HOTEL ESCRITO EM LETRAS VERMELHAS
Há muitas sombras e a palavra hotel
está escrita com letras vermelhas
e arde sobre a fachada de uma casa
em ruínas. Ouve-se as prostitutas
e também o alucinado discurso
que em língua estranha o chinês vocifera.
O que não sei é por que visitar
lugares entregues ao desamor
e à sordidez – a resposta, talvez,
seja apenas tola filosofia.
Mais relevante é a chuva: iminente
porque as nuvens estão muito vermelhas
e porque o vento torna insuportável
o denso cheiro de gordura podre.
Porém insisto: tudo é a vida –
eis, talvez, a resposta; ou então
A resposta não existe e perdura
apenas enquanto vejo sair
das sombras a sombra de uma mulher
que vem em minha direção: cruzamos
e o rosto claro vejo – palidez
e candura fugazes, quase etéreas.
No entanto há os olhos, e os olhos
queimam mais raivosos do que a palavra
hotel grafada em símbolos vermelhos.
São estes olhos que acham os meus
e que depois somem, enlouquecidos
pelo tédio das ruas negras, sujas.
No entanto, tudo é vida, e a resposta
- talvez – é que há mulheres belíssimas
vencidas pelo desamor, talvez
pela sordidez; corpos possuídos
pelo demônio que mais berra quando
as noites são trevas irredimíveis
e quando ventos de chuva a cidade
varrem e adivinham que existe mais
do que a selvagem solidão da carne
e o gélido abandono do espírito.
quinta-feira, 10 de setembro de 2009
sábado, 15 de agosto de 2009
Dia (poema)
DIA
1.
"Não apenas a memória da mente
dissipa-se; também o corpo perde
vestígios do que foi carícia e mágoa,
talvez um ocaso mais doloroso
do que o do dia que se quebra em cores
esbraseadas, rubras, violetas
e depois, quando o ar cheira a queimado,
não há mais ecos do que existiu."
Escrevia, sonolento, enquanto
o ônibus avançava pela estrada;
manhã limpa e paisagem clara
até o quilômetro em que os destroços
de um acidente ocupavam a pista:
entre a ferragem retorcida, sangue
e, mais adiante, um pano imundo
era o sudário que cobria os mortos.
Perto, grande tumulto de fotógrafos,
policiais e enfermeiros. O trâfego
não fluía e, no interior do ônibus,
um bufão com ares de corifeu
falava dos incontáveis cadáveres
deixados às margens dos canaviais.
O ônibus seguiu, os versos ficaram
inacabados e também a dor do que some
sumiu na transparência azul da manhã:
tanto a morte como a memória são
máculas que o sol trata de queimar.
Mais alheio do que cansado, fecho
os olhos e nem sequer no trabalho
os abro de novo; é como um sonho
no qual escrevo a data tantas vezes.
O ar cheira a papéis podres, histórias
de louca mesquinharia, e às vezes
- ainda cego, alheio, sonâmbulo -
percebo um corpo feminino perto
de mim: percebo o rosto claro, sardas
nos ombros e no colo, e o castanho
pálido dos olhos é um trigal
afogado pelo sol quando o sol
não queima e é um vento de calor.
2.
Ao entardecer, de regresso no ônibus,
vejo as nuvens que se incendeiam pela
última vez no dia – transparência
ora rubra, ora dourada, suja
por ventos que são desejo e cansaço.
Torno a fechar os olhos, tenho o corpo
mais do que velho: doído; e mais
do que doído: batido por fogo
que é mais do que o fogo da carne, mais
do que o fogo que comigo nasceu –
chama roubada de outros corpos, de outros
olhos; chama que ao se esvair avisa
o que a consciência nunca terá
e o que o coração teve por engano.
"Raiva, raiva contra o morrer da luz" –
o verso de Dylan Thomas ecoa
enquanto o ônibus entra na noite
e enquanto os corpos caem na penumbra
quente, grossa. Atrás de mim os velhos
falam do rapaz que morreu na manhã.
Parecem tristes mas depois gargalham
enquanto dividem uma garrafa
de aguardente ou conhaque; e lá fora
- prostradas sob a luz quieta e puída -
as putas esperam seus corpos magros
e seus gestos vencidos, pois a carne
talvez não seja mais do que delírio
que perde o lume, delírio que avança
pasmo ante os mortos dos canaviais
e ante os fantasmas de mágoa e carícia
que ascendem à pele no doloroso
vazio entre sonhos mais violentos.
