domingo, 20 de setembro de 2009

aos vinte anos

20

Ando tão chocado, companheiro,
há qualquer coisa de errada com este início de milênio,
ainda não consegui os meus quinze segundos de fama
e pensar no que poderíamos ter alcançado.
O sacrifício de tantas crianças
só por anunciarmos publicamente a nossa morte.
Poderíamos ter sido maiores que os Beatles
e ao cairmos com tamanha intensidade
amparados por uma inocência qualquer
estaríamos imaginando um novo conceito de belo.
Há mesmo qualquer coisa errada
com este início de milênio;
não dependo mais de mim para morrer
e acho que vou ter de apodrecer por aí
(como um Prometeu incrédulo e maquiado)
em vésperas de me tornar um mito.
Lembro-me de quando você conheceu aquela garota,
Stéphanie, se não me falha a memória,
e de como ficava triste o seu dia
todas as vezes que ela lhe negava um sorriso.
Quando Stéphanie lhe disse que tinha medo de morrer
você finalmente terminou com a banda
para de uma vez por todas ir viver com ela.
É provável que ainda compartilhem
a mesma seringa suja.
Sei que a sua intenção era tornar-se um recatado bluesman,
mas quando ela fez de você um péssimo poeta
você não sabe como foi amargo
ver o meu reflexo dentro de suas pobres canções.
E agora, no final deste dia perfeito,
você só vai colher aquilo que semear –
talvez leve uma vida boa e quieta.
Eu vou fugir para o México,
satisfazer uma vaidade qualquer.
Despite all of this, I’m a modern lover.

20/09/1999

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

poema

Garotas pintam as unhas e esperam.
Eis o que as tardes são: tédio, calor,
cheiro de corpos que sentem o exílio
em que caíram; o exílio que é como
a lembrança de uma luz corrompida.

Garotas pintam as unhas e esperam.
Quanto mais veloz cai o sol, mais lentas
e densas são as horas; são um rio
em cujas águas tudo é agonia,
tudo é perversão de desejos, tudo
é uma cicatriz que já vem podre.

Garotas pintam as unhas e esperam.
As noites parecem as do passado:
o luar é doce jasmim, as nuvens
são inércia e queda, as ventanias
são lamentos de mortos insepultos.

Garotas pintam as unhas e esperam.
A carne teme prisões solitárias,
o coração é piano em ruínas,
a comunhão com a noite é febril
como mergulhar entre as águas vivas.

Garotas pintam as unhas e esperam:
pálido é o arrebol, pálido é
o que ainda se sente com clareza –
os corpos são sonâmbulos que exaustos
querem descansar na impossível relva.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

poema

HOTEL ESCRITO EM LETRAS VERMELHAS

Há muitas sombras e a palavra hotel
está escrita com letras vermelhas
e arde sobre a fachada de uma casa
em ruínas. Ouve-se as prostitutas
e também o alucinado discurso
que em língua estranha o chinês vocifera.
O que não sei é por que visitar
lugares entregues ao desamor
e à sordidez – a resposta, talvez,
seja apenas tola filosofia.
Mais relevante é a chuva: iminente
porque as nuvens estão muito vermelhas
e porque o vento torna insuportável
o denso cheiro de gordura podre.
Porém insisto: tudo é a vida –
eis, talvez, a resposta; ou então
A resposta não existe e perdura
apenas enquanto vejo sair
das sombras a sombra de uma mulher
que vem em minha direção: cruzamos
e o rosto claro vejo – palidez
e candura fugazes, quase etéreas.
No entanto há os olhos, e os olhos
queimam mais raivosos do que a palavra
hotel grafada em símbolos vermelhos.
São estes olhos que acham os meus
e que depois somem, enlouquecidos
pelo tédio das ruas negras, sujas.
No entanto, tudo é vida, e a resposta
- talvez – é que há mulheres belíssimas
vencidas pelo desamor, talvez
pela sordidez; corpos possuídos
pelo demônio que mais berra quando
as noites são trevas irredimíveis
e quando ventos de chuva a cidade
varrem e adivinham que existe mais
do que a selvagem solidão da carne
e o gélido abandono do espírito.

sábado, 15 de agosto de 2009

Dia (poema)

DIA

1.

"Não apenas a memória da mente
dissipa-se; também o corpo perde
vestígios do que foi carícia e mágoa,
talvez um ocaso mais doloroso
do que o do dia que se quebra em cores
esbraseadas, rubras, violetas
e depois, quando o ar cheira a queimado,
não há mais ecos do que existiu."

Escrevia, sonolento, enquanto
o ônibus avançava pela estrada;
manhã limpa e paisagem clara
até o quilômetro em que os destroços
de um acidente ocupavam a pista:
entre a ferragem retorcida, sangue
e, mais adiante, um pano imundo
era o sudário que cobria os mortos.
Perto, grande tumulto de fotógrafos,
policiais e enfermeiros. O trâfego
não fluía e, no interior do ônibus,
um bufão com ares de corifeu
falava dos incontáveis cadáveres
deixados às margens dos canaviais.

