Em cidade estranha e mesquinha, ouço
duas melodias familiares: a primeira
é tangida por flautas andinas
e logo em seguida – enquanto na tarde
ainda se desfaz a canção doce e citadina –
reverbera o sino da catedral:
cada badalada soma-se ao eco da anterior
e a esse ecoar somam-se os olhos
que as fronteiras da cidade não venceram,
olhos que nunca foram além
do primeiro e materno exílio.
"Aqui não nasci, aqui não morrerei" – penso
mas o sentimento não é o de alívio
pois se aqui não nasci e aqui não morrerei
a terra que me tem como raiz
também não é altiva: também é uma cidade
estranha e mesquinha, uma cidade
com fronteiras como as dessa:
colunas de poeira colunas de fogo
paisagens de terra vermelha
mortos que cheiram a pólvora e a asfalto
sábados que cheiram a bocas carmesins
domingos que cheiram a cristo e a tédio
anos em estado de inércia, e a velhice
enquanto a perda de algo ínfimo –
algo como olhar para o céu de todas as noites
e não encontrar, no manto cravejado,
uma chama de secreto significado.
Então vem o sonho (e o sonho começa quando
ainda se possui o céu com todos os deuses)
com passados céus de maio e depois
com as árvores em queda e depois
com as esquinas em mudança e depois
com os corpos enquanto pedaço de luz
não retida, não preservada –
os corpos enquanto vida estiolada
a trespassar, a fugir do coração.
E, no entanto, é o desejo mais tolo que existe:
Não deixar a cidade primordial. Não
deixar este corpo estes olhos este rosto
com o qual desbravei a cidade.
Não perder o pulmão que respirou
as tardes secas como se estas fossem
as únicas tardes possíveis. Não
ter exilado de mim o coração
que ainda trago como quem carrega
uma chaga viva, levando-o
até além do crepúsculo – até a noite
atiçada por cheiros que são sementes
e o desejo (o qual cheira a terra e a carne)
é como relva oculta nas trevas:
Respira-se o orvalho. Respira-se os jasmins
que queimados pelo orvalho são chama branca
e doída. Respira-se o luar alto - o luar
envolto por um halo de amarela
sujeira e amarelas luzes citadinas: o luar
lento sobre os corpos cuja queda
é suspensa – um corpo de rapariga entre
o primeiro alvor e o amarelo sujo
caído do alto dos postes e do alto dos telhados
de uma cidade já esquecida.
sábado, 23 de janeiro de 2010
domingo, 10 de janeiro de 2010
poema
HÁ MULHERES
Há mulheres que passam
e deixam pétalas sobre os caminhos
que trilhamos juntos.
São estas as mulheres que mais amo
e não vejo como seguir o meu destino
sem antes recolher e guardar
todas as pétalas que ficaram para trás.
Não é um trabalho fácil este;
antes é preciso aprender o desapego,
aprender a não mais querer possuir
aquilo que já nos não pertence.
Não há saudade que não seja fugidia,
não há navio que desapareça no horizonte
e não deixe um rastro de fumaça
que invariavelmente se dilui.
Mas ainda assim amo todas as pétalas
que recolho sobre os caminhos trilhados.
Talvez rosas dos jardins de Adônis
amo-as pois tiveram uma beleza fulgurante
e hoje são desejo sorvido pelo sol,
amo-as pois ao recolhê-las
despeço-me de olhos que já não existem.
"Vê esta rosa de pétalas vermelhas,
esta rosa de pétalas vermelhas é a tua infância.
Esta outra pétala, repara,
é o teu sorriso aos vinte anos.
Tanta coisa eu levo comigo, tanta coisa.
Mais do que teus segredos, levo teus sonhos
e também o que esqueceste de sonhar,
esta rosa de alma pálida,
este vermelho que não conheceu a primavera."
Há mulheres que passam
e deixam pétalas sobre os caminhos
que trilhamos juntos.
São estas as mulheres que mais amo
e não vejo como seguir o meu destino
sem antes recolher e guardar
todas as pétalas que ficaram para trás.
Não é um trabalho fácil este;
antes é preciso aprender o desapego,
aprender a não mais querer possuir
aquilo que já nos não pertence.
Não há saudade que não seja fugidia,
não há navio que desapareça no horizonte
e não deixe um rastro de fumaça
que invariavelmente se dilui.
Mas ainda assim amo todas as pétalas
que recolho sobre os caminhos trilhados.
Talvez rosas dos jardins de Adônis
amo-as pois tiveram uma beleza fulgurante
e hoje são desejo sorvido pelo sol,
amo-as pois ao recolhê-las
despeço-me de olhos que já não existem.
"Vê esta rosa de pétalas vermelhas,
esta rosa de pétalas vermelhas é a tua infância.