1.
"Não apenas a memória da mente
dissipa-se; também o corpo perde
vestígios do que foi carícia e mágoa,
talvez um ocaso mais doloroso
do que o do dia que se quebra em cores
esbraseadas, rubras, violetas
e depois, quando o ar cheira a queimado,
não há mais ecos do que existiu."
Escrevia, sonolento, enquanto
o ônibus avançava pela estrada;
manhã limpa e paisagem clara
até o quilômetro em que os destroços
de um acidente ocupavam a pista:
entre a ferragem retorcida, sangue
e, mais adiante, um pano imundo
era o sudário que cobria os mortos.
Perto, grande tumulto de fotógrafos,
policiais e enfermeiros. O trâfego
não fluía e, no interior do ônibus,
um bufão com ares de corifeu
falava dos incontáveis cadáveres
deixados às margens dos canaviais.
O ônibus seguiu, os versos ficaram
inacabados e também a dor do que some
sumiu na transparência azul da manhã:
tanto a morte como a memória são
máculas que o sol trata de queimar.
Mais alheio do que cansado, fecho
os olhos e nem sequer no trabalho
os abro de novo; é como um sonho
no qual escrevo a data tantas vezes.
O ar cheira a papéis podres, histórias
de louca mesquinharia, e às vezes
- ainda cego, alheio, sonâmbulo -
percebo um corpo feminino perto
de mim: percebo o rosto claro, sardas
nos ombros e no colo, e o castanho
pálido dos olhos é um trigal
afogado pelo sol quando o sol
não queima e é um vento de calor.
2.
Ao entardecer, de regresso no ônibus,
vejo as nuvens que se incendeiam pela
última vez no dia – transparência
ora rubra, ora dourada, suja
por ventos que são desejo e cansaço.
Torno a fechar os olhos, tenho o corpo
mais do que velho: doído; e mais
do que doído: batido por fogo
que é mais do que o fogo da carne, mais
do que o fogo que comigo nasceu –
chama roubada de outros corpos, de outros
olhos; chama que ao se esvair avisa
o que a consciência nunca terá
e o que o coração teve por engano.
"Raiva, raiva contra o morrer da luz" –
o verso de Dylan Thomas ecoa
enquanto o ônibus entra na noite
e enquanto os corpos caem na penumbra
quente, grossa. Atrás de mim os velhos
falam do rapaz que morreu na manhã.
Parecem tristes mas depois gargalham
enquanto dividem uma garrafa
de aguardente ou conhaque; e lá fora
- prostradas sob a luz quieta e puída -
as putas esperam seus corpos magros
e seus gestos vencidos, pois a carne
talvez não seja mais do que delírio
que perde o lume, delírio que avança
pasmo ante os mortos dos canaviais
e ante os fantasmas de mágoa e carícia
que ascendem à pele no doloroso
vazio entre sonhos mais violentos.
sábado, 1 de agosto de 2009
em tempos de gripe suína, outro poema antigo
ORÃO, SETENTA ANOS APÓS A PESTE
Saímos, eu e um amigo, para jogar bilhar.
No salão, um velho acompanha a disputa.
É um antigo morador do bairro
e o seus olhos opacos denunciam
uma vida que não excedeu as fronteiras.
Observando-nos, parecia indagar
a alma da própria cidade: também ela
é muda ante o esvair dos anos
e, imerso na profunda noite, o velho
balbucia palavras e monótonas
e repetidas sem cessar:
"Ah, talvez a vida tivesse mais sentido
se tudo fosse como outrora:
os pais barbeando-se com navalhas,
as crianças aprendendo latim
ventos cálidos trazendo o entardecer
e ocultando o demônio da peste e do exílio,
na hora do jantar o cheiro da carne grelhada
pairando sobre a cidade sem prédios,
longas filas diante dos cinemas
que exibiam filmes a branco e preto,
o vizinho que deixa a noite mais sentimental
ao ouvir Tommy Dorsey,
o dissimulado pudor das raparigas,
a promiscuidade dos jovens solteiros,
a murmurejante agonia dos amantes
trespassados por uma súbita abstinência,
o veloz carro de Rieux, o médico,
indo consultar os doentes que morriam
em todos os bairros da cidade."
