terça-feira, 2 de março de 2010

consciência

SUAVE


Suave é o momento do sono:
entra em meus olhos e desabrocha
revelando mil pétalas negras
e sob as negras sombras das pétalas
repousam mil pedaços de mim,
repousam sem peso e contudo presos,
como raízes revolvidas na úmida terra,
raízes que ainda não cresceram.


DESMAIAM


Desmaiam os desejos e a vontade
e sufocados os pensamentos murmuram
como um rio em uma tarde de calor.
Nas margens as frondosas árvores
agitam-se como pássaros mudos
pois também os pássaros estão em silêncio.
Onde a sombra não bate a relva é seca
e triste ignora o lento fluir do rio:
a vida é maior que este pedaço de mundo.
Dos homens não há vestígios -
a tarde é eterna e a morte distante como o luar,
apenas os pensamentos eclodem, sólidos
como em uma inaudita tarde de calor.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

conto

"É como retornar a uma corrompida idéia de alegria" - pensou Lucas, quando a estrada começou a descer e a cidade surgiu, baixa e fumegante, espalhada por toda a linha do horizonte. Dentro do carro, e porque as janelas estavam abertas, o vento que entrava era um sopro incandescente e selvagem contra os rostos e os cabelos de todos os que viajavam: Lucas, homem de trinta anos de idade, magro, dentes arreganhados contra a luz e os ventos, de modo que o seu semblante era uma careta que parecia soma de espasmos musculares tidos durante algum pesadelo tão intenso quanto vago; uma mulher de esvoaçantes cabelos castanhos, óculos de lente escura, rosto ungido por fina e reluzente camada de suor, e um vestido que deixava à mostra os ombros claros, ossudos, e, ainda assim, sensuais na exata medida em que preservavam sinais de uma juventude para sempre ultrapassada; e, no banco de trás do veículo, adormecida, uma criança de seis ou sete meses de idade, cabelos de um castanho claro que, de tão finos, não eram mais do que uma penugem, e a pele lambuzada por branco e perfumado protetor solar.

Centenas de metro adiante, o sol se escondeu por trás das nuvens cor de chumbo e o que caiu, sobre a estrada, foi uma sombra também plúmbea, a qual tornava mais forte o cheiro dos canaviais queimados – um cheiro que, somado ao calor, transcendia o estado gasoso, dando origem a um mormaço tão úmido quanto 
sólido.

"Então é aqui?" – a voz da mulher soou como se fosse mais uma manifestação do vento e do calor, pois os sons sumiram logo a seguir, sem deixar eco, algo como o fantasmagórico ruído de uma peça de madeira estalando durante a noite.

"Sim, é aqui" – respondeu Lucas, que, talvez por descuido ou talvez por encantamento, permaneceu com a boca semi-aberta após a formular a resposta. Mais do que nunca, tinha os dentes arreganhados contra a luz e os ventos. Os olhos, em contrapartida, estavam cerrados como se ele quisesse fitar, na linha do horizonte, uma distância impossível de ser alcançada por olhos humanos. Pela primeira vez no dia havia doçura no cheiro dos canaviais incendiados – e este olor tão doce e enjoativo, à medida que se aproximava o crepúsculo, apenas aumentaria e depois, como se tivesse atingido o esgotamento, sumiria - deixando, na noite, o ardente perfume de mato, flores selvagens, animais despertos e ariscos. Enquanto tudo isso acontecia, dentro do carro, o cheiro mais forte passou a ser o de carne cansada, indefesa. Lucas olhou para o lado. Olhou para a esposa que, pela primeira vez durante a viagem, tirava os óculos de lente escura. Ela tinha o rosto ungido pelo suor e queimado pelo sol que, durante a tarde inteira, caíra sobre o carro. Apenas ao redor dos olhos a pele mantinha-se clara, de uma brancura que, Lucas sabia, simbolizava uma impossível pureza (e, no centro dessa impossível pureza, tremeluziam dois olhos claros e assustados). Lucas, enlevado, quis beijar a fronte da mulher: em vez disso, apenas sorriu, ou seja, tentou conferir alguma ternura aos seus dentes arreganhados.

