A sala é um cômodo pequeno, muito bem decorado, com uma mesa ornada por flores brancas e roxas.

Eu sinto que ainda não fui resgatada. A mulher olha para o canto da sala em que está o piano, mas os seus negros olhos parecem vazados. Ambas têm a mesma idade, a mesma beleza pálida e fugaz. Eu ainda sinto o seu pai dentro de mim e tenho ódio de meu corpo, ódio de respirar, ódio de ouvir o coração pulsando e mantendo vivo o que o seu pai deixou dentro de mim. Por isso o piano. Um dia desejei tocar como quem respira, estar limpa por dentro, mas não consigo, simplesmente não consigo, o seu pai ficará sempre vivo dentro de mim – e eu odeio o meu corpo mas não odeio quem o destruiu pelo simples motivo do ódio não dar conta de todo horror e espanto. A mulher de olhos vazados fica em silêncio A branca luz filtrada pela janela, ao incidir oblíqua sobre o seu corpo, dá ao rosto uma natureza diáfana, talvez etérea. Gostaria de ir para muito longe. Gostaria de ter nascido em outro lugar, um lugar muito longe daqui. Gostaria de ter nascido longe do seu pai, mas não consigo partir, sempre vou carregar o que foi posto dentro de mim, sinto-me grávida de alguma coisa maldita, não posso partir, odeio o meu corpo e apenas sinto saudades (um sentimento constante, vago, indefinido, como o sonho de outra pessoa) de um lugar muito distante. O silêncio retorna, o perfume do incenso absorve o cheiro do esgoto. A documentarista estremece de medo, contempla a mulher de olhos vazados como uma aquarela em contraste com a manhã branca e chuvosa. Mas sabe que não será sempre assim, sabe que em casa, quando voltar ao depoimento dado, estará diante de um fantasma, e nada é mais triste do que ver a mulher mais linda da cidade transformada em fantasma.

Muriel, o meu nome era Muriel, diz a documentarista. A mulher de olhos vazados vai até a janela e escreve as letras do alfabeto no vidro embaçado pela chuva. Eu preferiria não ter um nome, não sei o que Sara significa. É um nome lindo, dizem, mas talvez seja como um túmulo de mármore; algo com a função única de evitar que os vermes devorem os mortos sob a luz do sol, ou talvez seja um enigma, como uma palavra dita em língua estranha. É assim que ouço o meu nome ecoar, quando me chamam: como uma palavra dita em língua estranha. O que significa ser Muriel? O que significa saber que o seu pai é um monstro? O que significa toda a dor do mundo? As mulheres se olham em silêncio, até que a documentarista se vira e sai do apartamento. Liga o carro e não vai além da primeira esquina. As águas revoltas do riacho a cercam. O barulho da chuva caindo sobre o veículo é uma canção monótona, que provoca o sono. Os vidros começam a embaçar e a água penetra, água suja, provavelmente contaminada pelos excrementos dos ratos. Sente o carro perdendo o peso, começando a rodar muito lentamente, sendo levado pela correnteza, até que um baque interrompe o movimento, devolvendo o veículo ao estado de inércia. Nas ruas alagadas, como manchas imóveis, as pessoas observam o carro. Ela evoca a primeira lembrança da infância. O coelho em suas mãos. Fecha os olhos, escuta novamente o tuctuctuc cada vez mais apavorado, mas não sabe se é o som do próprio coração ou se é o coração do coelho. As pessoas começam a jogar cordas para tentar salva-la. Ela lembra-se do medo que sentiu ao segurar o coelho e de como o pai ria como se fosse inocente. Mas agora ele está morto. Ela sente saudades e mais uma vez se lembra da tarde em que segurou um coelho apavorado. Considera que assim deveria começar o filme: com o som das batidas de um coração, de qualquer coração, simbolizando que há certas culpas que a morte não pode lavar.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

