A noite antes do dia dos mortos
começa cruel: o ar é chicote
de silêncio, tédio, raiva, tristeza;
como se o que é vazio e ausente
elétrico se tornasse, e assim
impulsionasse as pessoas e os carros
em muitos passeios pela cidade –
corpos que se esgotam em catedrais,
ou em parcos banquetes, ou em buscas
pelo que também respira, e queima,
e pranteia, e perverte, e adora,
e delira ante a falhada pureza
que nos pântanos de outros corações
encontra, como se o estrelado céu
também conseguisse existir em tudo
o que o imita: luzes da cidade,
olhos enamorados, mar sem ondas
e em cujas águas adejam vestígios
de alegria náufraga e irreal.
A noite antes do dia dos mortos
magoa apenas os mortos futuros.
Os mortos em cujo sangue cintila
muito mais do que amor: medo, e muito
mais do que medo: urgência, pulsão,
o desejo de ter os pés na terra
e não cair: estar aqui, estar
entre o que imita a beleza, e o amor,
e a coragem, e o que parece eterno –
claro rosto de deus, rubra linhagem;
a carne que deixa de ser poeira
ao frutificar, ao tirar do sangue
outros mortos futuros, outros cérebros
rachados entre o ser mortal e o ser
imitação de um júbilo perene,
de um rosto bondoso e nunca encontrado,
de pai forte e filho mais forte ainda.
sábado, 14 de novembro de 2009
quinta-feira, 5 de novembro de 2009
mildred foi mesmo embora
ÚLTIMO POEMA PARA A TRISTEZA DE MILDRED
Como dizer que a sua tristeza
é o poema que desejo escrever?
Até sobre a sua alegria sei pouco.
Eu só a conheço debaixo do sol:
não sei se os seus olhos, castanhos,
continuam castanhos quando chove
ou se escurecem como os olhos
de uma mulher que amei certa vez.
Também nunca a vi dormindo;
não sei como a primeira luz da manhã
desliza sobre o seu rosto
e também não sei se essa mesma luz
faz o castanho dos seus olhos
brilhar como mel refletindo o sol.
Tampouco sei o gosto de seus beijos
e nunca ouvi as canções que você ouve
quando se descobre enamorada.
Conheço apenas o seu riso
e como o sol, no rigor do meio-dia,
enrodilha-se em seus cabelos ruivos.
Uma vez você disse estar triste
mas a tristeza me pareceu timidez
e tímido eu não soube ir além
de seus olhos, seu pudor, sua tristeza.
Tampouco sei o que é amar
durante o tênue mês de maio.
Foi em novembro que tive
aquela guria cujo azul dos olhos
se acizentava nas tardes de chuva.
Após ela pensei que você seria a mulher
que um homem tem após aprender
a amar e a perder o que ama.
Mas tão distantes nos mantivemos
e no entanto ainda há um resto de luz:
com essa luz invento a sua tristeza
(contempla a minha inútil ternura!)
e sob essa luz (luz que predece o inverno)
vou percebendo qual é a chaga de sentir
dentro do próprio peito um fruto
maduro e ainda não colhido.
Como dizer que a sua tristeza
é o poema que desejo escrever?
Até sobre a sua alegria sei pouco.
Eu só a conheço debaixo do sol:
não sei se os seus olhos, castanhos,
continuam castanhos quando chove
ou se escurecem como os olhos
de uma mulher que amei certa vez.
Também nunca a vi dormindo;
não sei como a primeira luz da manhã
desliza sobre o seu rosto
e também não sei se essa mesma luz
faz o castanho dos seus olhos
brilhar como mel refletindo o sol.
Tampouco sei o gosto de seus beijos
e nunca ouvi as canções que você ouve
quando se descobre enamorada.
Conheço apenas o seu riso
e como o sol, no rigor do meio-dia,
enrodilha-se em seus cabelos ruivos.
Uma vez você disse estar triste
mas a tristeza me pareceu timidez
e tímido eu não soube ir além
de seus olhos, seu pudor, sua tristeza.
Tampouco sei o que é amar
durante o tênue mês de maio.
Foi em novembro que tive
aquela guria cujo azul dos olhos
se acizentava nas tardes de chuva.
Após ela pensei que você seria a mulher
que um homem tem após aprender
a amar e a perder o que ama.