"Sim, é aqui" – repetiu após rir mecanicamente, a voz quase inaudível. A seguir, olhou para a mulher e depois para a criança adormecida. Ficou melancólico, como se toda a alegria o lembrasse de algo que nunca deveria ser lembrado, algo que nunca deveria ser uma verdade.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

ainda antigas, antíquissimas garotas

CAROLINA

Acordamos e somos tão frágeis.
Partilhar o mesmo sono, a mesma manhã
é a intimidade mais plena que existe
entre um homem e uma mulher.
Mas não quero que veja o meu rosto, estou feia,
diz ela, e mergulha a face em meus ombros
até quase adormecermos de novo.
Não, você não está feia: o seu rosto ensonado
é como a manhã do mundo.
Ela ri e pela primeira vez permite
que eu veja seus olhos ainda vermelhos de sono.
Depois ri de novo, e tímida diz
agora vou quebrar o encanto
pois tenho fome.
Não, você não quebra o encanto. E saio
para comprar pão e leite na padaria
- isso basta, manteiga já temos -
e ao voltar ouço uma canção alegre
e sei que ela está no banho, onde se perfuma
e se prepara para a tarde de calor.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

ainda antigos poemas de garotas

GAROTA DO ESCRITÓRIO

Primeiro interessou-me o seu ar espiritual,
as suas idéias, a sua percepção do mundo.
Depois notei o perfume (doce e delicado)
as marcas de batom nos copos descartáveis
e os seios que eram como pêras maduras.
E foi num debate (ela sentada, eu de pé)
sobre a existência ou não existência de Deus
(ela citando o Evangelho, eu Mersault)
que o telefone tocou e para atendê-lo
ela revelou a espantosa delícia
que eram as suas coxas grossas e rijas.
Estremeci e concluí que Deus ou a alma
são coisas distantes e sem propósito.
Quero fodê-la, penso e afirmo
com toda a vulgaridade que permite a poesia.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

por causa do Ministério Público, voltando às garotas

SOZINHA NUM SALÃO DE BILHAR

Na tarde de domingo vejo uma garota.
É como se o seu rosto emergisse
de uma multidão de rostos opacos.
Luminosa face banhada pelo sol,
nudez de pescoço e de ombros descobertos,
vestido que desenha o perfil dos seios
e um aroma de mulher que se dilui
no cheiro de cigarro, no fumo que se ergue
e enrodilha-se nos cabelos negros
e turva a face iluminada
até surgir um semblante indecifrável.

sábado, 23 de janeiro de 2010

Poema

Em cidade estranha e mesquinha, ouço
duas melodias familiares: a primeira
é tangida por flautas andinas
e logo em seguida – enquanto na tarde
ainda se desfaz a canção doce e citadina –
reverbera o sino da catedral:
cada badalada soma-se ao eco da anterior
e a esse ecoar somam-se os olhos
que as fronteiras da cidade não venceram,
olhos que nunca foram além
do primeiro e materno exílio.

"Aqui não nasci, aqui não morrerei" – penso
mas o sentimento não é o de alívio
pois se aqui não nasci e aqui não morrerei
a terra que me tem como raiz
também não é altiva: também é uma cidade
estranha e mesquinha, uma cidade
com fronteiras como as dessa:
colunas de poeira colunas de fogo
paisagens de terra vermelha
mortos que cheiram a pólvora e a asfalto
sábados que cheiram a bocas carmesins
domingos que cheiram a cristo e a tédio
anos em estado de inércia, e a velhice
enquanto a perda de algo ínfimo –
algo como olhar para o céu de todas as noites
e não encontrar, no manto cravejado,
uma chama de secreto significado.

Então vem o sonho (e o sonho começa quando
ainda se possui o céu com todos os deuses)
com passados céus de maio e depois
com as árvores em queda e depois
com as esquinas em mudança e depois
com os corpos enquanto pedaço de luz
não retida, não preservada –
os corpos enquanto vida estiolada
a trespassar, a fugir do coração.

