As manhãs de forte luz
não são para os corpos gastos;
os corpos batidos pelo
o que existe de mais ínfimo:
coração podre – um seixo
pela maré devolvido
ao areal, pedra inóspita,
pedra de nudez selvagem
como os olhos de uma fera.
As manhãs de forte luz
são alheias às vertigens
do real. Fumega o céu:
é um azul entre o plúmbeo
e o anil – azul erigido
sobre telhados vermelhos
sobre ventos de terra
sobre carne e olhos ardentes
e que ainda nesse dia
(ainda o azul, o ardor)
serão desejo e silêncio.
As manhãs de forte luz
são a morte do divino:
deus é uma palavra oca,
o amor é sono e febre
em corpos que se limitam
em beijos que se repetem
em corações que existem
apenas para o que não
existe – lume diáfano
e que, todavia, queima
como se fosse limpar
impuros corpos, impura
luz, impuro declinar
às horas mais viciosas.
As manhãs de forte luz
existem para o que irá
morrer e isso desconhece:
rosas com gosto de orvalho
carne com cheiro de infância.
O resto, em tais manhãs,
agoniza, ou boceja,
ou recebe com raivosa
tolerância as chagas
do inevitável exílio.
quarta-feira, 28 de outubro de 2009
terça-feira, 20 de outubro de 2009
nouvelle vague
Margot esteve muito triste nos últimos dias de agosto, mas em setembro veio o esplendor.
Não sei se (re) nasceu em nós a vagabundagem juvenil, não sei se foi o abandono que sempre surge no encalço da tristeza, ou se foi a ternura pelas coisas vivas. Perdemos muitas tardes perambulando pela cidade. Não tínhamos dinheiro, mas tínhamos um plano de vida comum: ela desenhara a planta do nosso futuro apartamento e íamos de comércio em comércio, conversávamos com os vendedores, pesquisávamos preços, escolhíamos móveis que nunca poderíamos comprar.
Mas isso não foi o principal daqueles dias. Sabíamos que em nosso apartamento haveria um coelho e naquela semana chegamos a visitar todas as lojas de animais da cidade. Os coelhos mais bonitos não estavam nas lojas chiques e perfumadas – os que mais nos agradavam eram os coelhos daquelas lojas de bairro, os quais ficavam apertados em gaiolas minúsculas e eram vendidos para abate.
Às vezes Margot julgava um coelho mais bonito do que os outros e, com desespero na voz, dizia:
“Mas as pessoas vão comer ele.”
Em outras ocasiões ela cismava que um dos coelhos estava fraco e alertava o vendedor:
"Aquele coelho não está conseguindo beber água.”
A nossa jornada terminou na loja de animais do Mercado Municipal, onde vimos o mais bonito dos coelhos: branco, pequeno, sem manchas no pêlo, e em cujos olhos vicejantes pulsava uma infinita vitalidade. Na gaiola ao lado havia cerca de vinte coelhos, e um deles, branco e cinza, também bonito, quase não se mexia. Margot chamou a vendedora: “Aquele coelho ali não se mexe.”
A vendedora observou por alguns segundos: “É que ele está morrendo."
Margot nada respondeu. Apenas observou a vendedora abrir a gaiola. Os outros coelhos, que começavam a fustigar o companheiro agonizante, afastaram-se. Rápida, a mulher o apanhou pelas orelhas – o que fez com ele soltasse um espasmo e depois silenciasse – e, corredores da loja adentro, sumiu com o animal morto.
Não sei se (re) nasceu em nós a vagabundagem juvenil, não sei se foi o abandono que sempre surge no encalço da tristeza, ou se foi a ternura pelas coisas vivas. Perdemos muitas tardes perambulando pela cidade. Não tínhamos dinheiro, mas tínhamos um plano de vida comum: ela desenhara a planta do nosso futuro apartamento e íamos de comércio em comércio, conversávamos com os vendedores, pesquisávamos preços, escolhíamos móveis que nunca poderíamos comprar.
Mas isso não foi o principal daqueles dias. Sabíamos que em nosso apartamento haveria um coelho e naquela semana chegamos a visitar todas as lojas de animais da cidade. Os coelhos mais bonitos não estavam nas lojas chiques e perfumadas – os que mais nos agradavam eram os coelhos daquelas lojas de bairro, os quais ficavam apertados em gaiolas minúsculas e eram vendidos para abate.
