POEMA PARA FICAR ALEGRE
Se me lembro dos seus olhos e fico triste
não vou ouvir sinatra e não vou beber conhaque
que isso aumenta a minha tristeza.
Vou ler aquele poema chinês escrito há mil anos
e que fala das acácias que perdem o cheiro
e da insensatez que é amar ou estar lúcido.
Depois vou até o fundo do quintal;
contemplo o céu estrelado, enluarado
e respiro os girassóis, as rosas, os jasmins.
Se a vida perdura, único milagre possível,
e se o aroma das flores volta após o inverno
porque não pensar que coisas simples e pequenas
- como o amor ou a tristeza de um homem -
tenham solução e que a alegria vai nascer
antes de raiar a próxima aurora?
domingo, 26 de abril de 2009
domingo, 12 de abril de 2009
Poema
Hoje as ruas estão ermas
e a cidade fecha-se, enclausura-me
dentro de meus poemas.
Kavafis, saio em busca de Kavafis
ou de qualquer outro poeta
que ande por estas ruas:
Eliot transmudado em Tirésias,
Dante guiado por Virgílio, qualquer um.
Onde encontrá-los
no deserto onde só a minha voz ecoa?
Como cantariam eles a aridez da tarde
e os vivos e os mortos?
Como cantariam eles o silêncio
destas ruas que vazias esperam
os bárbaros que já aqui chegaram
e constituíram família?
e a cidade fecha-se, enclausura-me
dentro de meus poemas.
Kavafis, saio em busca de Kavafis
ou de qualquer outro poeta
que ande por estas ruas:
Eliot transmudado em Tirésias,
Dante guiado por Virgílio, qualquer um.
Onde encontrá-los
no deserto onde só a minha voz ecoa?
Como cantariam eles a aridez da tarde
e os vivos e os mortos?
Como cantariam eles o silêncio
destas ruas que vazias esperam
os bárbaros que já aqui chegaram
e constituíram família?
domingo, 5 de abril de 2009
Poema
Irrompe serena a tarde de maio,
a tarde que nos leva até a praça
onde cada homem canta o seu exílio
e onde pungentes flores são vendidas
numa cidade, uma babilônia
ao mesmo tempo casta e bestial.
Assim permaneço, a contemplá-la
enquanto ela colhe rosas vermelhas
e respira o perfume dos jasmins
como um inaudito sopro de vida –
a centelha do amor que perseguimos
enquanto vem o brando entardecer,
o derradeiro ardor do sol poente
e as sombras adejando sobre a casa,
mas agora a casa está redimida:
há um vaso com lírios e crisântemos
na sala de jantar, o que convém
à imensa fragilidade da carne.
a tarde que nos leva até a praça
onde cada homem canta o seu exílio
e onde pungentes flores são vendidas
numa cidade, uma babilônia
ao mesmo tempo casta e bestial.
Assim permaneço, a contemplá-la
enquanto ela colhe rosas vermelhas
e respira o perfume dos jasmins
como um inaudito sopro de vida –
a centelha do amor que perseguimos
enquanto vem o brando entardecer,
o derradeiro ardor do sol poente
e as sombras adejando sobre a casa,
mas agora a casa está redimida:
há um vaso com lírios e crisântemos
na sala de jantar, o que convém
à imensa fragilidade da carne.
domingo, 29 de março de 2009
Poema
É jovem a terra: presenteemos
um ao outro com aquilo que é mais
finito: beijos, carne que se rasga,
passeios pela cidade que deixa
de nos pertencer, talvez o desterro
em brancos balneários ou até
a ternura por pássaros e ocasos.
Não ignoro: tudo findará
apesar de eu pouco pensar no fim.
Ainda é o começo, e não há
alegria maior que começar:
saber do lume que enlevadas mãos
incendeiam, de um corpo desbravar
a sua primeira vitalidade,
em um coração residir e nele
descobrir uma falhada inocência.
Mas é o começo, e no começo
em dádiva é possível transmudar
a mais bela, a mais frágil finitude.
um ao outro com aquilo que é mais
finito: beijos, carne que se rasga,
passeios pela cidade que deixa
de nos pertencer, talvez o desterro
em brancos balneários ou até
a ternura por pássaros e ocasos.