O ônibus seguiu, os versos ficaram
inacabados e também a dor do que some
sumiu na transparência azul da manhã:
tanto a morte como a memória são
máculas que o sol trata de queimar.
Mais alheio do que cansado, fecho
os olhos e nem sequer no trabalho
os abro de novo; é como um sonho
no qual escrevo a data tantas vezes.
O ar cheira a papéis podres, histórias
de louca mesquinharia, e às vezes
- ainda cego, alheio, sonâmbulo -
percebo um corpo feminino perto
de mim: percebo o rosto claro, sardas
nos ombros e no colo, e o castanho
pálido dos olhos é um trigal
afogado pelo sol quando o sol
não queima e é um vento de calor.

2.

Ao entardecer, de regresso no ônibus,
vejo as nuvens que se incendeiam pela
última vez no dia – transparência
ora rubra, ora dourada, suja
por ventos que são desejo e cansaço.
Torno a fechar os olhos, tenho o corpo
mais do que velho: doído; e mais
do que doído: batido por fogo
que é mais do que o fogo da carne, mais
do que o fogo que comigo nasceu –
chama roubada de outros corpos, de outros
olhos; chama que ao se esvair avisa
o que a consciência nunca terá
e o que o coração teve por engano.

"Raiva, raiva contra o morrer da luz" –
o verso de Dylan Thomas ecoa
enquanto o ônibus entra na noite
e enquanto os corpos caem na penumbra
quente, grossa. Atrás de mim os velhos
falam do rapaz que morreu na manhã.
Parecem tristes mas depois gargalham
enquanto dividem uma garrafa
de aguardente ou conhaque; e lá fora
- prostradas sob a luz quieta e puída -
as putas esperam seus corpos magros
e seus gestos vencidos, pois a carne
talvez não seja mais do que delírio
que perde o lume, delírio que avança
pasmo ante os mortos dos canaviais
e ante os fantasmas de mágoa e carícia
que ascendem à pele no doloroso
vazio entre sonhos mais violentos.

sábado, 1 de agosto de 2009

em tempos de gripe suína, outro poema antigo

ORÃO, SETENTA ANOS APÓS A PESTE

Saímos, eu e um amigo, para jogar bilhar.
No salão, um velho acompanha a disputa.
É um antigo morador do bairro
e o seus olhos opacos denunciam
uma vida que não excedeu as fronteiras.
Observando-nos, parecia indagar
a alma da própria cidade: também ela
é muda ante o esvair dos anos
e, imerso na profunda noite, o velho
balbucia palavras e monótonas
e repetidas sem cessar:

"Ah, talvez a vida tivesse mais sentido
se tudo fosse como outrora:
os pais barbeando-se com navalhas,
as crianças aprendendo latim
ventos cálidos trazendo o entardecer
e ocultando o demônio da peste e do exílio,
na hora do jantar o cheiro da carne grelhada
pairando sobre a cidade sem prédios,
longas filas diante dos cinemas
que exibiam filmes a branco e preto,
o vizinho que deixa a noite mais sentimental
ao ouvir Tommy Dorsey,
o dissimulado pudor das raparigas,
a promiscuidade dos jovens solteiros,
a murmurejante agonia dos amantes
trespassados por uma súbita abstinência,
o veloz carro de Rieux, o médico,
indo consultar os doentes que morriam
em todos os bairros da cidade."

segunda-feira, 27 de julho de 2009

poema

AGOSTO ou A CHEGADA DO CALOR

Julho se esfarela e agosto
se alça sobre as nossas cabeças -
um sol limpo e antigo, que desperta
a paixão pelas línguas latinas.
Na chama da candeia acesa
busco versos que me falam do calor,
do medo da morte violenta,
das empoeiradas brisas no crepúsculo,
das faces turvadas pela marijuana,
das mulheres perfumadas após o banho,
das crianças que brincam na noite,
do luar que umedece as sombras,
dos vagalumes em praças alegres,
do jasmim que dorme ao relento
e das cidades onde o silêncio é um marulho.
Sol limpo e antigo, tão enrodilhado
na primavera que a sufoca e mata.
Logo virá dezembro, logo virá janeiro,
tardes pesadas, mormaços,
cheiro de terra, de chuva e torpor.

terça-feira, 21 de julho de 2009

garotas

ANDREZZA

Andrezza se espreguiça na manhã
e como se estivesse molhada
a blusa se cola ao corpo
e ao desenhar o seu ventre insinuante
- de um erotismo inefável -
quase me esqueço dos segredos
que ela me conta sobre a família;
o rancor sempre presente,
a vida dupla da mãe e das irmãs,
o conflito de todas pela herança
enquanto o pai, espécie de Lear,
adormece diante da tevê.