ANDREZZA
Andrezza se espreguiça na manhã
e como se estivesse molhada
a blusa se cola ao corpo
e ao desenhar o seu ventre insinuante
- de um erotismo inefável -
quase me esqueço dos segredos
que ela me conta sobre a família;
o rancor sempre presente,
a vida dupla da mãe e das irmãs,
o conflito de todas pela herança
enquanto o pai, espécie de Lear,
adormece diante da tevê.
terça-feira, 21 de julho de 2009
terça-feira, 14 de julho de 2009
poema
"É um mundo sem mistérios: os corpos
pedem apenas o que pode ser
gozado – e o que pode ser gozado
é o real, a tão imensa quanto
falhada força de outro corpo.
E é bom que seja assim. É bom que não
possamos ir além, pois ir além
é ter os olhos cegos pela luz,
é o desterro da casa parterna,
é ver apenas o que não existe
na força que extrai a aurora da noite."
Estas foram as palavras de César
no verão em que perdemos a infância,
época de sua primeira fuga.
Meses depois, informou que habitava
um país gelado, de pouca gente:
"Na praia, com as gaivotas e os velhos,
recebo no rosto a primeira luz
enquanto o negro e fundo mar clareia
e mostra os seus limites. Sopra a brisa
e a sua voz de sal, enquanto avança,
basta para que o corpo regozije
e se esqueça do que nunca existiu:
Ulisses singrando as vagas do mar
e a redenção posta além do que é humano.
Pois o que preciso é pouco: silêncio
em mim, um trabalho físico e simples,
jogar com os velhos enquanto cai
a luz, e se o coração não bastar
bastar-me-ão as mulheres vulgares." –
Voltou a dizer César, e foi este
o seu adeus ao mar e à pura luz.
Dias depois, cheiro de algas podres
levou os velhos – colegas de jogo –
ao cadáver de César: olhos vítreos,
rosto caído sobre poucos versos,
o vermelho dos pulsos já escuro
(qual raiz queimada pelo sol)
e, compondo o cenário, uma voz
a princípio tão monótona e lúgubre
que apenas depois, e com muito espanto,
os velhos souberam o que se entoava:
era moon river que se repetia
enquanto o sangue vazava e secava.
pedem apenas o que pode ser
gozado – e o que pode ser gozado
é o real, a tão imensa quanto
falhada força de outro corpo.
E é bom que seja assim. É bom que não
possamos ir além, pois ir além
é ter os olhos cegos pela luz,
é o desterro da casa parterna,
é ver apenas o que não existe
na força que extrai a aurora da noite."
Estas foram as palavras de César
no verão em que perdemos a infância,
época de sua primeira fuga.
Meses depois, informou que habitava
um país gelado, de pouca gente:
"Na praia, com as gaivotas e os velhos,
recebo no rosto a primeira luz
enquanto o negro e fundo mar clareia
e mostra os seus limites. Sopra a brisa
e a sua voz de sal, enquanto avança,
basta para que o corpo regozije
e se esqueça do que nunca existiu:
Ulisses singrando as vagas do mar
e a redenção posta além do que é humano.
Pois o que preciso é pouco: silêncio
em mim, um trabalho físico e simples,
jogar com os velhos enquanto cai
a luz, e se o coração não bastar
bastar-me-ão as mulheres vulgares." –
Voltou a dizer César, e foi este
o seu adeus ao mar e à pura luz.
Dias depois, cheiro de algas podres
levou os velhos – colegas de jogo –
ao cadáver de César: olhos vítreos,
rosto caído sobre poucos versos,
o vermelho dos pulsos já escuro
(qual raiz queimada pelo sol)
e, compondo o cenário, uma voz
a princípio tão monótona e lúgubre
que apenas depois, e com muito espanto,
os velhos souberam o que se entoava:
era moon river que se repetia
enquanto o sangue vazava e secava.
domingo, 12 de julho de 2009
de volta às garotas
MARINA
Adorava rir e era extasiante
fazê-la rir, mirar os seus olhos alegres,
senti-la com a palma da mão
e ter a sua cabeça em meus ombros.
Mas um dia Marina desapareceu
e sobre o sumiço vieram os boatos -
uns diziam que realizou
o sonho de ser aeromoça;
outros, que partiu
e não realizou sonho nenhum.
Mas são rumores, e ainda hoje,
quando vou pela Rua dos Ipês,
olho o prédio em que Marina vivia
e, lembrando-me do seu riso,
pergunto-me que destino seria o dela.
Setembro - 2002
Adorava rir e era extasiante
fazê-la rir, mirar os seus olhos alegres,
senti-la com a palma da mão
e ter a sua cabeça em meus ombros.
Mas um dia Marina desapareceu
e sobre o sumiço vieram os boatos -
uns diziam que realizou
o sonho de ser aeromoça;
outros, que partiu
e não realizou sonho nenhum.