Não ignoro: tudo findará
apesar de eu pouco pensar no fim.
Ainda é o começo, e não há
alegria maior que começar:
saber do lume que enlevadas mãos
incendeiam, de um corpo desbravar
a sua primeira vitalidade,
em um coração residir e nele
descobrir uma falhada inocência.
Mas é o começo, e no começo
em dádiva é possível transmudar
a mais bela, a mais frágil finitude.
domingo, 22 de março de 2009
Poema
A tarde começou seca, inóspita.
O céu, em tons de ardósia, era um bloco
de gelo sujo que lá na lonjura
em vapores vermelhos esvaía-se;
e os ventos, ao trazerem tais vapores
às ruas, sobre as ruas espalharam
essências de cinza, sangue e motores.
Depois, antes ainda do crepúsculo,
este céu foi cruzado por relâmpagos:
baixas nuvens romperam sobre as ruas,
ecos tonitruantes, luz corrupta
e por fim caiu a chuva, mas não
um temporal – apenas uma chuva
de pingos grossos, gelados, a qual
rolou rios de lama sobre as sarjetas.
Nos postes tremeluziram as luzes.
O que era opaco e branco conseguiu
tons violáceos, e eu, inerte sob
uma marquise, a olhar a sujeira,
pensei na miúda que antes da chuva
por mim passara com seus olhos claros
e a pele clara e um fulgor igual
ao das magras musas feitas de luz
que se esbateram e depois sumiram.
Não recordo os seus rostos mas recordo
que há poucos anos ainda viviam
e procuro o que mudou desde então.
Igual a cidade, igual a carne
aos anos em que a morte, de tão pálida,
não passava de pálido terror.
O que talvez mudou, pensei comigo,
é que para as raízes perdi corpo
mais do que amado: santo – e santo é
apenas por ter sido maculado
pela terra que depois o roeu.
E outro corpo, este luz e pujança,
amei apenas para descobrir
que ainda durante a febre da carne
a carne pode fugir das mãos nuas.
O resto são dias que se repetem
como se outros dias não existissem:
tardes chuvosas e horas lamacentas
findam o calor; dias cristalinos
de maio a julho, até que em agosto
sopram mais fortes os ventos do estio
e o que renasce soma-se aos augúrios
de que tudo voltará a morrer –
céu branco substitui o arrebol
e as brumas púrpuras do entardecer
coagulam-se e mudam-se na noite
e em astros de brilho gordo, argênteo.
Como partir? Como fechar os olhos
e do abrigo das estrelas fugir?
Como abandonar os dias iguais
se iguais os dias alegres e igual
o medo de a palavra esperdiçar
(a palavra como sentido nunca
achado; como sentimento nunca
sentido; a palavra como afeto
mudo; a palavra que fora daqui
será mais do que oca: inexistente)?
O céu, em tons de ardósia, era um bloco
de gelo sujo que lá na lonjura
em vapores vermelhos esvaía-se;
e os ventos, ao trazerem tais vapores
às ruas, sobre as ruas espalharam
essências de cinza, sangue e motores.
Depois, antes ainda do crepúsculo,
este céu foi cruzado por relâmpagos:
baixas nuvens romperam sobre as ruas,
ecos tonitruantes, luz corrupta
e por fim caiu a chuva, mas não
um temporal – apenas uma chuva
de pingos grossos, gelados, a qual
rolou rios de lama sobre as sarjetas.
Nos postes tremeluziram as luzes.
O que era opaco e branco conseguiu
tons violáceos, e eu, inerte sob
uma marquise, a olhar a sujeira,
pensei na miúda que antes da chuva
por mim passara com seus olhos claros
e a pele clara e um fulgor igual
ao das magras musas feitas de luz
que se esbateram e depois sumiram.
Não recordo os seus rostos mas recordo
que há poucos anos ainda viviam
e procuro o que mudou desde então.
Igual a cidade, igual a carne
aos anos em que a morte, de tão pálida,
não passava de pálido terror.