E, no entanto, é o desejo mais tolo que existe:
Não deixar a cidade primordial. Não
deixar este corpo estes olhos este rosto
com o qual desbravei a cidade.
Não perder o pulmão que respirou
as tardes secas como se estas fossem
as únicas tardes possíveis. Não
ter exilado de mim o coração
que ainda trago como quem carrega
uma chaga viva, levando-o
até além do crepúsculo – até a noite
atiçada por cheiros que são sementes
e o desejo (o qual cheira a terra e a carne)
é como relva oculta nas trevas:
Respira-se o orvalho. Respira-se os jasmins
que queimados pelo orvalho são chama branca
e doída. Respira-se o luar alto - o luar
envolto por um halo de amarela
sujeira e amarelas luzes citadinas: o luar
lento sobre os corpos cuja queda
é suspensa – um corpo de rapariga entre
o primeiro alvor e o amarelo sujo
caído do alto dos postes e do alto dos telhados
de uma cidade já esquecida.

domingo, 10 de janeiro de 2010

poema

HÁ MULHERES

Há mulheres que passam
e deixam pétalas sobre os caminhos
que trilhamos juntos.

São estas as mulheres que mais amo
e não vejo como seguir o meu destino
sem antes recolher e guardar
todas as pétalas que ficaram para trás.

Não é um trabalho fácil este;
antes é preciso aprender o desapego,
aprender a não mais querer possuir
aquilo que já nos não pertence.
Não há saudade que não seja fugidia,
não há navio que desapareça no horizonte
e não deixe um rastro de fumaça
que invariavelmente se dilui.

Mas ainda assim amo todas as pétalas
que recolho sobre os caminhos trilhados.
Talvez rosas dos jardins de Adônis
amo-as pois tiveram uma beleza fulgurante
e hoje são desejo sorvido pelo sol,
amo-as pois ao recolhê-las
despeço-me de olhos que já não existem.

"Vê esta rosa de pétalas vermelhas,
esta rosa de pétalas vermelhas é a tua infância.
Esta outra pétala, repara,
é o teu sorriso aos vinte anos.
Tanta coisa eu levo comigo, tanta coisa.
Mais do que teus segredos, levo teus sonhos
e também o que esqueceste de sonhar,
esta rosa de alma pálida,
este vermelho que não conheceu a primavera."

sábado, 2 de janeiro de 2010

O sol, após as chuvas noturnas,
lança um bafo úmido sobre as ruas:
o que se respira, machuca
e, no entanto, é como se a dor
não fosse humana, como se a dor
aqui estivesse antes das chuvas
noturnas, e antes do arrebol,
e antes dos crepúsculos de fogo
e antes da idéia de que existe
algo belo, algo bom, algo incandescente;
antes, enfim, da idéia de que esse lume
foi deixado em cada coração
e que em cada coração permanece:
chama sem nome e sem fim.

A aurora segue, e é como se fosse a aurora
do primeiro dia – brisa seca
sopra por entre os galhos, galos cantam,
e por um momento tudo o que se ouve
é a natureza crua e alheia:
tudo nasce, tudo morre e nada grita
mais alto do que o vento sobre as árvores.
Mas há homens aqui, e porque há homens aqui
o que se escuta vai além
do que nada significa. E o que se escuta
é aquela dor que não parece humana
mas que, todavia, tem voz humana
e imita anseios humanos: outro corpo,
luz mais duradoura, a certeza
de que algo existe: algo belo, algo bom,
enfim, algo incandescente – lume
que em cada coração permanece:
chama sem nome e sem fim.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

poema

QUASE POEMA NATALINO


A cidade, ontem cheia de gente,
está quieta agora – o céu é branco
e também parece entregue ao torpor
de quem muito comeu, sentiu, buscou
e agora encontra dor por existir.
Também são pesadas as horas – monstros
de bojudos estômagos, de passos
lentos, gordurosos, sem outro sentido
além o de caminhar com lerdeza
e peso, sem outro sentido além
o de caminhar para as muitas tardes
onde muito se come e onde muito
se busca: vindouras tardes de céu
branco; céu onde cristo jaz ausente;
céu em cujo coração (tão secreto
e rubro) perduram amor e medo.

domingo, 22 de novembro de 2009

poema

BREVE PENSAMENTO SOBRE ENVELHECER


Talvez a velhice seja a idade
na qual somem todos os privilégios.
A beleza ainda existe, mas agora
é chaga que se abre no coração –
e o sangue que sai, de um vemelho opaco,
é memória confusa e amedrontada
é o repetir de uma melodia
que a cada hora mais se torna estranha
(como se entoada num dialeto
agora alienígena, mas que antes
vibrou como língua por demais bárbara
ou por demais clara: o verbo antes
da sombra do inexpresso; o amor antes
do medo de nada valer; e a luz
antes de descobrir que é fecundada
por olhos mortais, por corpos exaustos,
por estrela antiga e já agonizante).