Às vezes Margot julgava um coelho mais bonito do que os outros e, com desespero na voz, dizia:
“Mas as pessoas vão comer ele.”
Em outras ocasiões ela cismava que um dos coelhos estava fraco e alertava o vendedor:
"Aquele coelho não está conseguindo beber água.”
A nossa jornada terminou na loja de animais do Mercado Municipal, onde vimos o mais bonito dos coelhos: branco, pequeno, sem manchas no pêlo, e em cujos olhos vicejantes pulsava uma infinita vitalidade. Na gaiola ao lado havia cerca de vinte coelhos, e um deles, branco e cinza, também bonito, quase não se mexia. Margot chamou a vendedora: “Aquele coelho ali não se mexe.”
A vendedora observou por alguns segundos: “É que ele está morrendo."
Margot nada respondeu. Apenas observou a vendedora abrir a gaiola. Os outros coelhos, que começavam a fustigar o companheiro agonizante, afastaram-se. Rápida, a mulher o apanhou pelas orelhas – o que fez com ele soltasse um espasmo e depois silenciasse – e, corredores da loja adentro, sumiu com o animal morto.
domingo, 11 de outubro de 2009
duas anotações sobre o calor
1.
Lembro-me dos dias em que escrevia poemas e dos sábados em que descia às ruas do centro e gastava as as tardes jogando sinuca. Voltava para casa às sete ou oito horas da noite. Como era março - e como naquele ano o verão ficou marcado pela ausência de chuvas - eu caminhava sob um entardecer incendiado. No ar poeirento e com um cheiro de sol antigo e terra queimada, à medida que cruzava os quarteirões da cidade velha, um fedor de gordura podre ganhava o meu rosto. Passava muitas noites de sábado em casa e escrevia sobre isso: a agonia das samambaias no tempo seco. Às vezes ouvia Trio Los Panchos ou Leonard Cohen.
2.
Nunca soube o motivo do Senhor Hambúrguer ficar aberto durante a noite: havia poucos clientes e eles só atendiam a jovens sem dinheiro como eu e Cartago. Recordo que, em uma noite de sexta, eu e Cartago jantávamos antes de seguirmos para o cinema da Rua Etrusca. No Senhor Hambúrguer, todas as outras mesas estavam vazias e a luz que descia - uma claridade branca e onipresente, a qual não permitia que qualquer recanto do estabelecimento se ocultasse nas sombras - era, a um só tempo, doce e alheia.
Após o jantar, andamos os poucos quarteirões que separavam a lanchonete do cinema. No caminho, encontramos uma menina de olhos esverdeados (mas que, à luz crepuscular irradiada pelos postes, assumiam um brilho quase violeta), ombros magros, pele clara, cabelos ondulados. Ela riu para Cartago e conversamos por alguns minutos. Depois que ela foi embora, Cartago disse-me uma das frases que consagrou aquele verão às garotas perdidas:
Sabe esta menina? Fui apaixonado por ela há seis ou sete anos.
Lembro-me dos dias em que escrevia poemas e dos sábados em que descia às ruas do centro e gastava as as tardes jogando sinuca. Voltava para casa às sete ou oito horas da noite. Como era março - e como naquele ano o verão ficou marcado pela ausência de chuvas - eu caminhava sob um entardecer incendiado. No ar poeirento e com um cheiro de sol antigo e terra queimada, à medida que cruzava os quarteirões da cidade velha, um fedor de gordura podre ganhava o meu rosto. Passava muitas noites de sábado em casa e escrevia sobre isso: a agonia das samambaias no tempo seco. Às vezes ouvia Trio Los Panchos ou Leonard Cohen.
2.
Nunca soube o motivo do Senhor Hambúrguer ficar aberto durante a noite: havia poucos clientes e eles só atendiam a jovens sem dinheiro como eu e Cartago. Recordo que, em uma noite de sexta, eu e Cartago jantávamos antes de seguirmos para o cinema da Rua Etrusca. No Senhor Hambúrguer, todas as outras mesas estavam vazias e a luz que descia - uma claridade branca e onipresente, a qual não permitia que qualquer recanto do estabelecimento se ocultasse nas sombras - era, a um só tempo, doce e alheia.