O que talvez mudou, pensei comigo,
é que para as raízes perdi corpo
mais do que amado: santo – e santo é
apenas por ter sido maculado
pela terra que depois o roeu.
E outro corpo, este luz e pujança,
amei apenas para descobrir
que ainda durante a febre da carne
a carne pode fugir das mãos nuas.
O resto são dias que se repetem
como se outros dias não existissem:
tardes chuvosas e horas lamacentas
findam o calor; dias cristalinos
de maio a julho, até que em agosto
sopram mais fortes os ventos do estio
e o que renasce soma-se aos augúrios
de que tudo voltará a morrer –
céu branco substitui o arrebol
e as brumas púrpuras do entardecer
coagulam-se e mudam-se na noite
e em astros de brilho gordo, argênteo.
Como partir? Como fechar os olhos
e do abrigo das estrelas fugir?
Como abandonar os dias iguais
se iguais os dias alegres e igual
o medo de a palavra esperdiçar
(a palavra como sentido nunca
achado; como sentimento nunca
sentido; a palavra como afeto
mudo; a palavra que fora daqui
será mais do que oca: inexistente)?
domingo, 15 de março de 2009
Poema
POUCO A POUCO, OS DIAS DE CALOR
Pouco a pouco, os dias de calor
mudam-se em horas de irisada luz
enquanto aqui, neste quarto de estudos,
a morta infância parece afogada
em águas claras e lisas– as quais
não escavam os seixos mais profundos.
Quereria eu, em bonito dia,
da carne caduca alcançar a fuga
para a carne pueril visitar.
Com esse corpo, à praça central
iria – perto das flores do estio
e dos mascates da falência próximos –
e lá escapar do exílio que à mente
e ao coração isolou; regressar
às tardes mais do que suaves: fáceis,
e às moças mais do que fáceis: entregues
à febre que por esplendor se toma.
Esplendor o qual, como o orvalho queima
a frágil relva, machuca os seus rostos
na hora que a luz parece perene
embora morra: crepúsculo claro
e veloz – crepúsculo feito sonho
no qual a dor não é dor, e o cair
não é cair, e o tempo não é tempo
(assim inscientes vamos ao Hades,
assim cegos pela primeira vez
a estiolada luz nos vaza os olhos,
assim ignorantes esquecemos
as palavras tolas e os deuses tolos).
Nada a fazer contra esse entardecer.
Embora branda, a tarde lá fora
é a tarde de agora, pois a noite
que virá depois, mesmo constelada,
é a profunda noite da velhice.
E a praça central, embora concreta,
não é a praça central: é apenas
um lugar triste, algo como um túmulo
ou um nome de morto que também
é o nome de um vizinho – um homem
calado mas gentil, familiar
mas estrangeiro: apenas a sombra,
a estranha sombra do que não existe.
Pouco a pouco, os dias de calor
mudam-se em horas de irisada luz
enquanto aqui, neste quarto de estudos,
a morta infância parece afogada
em águas claras e lisas– as quais
não escavam os seixos mais profundos.
Quereria eu, em bonito dia,
da carne caduca alcançar a fuga
para a carne pueril visitar.
Com esse corpo, à praça central
iria – perto das flores do estio
e dos mascates da falência próximos –
e lá escapar do exílio que à mente
e ao coração isolou; regressar
às tardes mais do que suaves: fáceis,
e às moças mais do que fáceis: entregues
à febre que por esplendor se toma.
Esplendor o qual, como o orvalho queima
a frágil relva, machuca os seus rostos
na hora que a luz parece perene
embora morra: crepúsculo claro
e veloz – crepúsculo feito sonho
no qual a dor não é dor, e o cair
não é cair, e o tempo não é tempo
(assim inscientes vamos ao Hades,
assim cegos pela primeira vez
a estiolada luz nos vaza os olhos,
assim ignorantes esquecemos
as palavras tolas e os deuses tolos).
Nada a fazer contra esse entardecer.
Embora branda, a tarde lá fora
é a tarde de agora, pois a noite
que virá depois, mesmo constelada,
é a profunda noite da velhice.