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

início de um conto

"É como retornar a uma corrompida idéia de alegria" - pensou Antoine, quando a estrada começou a descer e a cidade surgiu, baixa e fumegante, espalhada por toda a linha do horizonte. Acima do carro, o céu era de um azul mais do que esmaecido: era um azul ameaçado pelas nuvens que, de tão maciças, pareciam contrariar todas as leis naturais (as nuvens mais próximas eram ofuscantes como mármore refletindo o sol, e as mais longínquas assumiam uma tonalidade fosca, um matiz que lembrava enferrujadas carcaças de metal em pátios abandonados). Dentro do carro, e porque todas as janelas estavam abertas, o vento que entrava era um sopro incandescente e selvagem contra os rostos e os cabelos de todos os que viajavam: o já mencionado Antoine, homem de trinta anos de idade, magro, dentes arreganhados contra a luz e os ventos, de modo que o seu semblante era uma careta que parecia soma de espasmos musculares tidos durante algum pesadelo tão intenso quanto vago; uma mulher de esvoaçantes cabelos loiros, óculos de lente escura, rosto ungido por fina e reluzente camada de suor, e uma camiseta que deixava à mostra os ombros claros, ossudos, e, ainda assim, sensuais na exata medida em que preservavam sinais de uma juventude para sempre ultrapassada; e, no banco de trás do veículo, adormecida, uma criança de seis ou sete meses de idade, cabelos de um castanho claro que, de tão finos, não eram mais do que uma penugem, e a pele lambuzada por branco e perfumado protetor solar.

Algumas centenas de metro adiante o sol se escondeu por trás das nuvens cor de chumbo e o que caiu, sobre a estrada, foi uma sombra também plúmbea, a qual tornava mais forte o cheiro dos canaviais queimados – um cheiro que, somado ao calor, transcendia o seu estado gasoso, dando origem a um mormaço tão úmido quanto sólido.

"Então é aqui?" – a voz da mulher soou como se fosse mais uma manifestação do vento e do calor, pois os sons sumiram logo a seguir, sem deixar eco, algo como o fantasmagórico ruído de uma peça de madeira estalando durante a noite.

"Sim, é aqui" – respondeu Antoine, que, talvez por descuido ou talvez por encantamento, permaneceu com a boca semi-aberta após a formular a resposta: agora, mais do que nunca, tinha os dentes arreganhados contra a luz e os ventos; os olhos, em contrapartida, estavam cerrados como se ele quisesse fitar, na linha do horizonte, uma distância impossível de ser alcançada por olhos humanos. Pela primeira vez no dia, havia alguma doçura no cheiro dos canaviais queimados – e este olor tão doce e enjoativo, à medida que se aproximava o crepúsculo, apenas aumentaria e depois, como se tivesse atingido o esgotamento, sumiria; deixando, na noite, o ardente perfume de mato, flores selvagens, animais despertos e ariscos. Enquanto tudo isso acontecia, dentro do carro, o cheiro mais forte passou a ser o de carne cansada, indefesa. Antoine olhou para o lado. Olhou para a esposa que, pela primeira vez durante a viagem, tirava os óculos de lente escura. Ela tinha o rosto ungido pelo suor e queimado pelo sol que, durante a tarde inteira, caíra sobre o carro. Apenas ao redor dos olhos a pele mantinha-se clara, de uma brancura que, Antoine sabia, simbolizava uma impossível pureza (e, no centro dessa impossível pureza, tremeluziam dois olhos claros e assustados). Antoine, enlevado, quis beijar a fronte da mulher: em vez disse, apenas sorriu, ou seja, tentou conferir alguma ternura aos seus dentes arreganhados.