trecho

Oklahoma lembrou-se da infância, do roseiral que era cultivado por sua avó materna em um canteiro onde também cresciam hortelãs e outras ervas miúdas e sem nome. A idéia de que tudo aquilo estava acabado lançou, em seus pensamentos, a consciência de uma implacável mortalidade. Deu as costas para o roseiral e, ainda embalado por idéias funestas, virou-se para o galpão, passou a contemplar os candidatos que não paravam de chegar para a prova. Todos eles ingressavam no galpão pelo enorme pórtico que vinha do pátio e, acima das suas cabeças, também entrava a luz do sol. Agora ofuscante e poderosa pela primeira vez no dia, caía oblíqua e, ao ser refletida pelo piso frio, assumia a forma de um clarão que toldava a visão de Oklahoma como se fosse uma neblina. Por vezes, quando o vento era mais forte, esse borrão, cuja cor oscilava entre o cinza e o dourado, formava um torvelinho que nada mais era do que uma mistura desses dois matizes. Em outras vezes, tangenciando a claridade que se esbatia, era possível acompanhar a precisa trajetória de um raio de luz. Também havia momentos em que a paisagem assumia uma limpidez inesperada, ou melhor, a luz ainda caía oblíqua, o chão ainda devolvia a claridade em forma de borrão, mas esse caos de cores apenas emoldurava as pessoas que passavam pelo pórtico, e então Oklahoma evocava Eliot (Cidade irreal, / Sob a fulva neblina de uma aurora de inverno / Fluía a multidão pela Ponte de Londres, eram tantos, / Jamais pensei que a morte a tantos destruíra.); referência literária que se mantinha enquanto o sol não se escondia atrás das nuvens pois, quando isso acontecia, o interior do galpão era tomado por uma claridade distante e de um azul vagamente esfumado, de modo que Oklahoma lembrava-se de uma passagem de Austerlitz: o personagem que dá nome ao livro relembra a sua adolescência no País de Gales, relembra os momentos em que contemplava uma barragem e sabia que, submersa nas profundezas das águas, jazia uma cidade inteira; e ao evocar esse fragamento de livro era como se todos ali, Oklahoma e também aquelas pessoas que o cercavam, habitassem essa cidade afogada e esquecida. Os outros, os que habitavam o mundo da superfície nunca se aventurariam por estes confins; estavam todos na capital e em importantes cidades da América e do Velho Mundo, ao passo que ele vivia um presente ininterrupto pelo simples fato de viver um tempo que não se ligava nem com o passado nem com o futuro do planeta: o que ele era e o que ele significava acabaria ali, destruído pela morte e submerso pelo presente de outros como ele.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Poema

Agora o sol arde-me sobre o rosto
mas passa o instante, e onde
há luz haverá apenas a memória da luz;
claro eco que também será
maculado e depois soterrado
pelas horas vindouras.

Ao relembrar essa transitória chama, a consciência
curva-se sobre si própria
como o homem que se curva sobre um poço
e pensa: algo morre lá no fundo.

Depois esse homem fecha os olhos,
respira o sopro que se ergue
e sobre o poço curva-se mais uma vez
apenas para perceber como as sombras
estão mais próximas:
lá na fundura, o que escuta
é o diminuto arfar de um animal
embora haja algo mais: a memória
de uma tarde de maio deixou de existir
e os rostos amados e a alegria
são estrelas em um céu que se afasta.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

dois poemas sobre garotas e a cidade

1. EU AS VEJO NAS ESCADARIAS DO PRÉDIO

Eu as vejo nas escadarias do prédio.
São três e quedam-se em silêncio.
A alguns metros, no salão de festas,
celebra-se um aniversário
em meio a risos de crianças
e a estouro de balões.
Mas elas não são convidadas
que se extraviaram: vivem
no prédio e talvez desceram
para respirar ares mais impuros
e porque a cidade, vista do alto,
é uma larga planície cravejada
de luzes quietas e sonolentas.
Mas aqui, quando olham longe
- para além do néon e das constelações -
a cidade adquire outro significado:
o antes monótono rebrilhar de luzes
muda-se no bafo que se emana
da carne ansiosa e sonâmbula.
Talvez por isso, das três meninas a mais
bonita, tenha pintado a boca
e use um belo vestido
apenas para descer até as escadarias.