Esta outra pétala, repara,
é o teu sorriso aos vinte anos.
Tanta coisa eu levo comigo, tanta coisa.
Mais do que teus segredos, levo teus sonhos
e também o que esqueceste de sonhar,
esta rosa de alma pálida,
este vermelho que não conheceu a primavera."
sábado, 2 de janeiro de 2010
O sol, após as chuvas noturnas,
lança um bafo úmido sobre as ruas:
o que se respira, machuca
e, no entanto, é como se a dor
não fosse humana, como se a dor
aqui estivesse antes das chuvas
noturnas, e antes do arrebol,
e antes dos crepúsculos de fogo
e antes da idéia de que existe
algo belo, algo bom, algo incandescente;
antes, enfim, da idéia de que esse lume
foi deixado em cada coração
e que em cada coração permanece:
chama sem nome e sem fim.
A aurora segue, e é como se fosse a aurora
do primeiro dia – brisa seca
sopra por entre os galhos, galos cantam,
e por um momento tudo o que se ouve
é a natureza crua e alheia:
tudo nasce, tudo morre e nada grita
mais alto do que o vento sobre as árvores.
Mas há homens aqui, e porque há homens aqui
o que se escuta vai além
do que nada significa. E o que se escuta
é aquela dor que não parece humana
mas que, todavia, tem voz humana
e imita anseios humanos: outro corpo,
luz mais duradoura, a certeza
de que algo existe: algo belo, algo bom,
enfim, algo incandescente – lume
que em cada coração permanece:
chama sem nome e sem fim.
lança um bafo úmido sobre as ruas:
o que se respira, machuca
e, no entanto, é como se a dor
não fosse humana, como se a dor
aqui estivesse antes das chuvas
noturnas, e antes do arrebol,
e antes dos crepúsculos de fogo
e antes da idéia de que existe
algo belo, algo bom, algo incandescente;
antes, enfim, da idéia de que esse lume
foi deixado em cada coração
e que em cada coração permanece:
chama sem nome e sem fim.
A aurora segue, e é como se fosse a aurora
do primeiro dia – brisa seca
sopra por entre os galhos, galos cantam,
e por um momento tudo o que se ouve
é a natureza crua e alheia:
tudo nasce, tudo morre e nada grita
mais alto do que o vento sobre as árvores.
Mas há homens aqui, e porque há homens aqui
o que se escuta vai além
do que nada significa. E o que se escuta
é aquela dor que não parece humana
mas que, todavia, tem voz humana
e imita anseios humanos: outro corpo,
luz mais duradoura, a certeza
de que algo existe: algo belo, algo bom,
enfim, algo incandescente – lume
que em cada coração permanece:
chama sem nome e sem fim.
sexta-feira, 25 de dezembro de 2009
poema
QUASE POEMA NATALINO
A cidade, ontem cheia de gente,
está quieta agora – o céu é branco
e também parece entregue ao torpor
de quem muito comeu, sentiu, buscou
e agora encontra dor por existir.
Também são pesadas as horas – monstros
de bojudos estômagos, de passos
lentos, gordurosos, sem outro sentido
além o de caminhar com lerdeza
e peso, sem outro sentido além
o de caminhar para as muitas tardes
onde muito se come e onde muito
se busca: vindouras tardes de céu
branco; céu onde cristo jaz ausente;
céu em cujo coração (tão secreto
e rubro) perduram amor e medo.
A cidade, ontem cheia de gente,
está quieta agora – o céu é branco
e também parece entregue ao torpor
de quem muito comeu, sentiu, buscou
e agora encontra dor por existir.
Também são pesadas as horas – monstros
de bojudos estômagos, de passos
lentos, gordurosos, sem outro sentido
além o de caminhar com lerdeza
e peso, sem outro sentido além
o de caminhar para as muitas tardes
onde muito se come e onde muito
se busca: vindouras tardes de céu
branco; céu onde cristo jaz ausente;
céu em cujo coração (tão secreto
e rubro) perduram amor e medo.
domingo, 22 de novembro de 2009
poema
BREVE PENSAMENTO SOBRE ENVELHECER
na qual somem todos os privilégios.
A beleza ainda existe, mas agora
é chaga que se abre no coração –
e o sangue que sai, de um vemelho opaco,
é memória confusa e amedrontada
é o repetir de uma melodia
que a cada hora mais se torna estranha
(como se entoada num dialeto
agora alienígena, mas que antes
vibrou como língua por demais bárbara
ou por demais clara: o verbo antes
da sombra do inexpresso; o amor antes
do medo de nada valer; e a luz
antes de descobrir que é fecundada
por olhos mortais, por corpos exaustos,
por estrela antiga e já agonizante).