"Sim, é aqui" – repetiu após o sorriso, a voz quase inaudível. A seguir, olhou para a mulher e depois para a criança adormecida. "É a minha família", pensou, e lembrou-se de alegres tardes junto com os pais, alegres tardes vividas na cidade a que retornava. E lembrar dessa alegria o deixou melancólico, como se toda a alegria o lembrasse de algo que nunca deveria ser lembrado, algo que nunca deveria ser uma verdade.

sábado, 14 de novembro de 2009

poema

A noite antes do dia dos mortos
começa cruel: o ar é chicote
de silêncio, tédio, raiva, tristeza;
como se o que é vazio e ausente
elétrico se tornasse, e assim
impulsionasse as pessoas e os carros
em muitos passeios pela cidade –
corpos que se esgotam em catedrais,
ou em parcos banquetes, ou em buscas
pelo que também respira, e queima,
e pranteia, e perverte, e adora,
e delira ante a falhada pureza
que nos pântanos de outros corações
encontra, como se o estrelado céu
também conseguisse existir em tudo
o que o imita: luzes da cidade,
olhos enamorados, mar sem ondas
e em cujas águas adejam vestígios
de alegria náufraga e irreal.

A noite antes do dia dos mortos
magoa apenas os mortos futuros.
Os mortos em cujo sangue cintila
muito mais do que amor: medo, e muito
mais do que medo: urgência, pulsão,
o desejo de ter os pés na terra
e não cair: estar aqui, estar
entre o que imita a beleza, e o amor,
e a coragem, e o que parece eterno –
claro rosto de deus, rubra linhagem;
a carne que deixa de ser poeira
ao frutificar, ao tirar do sangue
outros mortos futuros, outros cérebros
rachados entre o ser mortal e o ser
imitação de um júbilo perene,
de um rosto bondoso e nunca encontrado,
de pai forte e filho mais forte ainda.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

mildred foi mesmo embora

ÚLTIMO POEMA PARA A TRISTEZA DE MILDRED

Como dizer que a sua tristeza
é o poema que desejo escrever?
Até sobre a sua alegria sei pouco.
Eu só a conheço debaixo do sol:
não sei se os seus olhos, castanhos,
continuam castanhos quando chove
ou se escurecem como os olhos
de uma mulher que amei certa vez.
Também nunca a vi dormindo;
não sei como a primeira luz da manhã
desliza sobre o seu rosto
e também não sei se essa mesma luz
faz o castanho dos seus olhos
brilhar como mel refletindo o sol.
Tampouco sei o gosto de seus beijos
e nunca ouvi as canções que você ouve
quando se descobre enamorada.
Conheço apenas o seu riso
e como o sol, no rigor do meio-dia,
enrodilha-se em seus cabelos ruivos.
Uma vez você disse estar triste
mas a tristeza me pareceu timidez
e tímido eu não soube ir além
de seus olhos, seu pudor, sua tristeza.
Tampouco sei o que é amar
durante o tênue mês de maio.
Foi em novembro que tive
aquela guria cujo azul dos olhos
se acizentava nas tardes de chuva.
Após ela pensei que você seria a mulher
que um homem tem após aprender
a amar e a perder o que ama.
Mas tão distantes nos mantivemos
e no entanto ainda há um resto de luz:
com essa luz invento a sua tristeza
(contempla a minha inútil ternura!)
e sob essa luz (luz que predece o inverno)
vou percebendo qual é a chaga de sentir
dentro do próprio peito um fruto
maduro e ainda não colhido.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

por onde anda mildred?

PRIMEIRO POEMA PARA O SORRISO DE MILDRED

Como dizer que amo
o sol que arde atrás do seu rosto?
Não a conheço. Nada sei
sobre a sua tristeza,
sobre o seu coração magoado,
sobre os mortos que enterrou
e os corpos que não pode mais amar.
Olho-a e sei apenas de mim:
amei e fui amado
por mulheres imensamente tristes;
eu as abracei e o que ofereci
foi a minha fraqueza.
Agora sei que sou apenas um homem
e se a vejo, sei que é apenas uma mulher
mas também sei do sol,
do seu modo de rir, da sua juventude,
das flores que gosta de colher
e que para o seu coração tão indefeso
amar um corpo ou amar uma alma
traz a mesma alegria.
Por isso a quero,
porque o seu rosto é o sol,
porque a sua alma é um véu de luz,
porque o seu corpo é uma orquídea que se abre
e depois adormece ao relento.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

poema

As manhãs de forte luz
não são para os corpos gastos;
os corpos batidos pelo
o que existe de mais ínfimo:
coração podre – um seixo
pela maré devolvido
ao areal, pedra inóspita,
pedra de nudez selvagem
como os olhos de uma fera.