Saímos, eu e um amigo, para jogar bilhar.
No salão, um velho acompanha a disputa.
É um antigo morador do bairro
e o seus olhos opacos denunciam
uma vida que não excedeu as fronteiras.
Observando-nos, parecia indagar
a alma da própria cidade: também ela
é muda ante o esvair dos anos
e, imerso na profunda noite, o velho
balbucia palavras e monótonas
e repetidas sem cessar:
"Ah, talvez a vida tivesse mais sentido
se tudo fosse como outrora:
os pais barbeando-se com navalhas,
as crianças aprendendo latim
ventos cálidos trazendo o entardecer
e ocultando o demônio da peste e do exílio,
na hora do jantar o cheiro da carne grelhada
pairando sobre a cidade sem prédios,
longas filas diante dos cinemas
que exibiam filmes a branco e preto,
o vizinho que deixa a noite mais sentimental
ao ouvir Tommy Dorsey,
o dissimulado pudor das raparigas,
a promiscuidade dos jovens solteiros,
a murmurejante agonia dos amantes
trespassados por uma súbita abstinência,
o veloz carro de Rieux, o médico,
indo consultar os doentes que morriam
em todos os bairros da cidade."
segunda-feira, 27 de julho de 2009
poema
AGOSTO ou A CHEGADA DO CALOR
Julho se esfarela e agosto
se alça sobre as nossas cabeças -
um sol limpo e antigo, que desperta
a paixão pelas línguas latinas.
Na chama da candeia acesa
busco versos que me falam do calor,
do medo da morte violenta,
das empoeiradas brisas no crepúsculo,
das faces turvadas pela marijuana,
das mulheres perfumadas após o banho,
das crianças que brincam na noite,
do luar que umedece as sombras,
dos vagalumes em praças alegres,
do jasmim que dorme ao relento
e das cidades onde o silêncio é um marulho.
Sol limpo e antigo, tão enrodilhado
na primavera que a sufoca e mata.
Logo virá dezembro, logo virá janeiro,
tardes pesadas, mormaços,
cheiro de terra, de chuva e torpor.
Julho se esfarela e agosto
se alça sobre as nossas cabeças -
um sol limpo e antigo, que desperta
a paixão pelas línguas latinas.
Na chama da candeia acesa
busco versos que me falam do calor,
do medo da morte violenta,
das empoeiradas brisas no crepúsculo,
das faces turvadas pela marijuana,
das mulheres perfumadas após o banho,
das crianças que brincam na noite,
do luar que umedece as sombras,
dos vagalumes em praças alegres,
do jasmim que dorme ao relento
e das cidades onde o silêncio é um marulho.
Sol limpo e antigo, tão enrodilhado
na primavera que a sufoca e mata.
Logo virá dezembro, logo virá janeiro,
tardes pesadas, mormaços,
cheiro de terra, de chuva e torpor.
terça-feira, 21 de julho de 2009
garotas
ANDREZZA
Andrezza se espreguiça na manhã
e como se estivesse molhada
a blusa se cola ao corpo
e ao desenhar o seu ventre insinuante
- de um erotismo inefável -
quase me esqueço dos segredos
que ela me conta sobre a família;
o rancor sempre presente,
a vida dupla da mãe e das irmãs,
o conflito de todas pela herança
enquanto o pai, espécie de Lear,
adormece diante da tevê.
Andrezza se espreguiça na manhã
e como se estivesse molhada
a blusa se cola ao corpo
e ao desenhar o seu ventre insinuante
- de um erotismo inefável -
quase me esqueço dos segredos
que ela me conta sobre a família;
o rancor sempre presente,
a vida dupla da mãe e das irmãs,
o conflito de todas pela herança
enquanto o pai, espécie de Lear,
adormece diante da tevê.
terça-feira, 14 de julho de 2009
poema
"É um mundo sem mistérios: os corpos
pedem apenas o que pode ser
gozado – e o que pode ser gozado
é o real, a tão imensa quanto
falhada força de outro corpo.
E é bom que seja assim. É bom que não
possamos ir além, pois ir além
é ter os olhos cegos pela luz,
é o desterro da casa parterna,
é ver apenas o que não existe
na força que extrai a aurora da noite."