E a praça central, embora concreta,
não é a praça central: é apenas
um lugar triste, algo como um túmulo
ou um nome de morto que também
é o nome de um vizinho – um homem
calado mas gentil, familiar
mas estrangeiro: apenas a sombra,
a estranha sombra do que não existe.
domingo, 8 de março de 2009
Poema
MAIS VELHO DO QUE TELÊMACO
Estar aqui, na casa paterna,
entre os animais e o pomar
cujos frutos, colhidos pelo dia, apodrecem
sobre a terra, à sombra da infância.
Por mais quantos anos isso durará?
Percebo que fiquei tempo demasiado
e que se exilar desses jardins e dessas noites
seria o início da morte.
Assim não seria se jovem
- com a idade de Telêmaco, talvez -
eu fosse visitado por Palas
e com a sua empresa tivesse
ido para longe de Ítaca.
Mas essa deusa de olhos glaucos, se existe,
é a fulgurante vigília das estrelas
que ardem nas noites límpidas e quietas:
trazido pelo vento, não chega
o marulhar das ondas contra as pedras.
Tudo o que ouço – sozinho nos fundos
da casa, perto da piscina –
é o que ouço desde menino:
morcegos que agitam as asas
e a faiscante trajetória dos vagalumes
e os gatos que andam sobre as folhas secas
e o frêmito que chega da cidade
e outro murmúrio, este tão misterioso
que ora penso ser o chispar dos astros próximos
e ora penso ser o lamento da vida
que de mim se evade.
E tudo é tão familiar: sei de onde virá o sol
e com que sutilezas uma estação ingressará na outra.
Portanto, se tudo é como na infância,
por que há noites em que a alegria verte-se em dor?
Por que um anseio por outro céu e outra casa
se a casa que habito e o céu que contemplo
é o que mais temo perder?
E por que desejo que as estrelas
sejam de fato a deusa dos olhos glaucos?
Se fecho os olhos, até imagino como ela
viria até mim, que decisivas palavras diria
e como depois, mudada em faiscante vagalume,
retornaria ao céu estrelado.
Eu ainda não escutaria, ao longe,
as ondas que rebentam contra as pedras,
mas talvez deixasse de temer
o crescente eco que de mim se acerca.
Estar aqui, na casa paterna,
entre os animais e o pomar
cujos frutos, colhidos pelo dia, apodrecem
sobre a terra, à sombra da infância.
Por mais quantos anos isso durará?
Percebo que fiquei tempo demasiado
e que se exilar desses jardins e dessas noites
seria o início da morte.
Assim não seria se jovem
- com a idade de Telêmaco, talvez -
eu fosse visitado por Palas
e com a sua empresa tivesse
ido para longe de Ítaca.
Mas essa deusa de olhos glaucos, se existe,
é a fulgurante vigília das estrelas
que ardem nas noites límpidas e quietas:
trazido pelo vento, não chega
o marulhar das ondas contra as pedras.
Tudo o que ouço – sozinho nos fundos
da casa, perto da piscina –
é o que ouço desde menino:
morcegos que agitam as asas
e a faiscante trajetória dos vagalumes
e os gatos que andam sobre as folhas secas
e o frêmito que chega da cidade
e outro murmúrio, este tão misterioso
que ora penso ser o chispar dos astros próximos
e ora penso ser o lamento da vida
que de mim se evade.
E tudo é tão familiar: sei de onde virá o sol
e com que sutilezas uma estação ingressará na outra.
Portanto, se tudo é como na infância,
por que há noites em que a alegria verte-se em dor?
Por que um anseio por outro céu e outra casa
se a casa que habito e o céu que contemplo
é o que mais temo perder?
E por que desejo que as estrelas
sejam de fato a deusa dos olhos glaucos?
Se fecho os olhos, até imagino como ela
viria até mim, que decisivas palavras diria
e como depois, mudada em faiscante vagalume,
retornaria ao céu estrelado.
Eu ainda não escutaria, ao longe,
as ondas que rebentam contra as pedras,
mas talvez deixasse de temer
o crescente eco que de mim se acerca.
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