As manhãs de forte luz
são alheias às vertigens
do real. Fumega o céu:
é um azul entre o plúmbeo
e o anil – azul erigido
sobre telhados vermelhos
sobre ventos de terra
sobre carne e olhos ardentes
e que ainda nesse dia
(ainda o azul, o ardor)
serão desejo e silêncio.

As manhãs de forte luz
são a morte do divino:
deus é uma palavra oca,
o amor é sono e febre
em corpos que se limitam
em beijos que se repetem
em corações que existem
apenas para o que não
existe – lume diáfano
e que, todavia, queima
como se fosse limpar
impuros corpos, impura
luz, impuro declinar
às horas mais viciosas.

As manhãs de forte luz
existem para o que irá
morrer e isso desconhece:
rosas com gosto de orvalho
carne com cheiro de infância.
O resto, em tais manhãs,
agoniza, ou boceja,
ou recebe com raivosa
tolerância as chagas
do inevitável exílio.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

nouvelle vague

Margot esteve muito triste nos últimos dias de agosto, mas em setembro veio o esplendor.

Não sei se (re) nasceu em nós a vagabundagem juvenil, não sei se foi o abandono que sempre surge no encalço da tristeza, ou se foi a ternura pelas coisas vivas. Perdemos muitas tardes perambulando pela cidade. Não tínhamos dinheiro, mas tínhamos um plano de vida comum: ela desenhara a planta do nosso futuro apartamento e íamos de comércio em comércio, conversávamos com os vendedores, pesquisávamos preços, escolhíamos móveis que nunca poderíamos comprar.

Mas isso não foi o principal daqueles dias. Sabíamos que em nosso apartamento haveria um coelho e naquela semana chegamos a visitar todas as lojas de animais da cidade. Os coelhos mais bonitos não estavam nas lojas chiques e perfumadas – os que mais nos agradavam eram os coelhos daquelas lojas de bairro, os quais ficavam apertados em gaiolas minúsculas e eram vendidos para abate.

Às vezes Margot julgava um coelho mais bonito do que os outros e, com desespero na voz, dizia:
“Mas as pessoas vão comer ele.”

Em outras ocasiões ela cismava que um dos coelhos estava fraco e alertava o vendedor:
"Aquele coelho não está conseguindo beber água.”

A nossa jornada terminou na loja de animais do Mercado Municipal, onde vimos o mais bonito dos coelhos: branco, pequeno, sem manchas no pêlo, e em cujos olhos vicejantes pulsava uma infinita vitalidade. Na gaiola ao lado havia cerca de vinte coelhos, e um deles, branco e cinza, também bonito, quase não se mexia. Margot chamou a vendedora: “Aquele coelho ali não se mexe.”

A vendedora observou por alguns segundos: “É que ele está morrendo."

Margot nada respondeu. Apenas observou a vendedora abrir a gaiola. Os outros coelhos, que começavam a fustigar o companheiro agonizante, afastaram-se. Rápida, a mulher o apanhou pelas orelhas – o que fez com ele soltasse um espasmo e depois silenciasse – e, corredores da loja adentro, sumiu com o animal morto.

domingo, 11 de outubro de 2009

duas anotações sobre o calor

1.

Lembro-me dos dias em que escrevia poemas e dos sábados em que descia às ruas do centro e gastava as as tardes jogando sinuca. Voltava para casa às sete ou oito horas da noite. Como era março - e como naquele ano o verão ficou marcado pela ausência de chuvas - eu caminhava sob um entardecer incendiado. No ar poeirento e com um cheiro de sol antigo e terra queimada, à medida que cruzava os quarteirões da cidade velha, um fedor de gordura podre ganhava o meu rosto. Passava muitas noites de sábado em casa e escrevia sobre isso: a agonia das samambaias no tempo seco. Às vezes ouvia Trio Los Panchos ou Leonard Cohen.