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
início de um conto
"É como retornar a uma corrompida idéia de alegria" - pensou Antoine, quando a estrada começou a descer e a cidade surgiu, baixa e fumegante, espalhada por toda a linha do horizonte. Acima do carro, o céu era de um azul mais do que esmaecido: era um azul ameaçado pelas nuvens que, de tão maciças, pareciam contrariar todas as leis naturais (as nuvens mais próximas eram ofuscantes como mármore refletindo o sol, e as mais longínquas assumiam uma tonalidade fosca, um matiz que lembrava enferrujadas carcaças de metal em pátios abandonados). Dentro do carro, e porque todas as janelas estavam abertas, o vento que entrava era um sopro incandescente e selvagem contra os rostos e os cabelos de todos os que viajavam: o já mencionado Antoine, homem de trinta anos de idade, magro, dentes arreganhados contra a luz e os ventos, de modo que o seu semblante era uma careta que parecia soma de espasmos musculares tidos durante algum pesadelo tão intenso quanto vago; uma mulher de esvoaçantes cabelos loiros, óculos de lente escura, rosto ungido por fina e reluzente camada de suor, e uma camiseta que deixava à mostra os ombros claros, ossudos, e, ainda assim, sensuais na exata medida em que preservavam sinais de uma juventude para sempre ultrapassada; e, no banco de trás do veículo, adormecida, uma criança de seis ou sete meses de idade, cabelos de um castanho claro que, de tão finos, não eram mais do que uma penugem, e a pele lambuzada por branco e perfumado protetor solar.
Algumas centenas de metro adiante o sol se escondeu por trás das nuvens cor de chumbo e o que caiu, sobre a estrada, foi uma sombra também plúmbea, a qual tornava mais forte o cheiro dos canaviais queimados – um cheiro que, somado ao calor, transcendia o seu estado gasoso, dando origem a um mormaço tão úmido quanto sólido.
"Então é aqui?" – a voz da mulher soou como se fosse mais uma manifestação do vento e do calor, pois os sons sumiram logo a seguir, sem deixar eco, algo como o fantasmagórico ruído de uma peça de madeira estalando durante a noite.
"Sim, é aqui" – respondeu Antoine, que, talvez por descuido ou talvez por encantamento, permaneceu com a boca semi-aberta após a formular a resposta: agora, mais do que nunca, tinha os dentes arreganhados contra a luz e os ventos; os olhos, em contrapartida, estavam cerrados como se ele quisesse fitar, na linha do horizonte, uma distância impossível de ser alcançada por olhos humanos. Pela primeira vez no dia, havia alguma doçura no cheiro dos canaviais queimados – e este olor tão doce e enjoativo, à medida que se aproximava o crepúsculo, apenas aumentaria e depois, como se tivesse atingido o esgotamento, sumiria; deixando, na noite, o ardente perfume de mato, flores selvagens, animais despertos e ariscos. Enquanto tudo isso acontecia, dentro do carro, o cheiro mais forte passou a ser o de carne cansada, indefesa. Antoine olhou para o lado. Olhou para a esposa que, pela primeira vez durante a viagem, tirava os óculos de lente escura. Ela tinha o rosto ungido pelo suor e queimado pelo sol que, durante a tarde inteira, caíra sobre o carro. Apenas ao redor dos olhos a pele mantinha-se clara, de uma brancura que, Antoine sabia, simbolizava uma impossível pureza (e, no centro dessa impossível pureza, tremeluziam dois olhos claros e assustados). Antoine, enlevado, quis beijar a fronte da mulher: em vez disse, apenas sorriu, ou seja, tentou conferir alguma ternura aos seus dentes arreganhados.
"Sim, é aqui" – repetiu após o sorriso, a voz quase inaudível. A seguir, olhou para a mulher e depois para a criança adormecida. "É a minha família", pensou, e lembrou-se de alegres tardes junto com os pais, alegres tardes vividas na cidade a que retornava. E lembrar dessa alegria o deixou melancólico, como se toda a alegria o lembrasse de algo que nunca deveria ser lembrado, algo que nunca deveria ser uma verdade.
Algumas centenas de metro adiante o sol se escondeu por trás das nuvens cor de chumbo e o que caiu, sobre a estrada, foi uma sombra também plúmbea, a qual tornava mais forte o cheiro dos canaviais queimados – um cheiro que, somado ao calor, transcendia o seu estado gasoso, dando origem a um mormaço tão úmido quanto sólido.
"Então é aqui?" – a voz da mulher soou como se fosse mais uma manifestação do vento e do calor, pois os sons sumiram logo a seguir, sem deixar eco, algo como o fantasmagórico ruído de uma peça de madeira estalando durante a noite.