Mas tão distantes nos mantivemos
e no entanto ainda há um resto de luz:
com essa luz invento a sua tristeza
(contempla a minha inútil ternura!)
e sob essa luz (luz que predece o inverno)
vou percebendo qual é a chaga de sentir
dentro do próprio peito um fruto
maduro e ainda não colhido.
quarta-feira, 4 de novembro de 2009
por onde anda mildred?
PRIMEIRO POEMA PARA O SORRISO DE MILDRED
Como dizer que amo
o sol que arde atrás do seu rosto?
Não a conheço. Nada sei
sobre a sua tristeza,
sobre o seu coração magoado,
sobre os mortos que enterrou
e os corpos que não pode mais amar.
Olho-a e sei apenas de mim:
amei e fui amado
por mulheres imensamente tristes;
eu as abracei e o que ofereci
foi a minha fraqueza.
Agora sei que sou apenas um homem
e se a vejo, sei que é apenas uma mulher
mas também sei do sol,
do seu modo de rir, da sua juventude,
das flores que gosta de colher
e que para o seu coração tão indefeso
amar um corpo ou amar uma alma
traz a mesma alegria.
Por isso a quero,
porque o seu rosto é o sol,
porque a sua alma é um véu de luz,
porque o seu corpo é uma orquídea que se abre
e depois adormece ao relento.
Como dizer que amo
o sol que arde atrás do seu rosto?
Não a conheço. Nada sei
sobre a sua tristeza,
sobre o seu coração magoado,
sobre os mortos que enterrou
e os corpos que não pode mais amar.
Olho-a e sei apenas de mim:
amei e fui amado
por mulheres imensamente tristes;
eu as abracei e o que ofereci
foi a minha fraqueza.
Agora sei que sou apenas um homem
e se a vejo, sei que é apenas uma mulher
mas também sei do sol,
do seu modo de rir, da sua juventude,
das flores que gosta de colher
e que para o seu coração tão indefeso
amar um corpo ou amar uma alma
traz a mesma alegria.
Por isso a quero,
porque o seu rosto é o sol,
porque a sua alma é um véu de luz,
porque o seu corpo é uma orquídea que se abre
e depois adormece ao relento.
quarta-feira, 28 de outubro de 2009
poema
As manhãs de forte luz
não são para os corpos gastos;
os corpos batidos pelo
o que existe de mais ínfimo:
coração podre – um seixo
pela maré devolvido
ao areal, pedra inóspita,
pedra de nudez selvagem
como os olhos de uma fera.
As manhãs de forte luz
são alheias às vertigens
do real. Fumega o céu:
é um azul entre o plúmbeo
e o anil – azul erigido
sobre telhados vermelhos
sobre ventos de terra
sobre carne e olhos ardentes
e que ainda nesse dia
(ainda o azul, o ardor)
serão desejo e silêncio.
As manhãs de forte luz
são a morte do divino:
deus é uma palavra oca,
o amor é sono e febre
em corpos que se limitam
em beijos que se repetem
em corações que existem
apenas para o que não
existe – lume diáfano
e que, todavia, queima
como se fosse limpar
impuros corpos, impura
luz, impuro declinar
às horas mais viciosas.
As manhãs de forte luz
existem para o que irá
morrer e isso desconhece:
rosas com gosto de orvalho
carne com cheiro de infância.
O resto, em tais manhãs,
agoniza, ou boceja,
ou recebe com raivosa
tolerância as chagas
do inevitável exílio.
não são para os corpos gastos;
os corpos batidos pelo
o que existe de mais ínfimo:
coração podre – um seixo
pela maré devolvido
ao areal, pedra inóspita,
pedra de nudez selvagem
como os olhos de uma fera.
As manhãs de forte luz
são alheias às vertigens
do real. Fumega o céu:
é um azul entre o plúmbeo
e o anil – azul erigido
sobre telhados vermelhos
sobre ventos de terra
sobre carne e olhos ardentes
e que ainda nesse dia
(ainda o azul, o ardor)
serão desejo e silêncio.
As manhãs de forte luz
são a morte do divino:
deus é uma palavra oca,
o amor é sono e febre
em corpos que se limitam
em beijos que se repetem
em corações que existem
apenas para o que não
existe – lume diáfano
e que, todavia, queima
como se fosse limpar
impuros corpos, impura
luz, impuro declinar
às horas mais viciosas.
As manhãs de forte luz
existem para o que irá
morrer e isso desconhece:
rosas com gosto de orvalho
carne com cheiro de infância.