2.

Nunca soube o motivo do Senhor Hambúrguer ficar aberto durante a noite: havia poucos clientes e eles só atendiam a jovens sem dinheiro como eu e Cartago. Recordo que, em uma noite de sexta, eu e Cartago jantávamos antes de seguirmos para o cinema da Rua Etrusca. No Senhor Hambúrguer, todas as outras mesas estavam vazias e a luz que descia - uma claridade branca e onipresente, a qual não permitia que qualquer recanto do estabelecimento se ocultasse nas sombras - era, a um só tempo, doce e alheia.

Após o jantar, andamos os poucos quarteirões que separavam a lanchonete do cinema. No caminho, encontramos uma menina de olhos esverdeados (mas que, à luz crepuscular irradiada pelos postes, assumiam um brilho quase violeta), ombros magros, pele clara, cabelos ondulados. Ela riu para Cartago e conversamos por alguns minutos. Depois que ela foi embora, Cartago disse-me uma das frases que consagrou aquele verão às garotas perdidas:

Sabe esta menina? Fui apaixonado por ela há seis ou sete anos.

domingo, 4 de outubro de 2009

poema

A CHUVA

A chuva distorce o claro e o escuro,
e quase apaga rostos
do homem e da mulher que estão parados
na esquina, sob a marquise.

Talvez seja melhor assim;
pensar que os rostos ainda existem
porque a esquina ainda existe
e porque chove como antes.
Talvez seja melhor esquecer
que os rostos se desmancharam
como se fossem feitos de cera
ou de qualquer outra matéria pálida.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

poema

30

Tornei-me o recatado bluesman:
o homem que ainda busca Ítaca
mas não em águas fecundas para o heroísmo.
O homem que apenas busca Ítaca
na repetição dos gestos
na palidez dos afetos
no lento pisotear com que o tempo
transforma o rosto do meu pai
no rosto de um morto, e o meu rosto
no rosto de outro homem.
As tardes – aqui, no México, em vilarejos
onde os corpos terminam
como manchas de bolor em frias paredes –
as tardes são tudo o que um homem
pode ultrapassar. As tardes
são tudo o que açoita a carne.
As tardes são o estiolar do lume
que o coração em si próprio
acendeu. As tardes são
a sombra que escurece as águas
e mal se contempla
o que jaz submerso: peixes
que perdem o brilho, algas
e o amor como algo que não respira,
o amor como uma pedra nascida
azul ou vermelha, o amor como uma pedra
nascida para deixar de ser
azul ou vermelha.

domingo, 20 de setembro de 2009

aos vinte anos

20

Ando tão chocado, companheiro,
há qualquer coisa de errada com este início de milênio,
ainda não consegui os meus quinze segundos de fama
e pensar no que poderíamos ter alcançado.
O sacrifício de tantas crianças
só por anunciarmos publicamente a nossa morte.
Poderíamos ter sido maiores que os Beatles
e ao cairmos com tamanha intensidade
amparados por uma inocência qualquer
estaríamos imaginando um novo conceito de belo.
Há mesmo qualquer coisa errada
com este início de milênio;
não dependo mais de mim para morrer
e acho que vou ter de apodrecer por aí
(como um Prometeu incrédulo e maquiado)
em vésperas de me tornar um mito.
Lembro-me de quando você conheceu aquela garota,
Stéphanie, se não me falha a memória,
e de como ficava triste o seu dia
todas as vezes que ela lhe negava um sorriso.
Quando Stéphanie lhe disse que tinha medo de morrer
você finalmente terminou com a banda
para de uma vez por todas ir viver com ela.
É provável que ainda compartilhem
a mesma seringa suja.
Sei que a sua intenção era tornar-se um recatado bluesman,
mas quando ela fez de você um péssimo poeta
você não sabe como foi amargo
ver o meu reflexo dentro de suas pobres canções.
E agora, no final deste dia perfeito,
você só vai colher aquilo que semear –
talvez leve uma vida boa e quieta.
Eu vou fugir para o México,
satisfazer uma vaidade qualquer.
Despite all of this, I’m a modern lover.

20/09/1999