Após o jantar, andamos os poucos quarteirões que separavam a lanchonete do cinema. No caminho, encontramos uma menina de olhos esverdeados (mas que, à luz crepuscular irradiada pelos postes, assumiam um brilho quase violeta), ombros magros, pele clara, cabelos ondulados. Ela riu para Cartago e conversamos por alguns minutos. Depois que ela foi embora, Cartago disse-me uma das frases que consagrou aquele verão às garotas perdidas:
Sabe esta menina? Fui apaixonado por ela há seis ou sete anos.
domingo, 4 de outubro de 2009
poema
A CHUVA
A chuva distorce o claro e o escuro,
e quase apaga rostos
do homem e da mulher que estão parados
na esquina, sob a marquise.
Talvez seja melhor assim;
pensar que os rostos ainda existem
porque a esquina ainda existe
e porque chove como antes.
Talvez seja melhor esquecer
que os rostos se desmancharam
como se fossem feitos de cera
ou de qualquer outra matéria pálida.
A chuva distorce o claro e o escuro,
e quase apaga rostos
do homem e da mulher que estão parados
na esquina, sob a marquise.
Talvez seja melhor assim;
pensar que os rostos ainda existem
porque a esquina ainda existe
e porque chove como antes.
Talvez seja melhor esquecer
que os rostos se desmancharam
como se fossem feitos de cera
ou de qualquer outra matéria pálida.
quinta-feira, 24 de setembro de 2009
poema
30
Tornei-me o recatado bluesman:
o homem que ainda busca Ítaca
mas não em águas fecundas para o heroísmo.
O homem que apenas busca Ítaca
na repetição dos gestos
na palidez dos afetos
no lento pisotear com que o tempo
transforma o rosto do meu pai
no rosto de um morto, e o meu rosto
no rosto de outro homem.
As tardes – aqui, no México, em vilarejos
onde os corpos terminam
como manchas de bolor em frias paredes –
as tardes são tudo o que um homem
pode ultrapassar. As tardes
são tudo o que açoita a carne.
As tardes são o estiolar do lume
que o coração em si próprio
acendeu. As tardes são
a sombra que escurece as águas
e mal se contempla
o que jaz submerso: peixes
que perdem o brilho, algas
e o amor como algo que não respira,
o amor como uma pedra nascida
azul ou vermelha, o amor como uma pedra
nascida para deixar de ser
azul ou vermelha.
Tornei-me o recatado bluesman:
o homem que ainda busca Ítaca
mas não em águas fecundas para o heroísmo.
O homem que apenas busca Ítaca
na repetição dos gestos
na palidez dos afetos
no lento pisotear com que o tempo
transforma o rosto do meu pai
no rosto de um morto, e o meu rosto
no rosto de outro homem.
As tardes – aqui, no México, em vilarejos
onde os corpos terminam
como manchas de bolor em frias paredes –
as tardes são tudo o que um homem
pode ultrapassar. As tardes
são tudo o que açoita a carne.
As tardes são o estiolar do lume
que o coração em si próprio
acendeu. As tardes são
a sombra que escurece as águas
e mal se contempla
o que jaz submerso: peixes
que perdem o brilho, algas
e o amor como algo que não respira,
o amor como uma pedra nascida
azul ou vermelha, o amor como uma pedra
nascida para deixar de ser
azul ou vermelha.
domingo, 20 de setembro de 2009
aos vinte anos
20
Ando tão chocado, companheiro,
há qualquer coisa de errada com este início de milênio,
ainda não consegui os meus quinze segundos de fama
e pensar no que poderíamos ter alcançado.
O sacrifício de tantas crianças
só por anunciarmos publicamente a nossa morte.
Poderíamos ter sido maiores que os Beatles
e ao cairmos com tamanha intensidade
amparados por uma inocência qualquer
estaríamos imaginando um novo conceito de belo.
Há mesmo qualquer coisa errada
com este início de milênio;
não dependo mais de mim para morrer
e acho que vou ter de apodrecer por aí
(como um Prometeu incrédulo e maquiado)
em vésperas de me tornar um mito.
Lembro-me de quando você conheceu aquela garota,
Stéphanie, se não me falha a memória,
e de como ficava triste o seu dia
todas as vezes que ela lhe negava um sorriso.