Mas são rumores, e ainda hoje,
quando vou pela Rua dos Ipês,
olho o prédio em que Marina vivia
e, lembrando-me do seu riso,
pergunto-me que destino seria o dela.
Setembro - 2002
quarta-feira, 8 de julho de 2009
poema
Chegam as tardes de estio
e em mim a percepção
do que é o tempo e o sol:
em tudo o que olho, cansaço
e um princípio de velhice;
nas praças, tudo são árvores
cujas sombras esmaecem
e mal protegem os corpos
das ociosas meninas
que descansam no areal.
E eu as olho, temeroso
da triste hora em que o sol
lhes crestará os cabelos.
Eu as olho, e a ternura
é um sentimento cruel
e por isso as tardes cheiram
mal; como se os muitos mares
guardassem sereias mortas
e aos homens, o que se eleva
é um pesado silêncio
e ao odor da maresia
misturam-se tédios, vícios,
crepúsculos venenosos,
e em tudo a corrupção:
no corpo que se deseja,
no espírito que resiste,
no coração que ferido
suja de vermelho o dia.
e em mim a percepção
do que é o tempo e o sol:
em tudo o que olho, cansaço
e um princípio de velhice;
nas praças, tudo são árvores
cujas sombras esmaecem
e mal protegem os corpos
das ociosas meninas
que descansam no areal.
E eu as olho, temeroso
da triste hora em que o sol
lhes crestará os cabelos.
Eu as olho, e a ternura
é um sentimento cruel
e por isso as tardes cheiram
mal; como se os muitos mares
guardassem sereias mortas
e aos homens, o que se eleva
é um pesado silêncio
e ao odor da maresia
misturam-se tédios, vícios,
crepúsculos venenosos,
e em tudo a corrupção:
no corpo que se deseja,
no espírito que resiste,
no coração que ferido
suja de vermelho o dia.
quinta-feira, 25 de junho de 2009
garotas
MÔNICA
Mônica tem só quinze anos
e já sabe escrever poemas.
Vejo-a no primeiro sábado de cada mês
e quando diz os seus versos
percebo-lhe a voz trêmula, o rubor facial
e os seios que parecem dois limões
arfam com brandura.
Leves, os poemas adejam no ar
e tudo - até a cidade vista pela janela -
é uma árvore prestes a florir.
Setembro de 2002
Mônica tem só quinze anos
e já sabe escrever poemas.
Vejo-a no primeiro sábado de cada mês
e quando diz os seus versos
percebo-lhe a voz trêmula, o rubor facial
e os seios que parecem dois limões
arfam com brandura.
Leves, os poemas adejam no ar
e tudo - até a cidade vista pela janela -
é uma árvore prestes a florir.
Setembro de 2002
segunda-feira, 22 de junho de 2009
garotas
SOZINHA NUM SALÃO DE BILHAR
Na tarde de domingo vejo uma garota.
É como se o seu rosto emergisse
de uma multidão de rostos opacos.
Luminosa face banhada pelo sol,
nudez de pescoço e de ombros descobertos,
vestido que desenha o perfil dos seios
e um aroma de mulher que se dilui
no cheiro de cigarro, no fumo que se ergue
e enrodilha-se nos cabelos negros
e turva a face iluminada
até surgir um semblante indecifrável.
Na tarde de domingo vejo uma garota.
É como se o seu rosto emergisse
de uma multidão de rostos opacos.
Luminosa face banhada pelo sol,
nudez de pescoço e de ombros descobertos,
vestido que desenha o perfil dos seios
e um aroma de mulher que se dilui
no cheiro de cigarro, no fumo que se ergue
e enrodilha-se nos cabelos negros
e turva a face iluminada
até surgir um semblante indecifrável.
quinta-feira, 18 de junho de 2009
enfim, os poemas sobre garotas
TALITA
Talita é a garota que estuda no fim do corredor.
Sobre ela não sei mais nada.
O resto é a perfeição dos olhos castanhos,
dos cabelos loiros, da pele sedosa, dos seios rijos,
da voz que ouço quando o frenesi se acalma
e ela passa, distante como uma musa de Cesário Verde,
e parte não sei para onde;
muito provavelmente para um restaurante ordinário
e depois da refeição vai até o fórum da cidade
e respira o cheiro ranço dos processos
até o sol se pôr e o cansaço aflorar
e corromper todos os nervos de seu corpo.
Setembro de 2002
Talita é a garota que estuda no fim do corredor.
Sobre ela não sei mais nada.
O resto é a perfeição dos olhos castanhos,
dos cabelos loiros, da pele sedosa, dos seios rijos,
da voz que ouço quando o frenesi se acalma
e ela passa, distante como uma musa de Cesário Verde,
e parte não sei para onde;
muito provavelmente para um restaurante ordinário
e depois da refeição vai até o fórum da cidade
e respira o cheiro ranço dos processos
até o sol se pôr e o cansaço aflorar
e corromper todos os nervos de seu corpo.
Setembro de 2002
Assinar:
Postagens (Atom)