"Sim, é aqui" – respondeu Antoine, que, talvez por descuido ou talvez por encantamento, permaneceu com a boca semi-aberta após a formular a resposta: agora, mais do que nunca, tinha os dentes arreganhados contra a luz e os ventos; os olhos, em contrapartida, estavam cerrados como se ele quisesse fitar, na linha do horizonte, uma distância impossível de ser alcançada por olhos humanos. Pela primeira vez no dia, havia alguma doçura no cheiro dos canaviais queimados – e este olor tão doce e enjoativo, à medida que se aproximava o crepúsculo, apenas aumentaria e depois, como se tivesse atingido o esgotamento, sumiria; deixando, na noite, o ardente perfume de mato, flores selvagens, animais despertos e ariscos. Enquanto tudo isso acontecia, dentro do carro, o cheiro mais forte passou a ser o de carne cansada, indefesa. Antoine olhou para o lado. Olhou para a esposa que, pela primeira vez durante a viagem, tirava os óculos de lente escura. Ela tinha o rosto ungido pelo suor e queimado pelo sol que, durante a tarde inteira, caíra sobre o carro. Apenas ao redor dos olhos a pele mantinha-se clara, de uma brancura que, Antoine sabia, simbolizava uma impossível pureza (e, no centro dessa impossível pureza, tremeluziam dois olhos claros e assustados). Antoine, enlevado, quis beijar a fronte da mulher: em vez disse, apenas sorriu, ou seja, tentou conferir alguma ternura aos seus dentes arreganhados.
"Sim, é aqui" – repetiu após o sorriso, a voz quase inaudível. A seguir, olhou para a mulher e depois para a criança adormecida. "É a minha família", pensou, e lembrou-se de alegres tardes junto com os pais, alegres tardes vividas na cidade a que retornava. E lembrar dessa alegria o deixou melancólico, como se toda a alegria o lembrasse de algo que nunca deveria ser lembrado, algo que nunca deveria ser uma verdade.
sábado, 14 de novembro de 2009
poema
A noite antes do dia dos mortos
começa cruel: o ar é chicote
de silêncio, tédio, raiva, tristeza;
como se o que é vazio e ausente
elétrico se tornasse, e assim
impulsionasse as pessoas e os carros
em muitos passeios pela cidade –
corpos que se esgotam em catedrais,
ou em parcos banquetes, ou em buscas
pelo que também respira, e queima,
e pranteia, e perverte, e adora,
e delira ante a falhada pureza
que nos pântanos de outros corações
encontra, como se o estrelado céu
também conseguisse existir em tudo
o que o imita: luzes da cidade,
olhos enamorados, mar sem ondas
e em cujas águas adejam vestígios
de alegria náufraga e irreal.
A noite antes do dia dos mortos
magoa apenas os mortos futuros.
Os mortos em cujo sangue cintila
muito mais do que amor: medo, e muito
mais do que medo: urgência, pulsão,
o desejo de ter os pés na terra
e não cair: estar aqui, estar
entre o que imita a beleza, e o amor,
e a coragem, e o que parece eterno –
claro rosto de deus, rubra linhagem;
a carne que deixa de ser poeira
ao frutificar, ao tirar do sangue
outros mortos futuros, outros cérebros
rachados entre o ser mortal e o ser
imitação de um júbilo perene,
de um rosto bondoso e nunca encontrado,
de pai forte e filho mais forte ainda.
começa cruel: o ar é chicote
de silêncio, tédio, raiva, tristeza;
como se o que é vazio e ausente
elétrico se tornasse, e assim
impulsionasse as pessoas e os carros
em muitos passeios pela cidade –
corpos que se esgotam em catedrais,
ou em parcos banquetes, ou em buscas
pelo que também respira, e queima,
e pranteia, e perverte, e adora,
e delira ante a falhada pureza
que nos pântanos de outros corações
encontra, como se o estrelado céu
também conseguisse existir em tudo
o que o imita: luzes da cidade,
olhos enamorados, mar sem ondas
e em cujas águas adejam vestígios
de alegria náufraga e irreal.
A noite antes do dia dos mortos
magoa apenas os mortos futuros.
Os mortos em cujo sangue cintila
muito mais do que amor: medo, e muito
mais do que medo: urgência, pulsão,
o desejo de ter os pés na terra
e não cair: estar aqui, estar
entre o que imita a beleza, e o amor,
e a coragem, e o que parece eterno –
claro rosto de deus, rubra linhagem;
a carne que deixa de ser poeira
ao frutificar, ao tirar do sangue
outros mortos futuros, outros cérebros
rachados entre o ser mortal e o ser
imitação de um júbilo perene,
de um rosto bondoso e nunca encontrado,
de pai forte e filho mais forte ainda.
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