O resto, em tais manhãs,
agoniza, ou boceja,
ou recebe com raivosa
tolerância as chagas
do inevitável exílio.
terça-feira, 20 de outubro de 2009
nouvelle vague
Margot esteve muito triste nos últimos dias de agosto, mas em setembro veio o esplendor.
Não sei se (re) nasceu em nós a vagabundagem juvenil, não sei se foi o abandono que sempre surge no encalço da tristeza, ou se foi a ternura pelas coisas vivas. Perdemos muitas tardes perambulando pela cidade. Não tínhamos dinheiro, mas tínhamos um plano de vida comum: ela desenhara a planta do nosso futuro apartamento e íamos de comércio em comércio, conversávamos com os vendedores, pesquisávamos preços, escolhíamos móveis que nunca poderíamos comprar.
Mas isso não foi o principal daqueles dias. Sabíamos que em nosso apartamento haveria um coelho e naquela semana chegamos a visitar todas as lojas de animais da cidade. Os coelhos mais bonitos não estavam nas lojas chiques e perfumadas – os que mais nos agradavam eram os coelhos daquelas lojas de bairro, os quais ficavam apertados em gaiolas minúsculas e eram vendidos para abate.
Às vezes Margot julgava um coelho mais bonito do que os outros e, com desespero na voz, dizia:
“Mas as pessoas vão comer ele.”
Em outras ocasiões ela cismava que um dos coelhos estava fraco e alertava o vendedor:
"Aquele coelho não está conseguindo beber água.”
A nossa jornada terminou na loja de animais do Mercado Municipal, onde vimos o mais bonito dos coelhos: branco, pequeno, sem manchas no pêlo, e em cujos olhos vicejantes pulsava uma infinita vitalidade. Na gaiola ao lado havia cerca de vinte coelhos, e um deles, branco e cinza, também bonito, quase não se mexia. Margot chamou a vendedora: “Aquele coelho ali não se mexe.”
A vendedora observou por alguns segundos: “É que ele está morrendo."
Margot nada respondeu. Apenas observou a vendedora abrir a gaiola. Os outros coelhos, que começavam a fustigar o companheiro agonizante, afastaram-se. Rápida, a mulher o apanhou pelas orelhas – o que fez com ele soltasse um espasmo e depois silenciasse – e, corredores da loja adentro, sumiu com o animal morto.
Não sei se (re) nasceu em nós a vagabundagem juvenil, não sei se foi o abandono que sempre surge no encalço da tristeza, ou se foi a ternura pelas coisas vivas. Perdemos muitas tardes perambulando pela cidade. Não tínhamos dinheiro, mas tínhamos um plano de vida comum: ela desenhara a planta do nosso futuro apartamento e íamos de comércio em comércio, conversávamos com os vendedores, pesquisávamos preços, escolhíamos móveis que nunca poderíamos comprar.
Mas isso não foi o principal daqueles dias. Sabíamos que em nosso apartamento haveria um coelho e naquela semana chegamos a visitar todas as lojas de animais da cidade. Os coelhos mais bonitos não estavam nas lojas chiques e perfumadas – os que mais nos agradavam eram os coelhos daquelas lojas de bairro, os quais ficavam apertados em gaiolas minúsculas e eram vendidos para abate.
Às vezes Margot julgava um coelho mais bonito do que os outros e, com desespero na voz, dizia:
“Mas as pessoas vão comer ele.”
Em outras ocasiões ela cismava que um dos coelhos estava fraco e alertava o vendedor:
"Aquele coelho não está conseguindo beber água.”
A nossa jornada terminou na loja de animais do Mercado Municipal, onde vimos o mais bonito dos coelhos: branco, pequeno, sem manchas no pêlo, e em cujos olhos vicejantes pulsava uma infinita vitalidade. Na gaiola ao lado havia cerca de vinte coelhos, e um deles, branco e cinza, também bonito, quase não se mexia. Margot chamou a vendedora: “Aquele coelho ali não se mexe.”
A vendedora observou por alguns segundos: “É que ele está morrendo."
Margot nada respondeu. Apenas observou a vendedora abrir a gaiola. Os outros coelhos, que começavam a fustigar o companheiro agonizante, afastaram-se. Rápida, a mulher o apanhou pelas orelhas – o que fez com ele soltasse um espasmo e depois silenciasse – e, corredores da loja adentro, sumiu com o animal morto.
domingo, 11 de outubro de 2009
duas anotações sobre o calor
1.