2. EIS A TERRA SANTA: AS RUAS

Eis a terra santa: as ruas
nas imediações do salão de bilhar.
Até lá vou em tardes sufocadas
e em noites abrasivas e ansiosas.
É puída a luz que desce sobre os telhados,
as fachadas das casas são ruínas,
o ar grosso, poeirento, e as árvores
são hipnóticas em seu balançar.
Todavia, para onde quer que se olhe,
há miúdas: colegiais, balconistas,
bailarinas, vendedoras em comércios falidos,
enfermeiras, advogadas há pouco saídas da faculdade
e que, empertigadas, gastam as tardes
em escritórios de rábulas.
Tão logo as vejo, logo as esqueço
e talvez seja melhor assim:
o esplendor do sangue e da carne não perduram
mais do que poucos anos.
Mas há dias, quando o entardecer é arido,
em que agonia da beleza que se perde
é o mais forte perfume
que se respira enquanto o escasso vento
ergue torvelinhos de terra vermelha
e enquanto a luz convulsiona.
Essa terra santa, então,
muda-se em um lugar triste e maldito.
Há pouco a se fazer além de ouvir
os plangentes e alongados sons
que não parecem vir das flautas
dos bolivianos – pois a melodia
soa como um fóssil duro e silencioso
que, durante todo o dia,
o sol tratou de erodir.
Ouve-se também, nesses ocasos,
as andorinhas que em bandos
entram nas copas das árvores.
Assim prossegue o entardecer:
o que era incandescente e dourado
rebenta sobre a cidade
como se fosse uma onda escarlate.
Depois arrefecem todas as cores
e a consciência, cansada,
às vezes mal espera pelo próximo dia
e às vezes tentar salvar do esquecimento
a memória de ínfima e fortuita beleza:
por exemplo, a lembrança de uma garota
de rosto pálido, muito magra,
cabelos longos, lisos, e que oscilavam
entre o castanho e o ruivo.
Ela ia pela praça, e a luz fina e crepuscular
Incidia-lhe oblíqua sobre a face.
Acima de sua cabeça, pássaros voavam
e quando a claridade tornou-se penumbra
temi que as sombras recém chegadas
fossem despedaçar o seu corpo escasso
como, em tela pintada por Goya,
Cronos devora a própria prole.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Espólio do antigo computador - Conto: Quando Reencontrei Rubi

Reencontrei Rubi após cinco anos. Foi em uma sexta-feira, ao entardecer. Era véspera de feriado. Eu acabara de sair do trabalho e não queria voltar para casa. Preferi uma solitária sessão de cinema, havia pouca gente, mas lá encontrei Rubi. Os seus olhos castanhos, que no passado eram como a úmida sombra que se aloja no fundo de um poço, pareciam diferentes. Exceção feita a essa mudança, ela não me parecia mais velha ou mais cansada. Ao observar os seus gestos, lembrei-me de que às vezes ela dizia me amar e às vezes dizia ter vontade de morrer. Por isso eu havia fugido, mas nunca soubera se fora por medo de vir a amá-la ou se por medo de nunca vir a amá-la. Enfim, eu havia fugido e agora a reencontrava – eis a síntese do que deve ser dito.

Dentro do cinema, pairava um cheiro gelado, e talvez por isso eu a tenha beijado: para impedir que a umidade gelada entrasse dentro de mim. Rubi, como nas outras vezes em que eu a beijara, não usava batom. Quando inclinei o corpo na sua direção, ela apenas deixou a cabeça cair, sem peso, na direção de meu ombro. Parecia muito calma.

O apartamento em que agora Rubi vivia era dos mais simples: apenas cozinha, sala, banheiro e quarto, todos unidos por corredores estreitos, curtos, iluminados por pequenas lâmpadas que irradiavam um esfumado brilho vermelho. Um piso gelado recobria todos os cômodos, e, à medida que a luz violácea e cambiante sumia por entre as nuvens carregadas de chuva, eu percebia a umidade que se evolava das paredes e do chão. Havia também uma sacada; esta ficava diante de uma rua suburbana, e nas casas todas as famílias pareciam se preparar para o jantar. No céu, a escassa luz natural, ao misturar-se com a claridade amarela emanada pelos postes, tornava o entardecer pardacento e embotado. Garoava. Vindos de longe, chegavam amortecidos rumores das vozes que conversavam ao redor das mesas.

Sentei-me na cama e olhei para os pertences que Rubi guardava sobre a penteadeira: perfumes, pentes, talcos. Sobre uma secretaria, havia alguns livros e, talvez reminiscência da infância, uma girafa de pelúcia. Estremeci ao perceber a inutilidade de todos esses objetos. Era como estar na sala mortuária de um necrotério, observar os cadáveres sobre as macas, e não saber o que é mais horrível: a certeza de que tais corpos estão fora da vida, ou o irracional medo de que algum dos mortos erga um braço ou talvez irrompa em uma gargalhada. À medida que os minutos passavam, maior era a inércia: nada destroçava o silêncio, tudo permanecia em seu lugar, ora à espreita, ora em vigília.