Estas foram as palavras de César
no verão em que perdemos a infância,
época de sua primeira fuga.
Meses depois, informou que habitava
um país gelado, de pouca gente:
"Na praia, com as gaivotas e os velhos,
recebo no rosto a primeira luz
enquanto o negro e fundo mar clareia
e mostra os seus limites. Sopra a brisa
e a sua voz de sal, enquanto avança,
basta para que o corpo regozije
e se esqueça do que nunca existiu:
Ulisses singrando as vagas do mar
e a redenção posta além do que é humano.
Pois o que preciso é pouco: silêncio
em mim, um trabalho físico e simples,
jogar com os velhos enquanto cai
a luz, e se o coração não bastar
bastar-me-ão as mulheres vulgares." –
Voltou a dizer César, e foi este
o seu adeus ao mar e à pura luz.
Dias depois, cheiro de algas podres
levou os velhos – colegas de jogo –
ao cadáver de César: olhos vítreos,
rosto caído sobre poucos versos,
o vermelho dos pulsos já escuro
(qual raiz queimada pelo sol)
e, compondo o cenário, uma voz
a princípio tão monótona e lúgubre
que apenas depois, e com muito espanto,
os velhos souberam o que se entoava:
era moon river que se repetia
enquanto o sangue vazava e secava.
pedem apenas o que pode ser
gozado – e o que pode ser gozado
é o real, a tão imensa quanto
falhada força de outro corpo.
E é bom que seja assim. É bom que não
possamos ir além, pois ir além
é ter os olhos cegos pela luz,
é o desterro da casa parterna,
é ver apenas o que não existe
na força que extrai a aurora da noite."
Estas foram as palavras de César
no verão em que perdemos a infância,
época de sua primeira fuga.
Meses depois, informou que habitava
um país gelado, de pouca gente:
"Na praia, com as gaivotas e os velhos,
recebo no rosto a primeira luz
enquanto o negro e fundo mar clareia
e mostra os seus limites. Sopra a brisa
e a sua voz de sal, enquanto avança,
basta para que o corpo regozije
e se esqueça do que nunca existiu:
Ulisses singrando as vagas do mar
e a redenção posta além do que é humano.
Pois o que preciso é pouco: silêncio
em mim, um trabalho físico e simples,
jogar com os velhos enquanto cai
a luz, e se o coração não bastar
bastar-me-ão as mulheres vulgares." –
Voltou a dizer César, e foi este
o seu adeus ao mar e à pura luz.
Dias depois, cheiro de algas podres
levou os velhos – colegas de jogo –
ao cadáver de César: olhos vítreos,
rosto caído sobre poucos versos,
o vermelho dos pulsos já escuro
(qual raiz queimada pelo sol)
e, compondo o cenário, uma voz
a princípio tão monótona e lúgubre
que apenas depois, e com muito espanto,
os velhos souberam o que se entoava:
era moon river que se repetia
enquanto o sangue vazava e secava.
domingo, 12 de julho de 2009
de volta às garotas
MARINA
Adorava rir e era extasiante
fazê-la rir, mirar os seus olhos alegres,
senti-la com a palma da mão
e ter a sua cabeça em meus ombros.
Mas um dia Marina desapareceu
e sobre o sumiço vieram os boatos -
uns diziam que realizou
o sonho de ser aeromoça;
outros, que partiu
e não realizou sonho nenhum.
Mas são rumores, e ainda hoje,
quando vou pela Rua dos Ipês,
olho o prédio em que Marina vivia
e, lembrando-me do seu riso,
pergunto-me que destino seria o dela.
Setembro - 2002
Adorava rir e era extasiante
fazê-la rir, mirar os seus olhos alegres,
senti-la com a palma da mão
e ter a sua cabeça em meus ombros.
Mas um dia Marina desapareceu
e sobre o sumiço vieram os boatos -
uns diziam que realizou
o sonho de ser aeromoça;
outros, que partiu
e não realizou sonho nenhum.
Mas são rumores, e ainda hoje,
quando vou pela Rua dos Ipês,
olho o prédio em que Marina vivia
e, lembrando-me do seu riso,
pergunto-me que destino seria o dela.
Setembro - 2002
Assinar:
Postagens (Atom)