Quando Stéphanie lhe disse que tinha medo de morrer
você finalmente terminou com a banda
para de uma vez por todas ir viver com ela.
É provável que ainda compartilhem
a mesma seringa suja.
Sei que a sua intenção era tornar-se um recatado bluesman,
mas quando ela fez de você um péssimo poeta
você não sabe como foi amargo
ver o meu reflexo dentro de suas pobres canções.
E agora, no final deste dia perfeito,
você só vai colher aquilo que semear –
talvez leve uma vida boa e quieta.
Eu vou fugir para o México,
satisfazer uma vaidade qualquer.
Despite all of this, I’m a modern lover.
20/09/1999
Ando tão chocado, companheiro,
há qualquer coisa de errada com este início de milênio,
ainda não consegui os meus quinze segundos de fama
e pensar no que poderíamos ter alcançado.
O sacrifício de tantas crianças
só por anunciarmos publicamente a nossa morte.
Poderíamos ter sido maiores que os Beatles
e ao cairmos com tamanha intensidade
amparados por uma inocência qualquer
estaríamos imaginando um novo conceito de belo.
Há mesmo qualquer coisa errada
com este início de milênio;
não dependo mais de mim para morrer
e acho que vou ter de apodrecer por aí
(como um Prometeu incrédulo e maquiado)
em vésperas de me tornar um mito.
Lembro-me de quando você conheceu aquela garota,
Stéphanie, se não me falha a memória,
e de como ficava triste o seu dia
todas as vezes que ela lhe negava um sorriso.
Quando Stéphanie lhe disse que tinha medo de morrer
você finalmente terminou com a banda
para de uma vez por todas ir viver com ela.
É provável que ainda compartilhem
a mesma seringa suja.
Sei que a sua intenção era tornar-se um recatado bluesman,
mas quando ela fez de você um péssimo poeta
você não sabe como foi amargo
ver o meu reflexo dentro de suas pobres canções.
E agora, no final deste dia perfeito,
você só vai colher aquilo que semear –
talvez leve uma vida boa e quieta.
Eu vou fugir para o México,
satisfazer uma vaidade qualquer.
Despite all of this, I’m a modern lover.
20/09/1999
quinta-feira, 17 de setembro de 2009
poema
Garotas pintam as unhas e esperam.
Eis o que as tardes são: tédio, calor,
cheiro de corpos que sentem o exílio
em que caíram; o exílio que é como
a lembrança de uma luz corrompida.
Garotas pintam as unhas e esperam.
Quanto mais veloz cai o sol, mais lentas
e densas são as horas; são um rio
em cujas águas tudo é agonia,
tudo é perversão de desejos, tudo
é uma cicatriz que já vem podre.
Garotas pintam as unhas e esperam.
As noites parecem as do passado:
o luar é doce jasmim, as nuvens
são inércia e queda, as ventanias
são lamentos de mortos insepultos.
Garotas pintam as unhas e esperam.
A carne teme prisões solitárias,
o coração é piano em ruínas,
a comunhão com a noite é febril
como mergulhar entre as águas vivas.
Garotas pintam as unhas e esperam:
pálido é o arrebol, pálido é
o que ainda se sente com clareza –
os corpos são sonâmbulos que exaustos
querem descansar na impossível relva.
Eis o que as tardes são: tédio, calor,
cheiro de corpos que sentem o exílio
em que caíram; o exílio que é como
a lembrança de uma luz corrompida.
Garotas pintam as unhas e esperam.
Quanto mais veloz cai o sol, mais lentas
e densas são as horas; são um rio
em cujas águas tudo é agonia,
tudo é perversão de desejos, tudo
é uma cicatriz que já vem podre.
Garotas pintam as unhas e esperam.
As noites parecem as do passado:
o luar é doce jasmim, as nuvens
são inércia e queda, as ventanias
são lamentos de mortos insepultos.
Garotas pintam as unhas e esperam.
A carne teme prisões solitárias,
o coração é piano em ruínas,
a comunhão com a noite é febril
como mergulhar entre as águas vivas.
Garotas pintam as unhas e esperam:
pálido é o arrebol, pálido é
o que ainda se sente com clareza –
os corpos são sonâmbulos que exaustos
querem descansar na impossível relva.
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