Lembro-me dos dias em que escrevia poemas e dos sábados em que descia às ruas do centro e gastava as as tardes jogando sinuca. Voltava para casa às sete ou oito horas da noite. Como era março - e como naquele ano o verão ficou marcado pela ausência de chuvas - eu caminhava sob um entardecer incendiado. No ar poeirento e com um cheiro de sol antigo e terra queimada, à medida que cruzava os quarteirões da cidade velha, um fedor de gordura podre ganhava o meu rosto. Passava muitas noites de sábado em casa e escrevia sobre isso: a agonia das samambaias no tempo seco. Às vezes ouvia Trio Los Panchos ou Leonard Cohen.
2.
Nunca soube o motivo do Senhor Hambúrguer ficar aberto durante a noite: havia poucos clientes e eles só atendiam a jovens sem dinheiro como eu e Cartago. Recordo que, em uma noite de sexta, eu e Cartago jantávamos antes de seguirmos para o cinema da Rua Etrusca. No Senhor Hambúrguer, todas as outras mesas estavam vazias e a luz que descia - uma claridade branca e onipresente, a qual não permitia que qualquer recanto do estabelecimento se ocultasse nas sombras - era, a um só tempo, doce e alheia.
Após o jantar, andamos os poucos quarteirões que separavam a lanchonete do cinema. No caminho, encontramos uma menina de olhos esverdeados (mas que, à luz crepuscular irradiada pelos postes, assumiam um brilho quase violeta), ombros magros, pele clara, cabelos ondulados. Ela riu para Cartago e conversamos por alguns minutos. Depois que ela foi embora, Cartago disse-me uma das frases que consagrou aquele verão às garotas perdidas:
Sabe esta menina? Fui apaixonado por ela há seis ou sete anos.
Lembro-me dos dias em que escrevia poemas e dos sábados em que descia às ruas do centro e gastava as as tardes jogando sinuca. Voltava para casa às sete ou oito horas da noite. Como era março - e como naquele ano o verão ficou marcado pela ausência de chuvas - eu caminhava sob um entardecer incendiado. No ar poeirento e com um cheiro de sol antigo e terra queimada, à medida que cruzava os quarteirões da cidade velha, um fedor de gordura podre ganhava o meu rosto. Passava muitas noites de sábado em casa e escrevia sobre isso: a agonia das samambaias no tempo seco. Às vezes ouvia Trio Los Panchos ou Leonard Cohen.
2.
Nunca soube o motivo do Senhor Hambúrguer ficar aberto durante a noite: havia poucos clientes e eles só atendiam a jovens sem dinheiro como eu e Cartago. Recordo que, em uma noite de sexta, eu e Cartago jantávamos antes de seguirmos para o cinema da Rua Etrusca. No Senhor Hambúrguer, todas as outras mesas estavam vazias e a luz que descia - uma claridade branca e onipresente, a qual não permitia que qualquer recanto do estabelecimento se ocultasse nas sombras - era, a um só tempo, doce e alheia.
Após o jantar, andamos os poucos quarteirões que separavam a lanchonete do cinema. No caminho, encontramos uma menina de olhos esverdeados (mas que, à luz crepuscular irradiada pelos postes, assumiam um brilho quase violeta), ombros magros, pele clara, cabelos ondulados. Ela riu para Cartago e conversamos por alguns minutos. Depois que ela foi embora, Cartago disse-me uma das frases que consagrou aquele verão às garotas perdidas:
Sabe esta menina? Fui apaixonado por ela há seis ou sete anos.
domingo, 4 de outubro de 2009
poema
A CHUVA
A chuva distorce o claro e o escuro,
e quase apaga rostos
do homem e da mulher que estão parados
na esquina, sob a marquise.
Talvez seja melhor assim;
pensar que os rostos ainda existem
porque a esquina ainda existe
e porque chove como antes.
Talvez seja melhor esquecer
que os rostos se desmancharam
como se fossem feitos de cera
ou de qualquer outra matéria pálida.
A chuva distorce o claro e o escuro,
e quase apaga rostos
do homem e da mulher que estão parados
na esquina, sob a marquise.
Talvez seja melhor assim;
pensar que os rostos ainda existem
porque a esquina ainda existe
e porque chove como antes.
Talvez seja melhor esquecer
que os rostos se desmancharam
como se fossem feitos de cera
ou de qualquer outra matéria pálida.
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