Quando Rubi sentou-se ao meu lado, observei que o castanho dos seus olhos havia sido recoberto por uma membrana carmesim, de modo que agora assemelhavam-se a terra queimada pelo calor, terra dura e seca, que não pode frutificar, onde nascem apenas raízes mortas, e o som dos passos, quando se pisa uma terra tão árida, é um ruído seco e monótono. E o jeito de rir ainda se relevava perturbador. Rubi ria como se fosse uma garota de oito anos de idade, embora, para além da infância, houvesse um rancor sem remédio. Tenho idade bastante para morrer, já dizia Rubi antes de eu ter fugido pela primeira vez, como se tivesse a esperança de que alguém a salvasse. Mas Rubi nunca desejou ser salva, não durante o tempo em que estivemos juntos. Portanto, é irrelevante o que ela dizia. O que não me sairá da memória são os seus cheiros. Eu lhe beijava a boca sem batom – e às vezes era como beijar uma cicatriz – e, enquanto lhe despia, atentava para o modo como o seu corpo cheirava. Quando enfim a nudez se relevava, Rubi recendia a terra molhada, até o castanho dos seus olhos era povoado por nuvens de tempestade, como se o seu corpo e os seus olhos fossem uma região distante e selvagem, cuja extrema aridez conhece a chuva apenas uma ou duas vez por ano.

Como naquelas noites antes da primeira fuga, Rubi adormeceu com o corpo junto ao meu. Passados alguns minutos – com os músculos frouxos e com a consicência entorpecida por respirar o denso ar que se desprendia da mulher ao meu lado – também adormeci. No primeiro sonho que tive, eu caminhava por uma planície e, apesar do silêncio ao redor, não conseguia me desvencilhar da idéia de que algo muito ruim e violento acabara de acontecer. Então brumas ascenderam à consciência e, quando as imagens recuperaram a limpidez, eu soube-me cinco anos mais jovem, como se eu houvesse regressado no tempo e revivesse antigas noites; quando, deitado na cama, não percebia Rubi perto de mim. Escutava barulhos na cozinha. Caminhava até lá. Rubi vestia apenas uma camiseta que lhe desenhava os seios miúdos. Estava descalça e, ajoelhada, revirava a gaveta dos remédios. Onde estão os calmantes? – perguntava assim que percebia a minha presença, a voz furiosa e pétrea, de modo que eu pensava: uma planície avermelhada e batida pelo sol é sempre um lugar selvagem e maldito. E talvez por isso – por não ter forças para lutar contra algo que pretendia ser um chamado da própria natureza – dava-lhe os remédios. Ela ria(e ao rir trazia sombras de infância para os olhos e para a tristeza) e dizia Eu o amo porque você não se cansa de cuidar de mim. A seguir, enquanto as palavras ainda reverberavam, engolia os comprimidos e voltava para a cama, enquanto eu, parado na cozinha, dizia a mim mesmo que Rubi não acreditava nas palavras ditas por ela. Pois, por mais dolorosas ou belas que sejam, as palavras são sombras, e Rubi apenas acredita no que assume uma existência tangível. E talvez seja essa a sua desgraça; pois a ânsia que julga ter pela vida nunca poderá ser apenas uma vontade, não, essa ânsia se mostrará verdadeira apenas a partir do momento que se traduzir em atos, e as realizações nunca estão à altura do pensamento pelo motivo do homem nunca estar à altura da idéia que cria de si próprio.

Às vezes – e no sonho foi isso o que ocorreu – após ficar imóvel na cozinha por alguns minutos, eu seguia Rubi até o quarto. Deitava-me ao seu lado e observava como a sua respiração pesada era amainada pelo efeitos dos calmantes, como o seu corpo perdia a temperatura e tornava-mais rijo, respirando, agora, a intervalos mais longos. Imaginava o instante em que, no futuro, o sangue deixaria de queimar; o momento em que a rigidez seria tanta que o diafragma não mais se expandiria e não mais se retrairia; e então não seria mais possível beijar a boca sem batom, de um rosa pálido, e observar como a carne ganhava cheiro de terra encharcada e como os olhos era nublados por nuvens de tempestade. Era um pensamento tão doloroso por logo assumir a forma de augúrio; e julgava-me o mais doente dos homens quando, terno, pensava hoje ela quis ser tristeza, hoje ela conseguiu ser tristeza, e eu a ajudei. No instante seguinte, adormecia e o sonho que me subia à consciência também foi um dos sonhos que tive quando, ao reencontrá-la após cinco anos, dormi com o corpo dela junto ao meu: eu acordava sobressaltado; os temporais haviam cessado e o quarto se afundava no cheiro do sangue de Rubi; até as paredes, tão brancas, pareciam tem sido pintadas de escarlate; e a predominância do vermelho era tanta que eu sentia uma pressão crescente sobre as têmporas e a própria visão escurecia; então desmaiava, engolfado por um oceano cor de sangue, pois assim será o dia em que Rubi decidir ser morte e horror.