domingo, 27 de junho de 2010

Trecho

Cansado de tanto pensar, e do medo, e da máscara de mudez, e do exílio do amor físico, Peter recostou-se na espelho ao fundo do elevador e fechou os olhos. Segundos depois percebeu que seu corpo era interpelado pelo corpo de Mary. Não precisou abrir os olhos para saber que ela tentava se moldar a ele, também exausta. Estranho como a pele de Mary, ainda que através do grosso sobretudo, permanecia álgida. E Mary, com o rosto colado ao do amante, indagava-se se realmente seria triste não estar mais ali. Em geral, a resposta que tinha era a de que seria triste estar em qualquer lugar. Noutras vezes a consciência da dúvida permitia que Mary fosse ceifada por uma tristeza oriunda de uma mistura da ternura e culpa - tudo unido, tudo compondo um único réquiem, tudo exercendo um estranho papel coadjuvante; como se o que movesse a existência ultrapassasse qualquer sentimento nominável. Algo como a rotação da Terra, cabendo aos sentimentos o papel dos pequenos corpos presos a esse girar em torno de si próprio (satélites, pedras alienígenas, poeira de estrelas - pequenas existências incapazes de se incendiar na atmosfera e incapazes de escapar da força que as mantém ao redor de um corpo maior, perdendo-se na fria e esvaziada liberdade que nada significa).

conto completo  aqui

terça-feira, 11 de maio de 2010

Duas Novas Garotas

JULIA


Das meninas que vejo, Julia é a mais alegre
porque Julia é a mais jovem entre todas –
e se há algo que adoro, é essa frágil crença
que atribui a mais impoluta luz
àquilo que é mais tenro. Assim
- como se fosse nascida estrela de maio -
vejo Julia a rir, vejo o rosto de Julia
ser corado por mais do que sangue (lume
feito de amores tão primordiais quanto falsos)
e vejo a sagração do que floresce
para a colheita: seios ainda pálidos
e febris, raízes que vão do coração
às menores palpitações do gozo.
Pois Julia, irascível retorno da beleza,
é a promessa de que alguma ordem
pode ser extraída das tardes de esplendor
e mesquinhez – Julia, enfim,
é como o claro dia em que
homem como eu não pode mais ingressar.


TAUANA

Há quem ingresse no tribunal
sem nunca lamentar as tardes perdidas.
Espero que Tauana – a terceira
entre as meninas do Ministério Público –
escape dessa sina.
Sobre ela sei tão pouco. Até os risos
que me dirige soam exilados do que existe
no rosto ainda lacerado pela puberdade.
Sei apenas, ou melhor, apenas adivinho
que o seu corpo, quando tomado,
é túrgido rubro e rígido
como as prematuras ameixas de novembro;
uma dessas frutas cujo primeiro sumo
é de uma acidez além do suportável
e a cujo esgotamento, de tão inconsolável,
um homem reage com ternura
quando deveria ser violento, e com violência
quando deveria ser apenas terno.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Soneto 3

MUSAS ALHEIAS (SONETO 3)


Rebel rebel, you've torn your dress
Rebel rebel, your face is a mess
Rebel rebel, how could they know?
Hot tramp, I love you so!
David Bowie, "Rebel Rebel"


Não creias, Lídia, que o teu corpo é dádiva
que incólume se goza – assim fosse,
triste animal não seríamos: há
o sol e o fado, e da morte a foice


não é o que os une: mas as diáfanas
horas mudadas em fuga, e flores
transformadas em areia, e mágoa
tornada legado vil, nada doce.


Não, não creias que o teu corpo é vitória.
É boca ácida a tua, embora terno
o abraço: chaga aberta, sem memória


de que a mudez é sina de todo afeto
de que cada dia é dissoluta hóstia
de que há um único verão e inverno.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Soneto 2

Um corpo caído é o grande exílio
do que ainda viceja. Cinzas, terra –
em tons rubros, a tarde cai e apela
ao que nunca houve, ao mais elíseos


bosques fecundados por olhos vítreos,
à inocência da nódoa na lapela
do traje com o qual o homem ingressa
à hora da qual não sairá: períneo


roído entre vestes roídas, órbitas
vazadas sob um céu vazado, jasmim
como alento último de canções mortas,


e a boca imóvel, pálido carmim,
nada pede, ou chora, ou exorta.
O que está caído alcançou o fim.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Soneto 1


À César o que é seu, e à menina
o que lhe é cativo: luz gentil
e murmúrios – uma ode pueril
para que lhe seja alheia toda a sina;

fado que ainda em céus de cartolina
se desenha: cruel, inverossímil
pois desgarrado do céu mais anil:
as paixões e as horas são assassinas.

Mas o fado de um, é o fado do outro
e também à César é essencial
tênues cantigas, e em cálice de ouro

beber o néctar da luz outonal,
ir ao léu, e a companhia de um tolo
é a que mais se lhe afigura ideal.

domingo, 14 de março de 2010

Poema

A CATEDRAL


“Amo a igreja – as imagens de seus querubins, seus
candelabros, suas alfaias de prata, seus
ícones, luminárias, púlpito, amo-os eu.”
Konstantinos Kaváfis

A catedral está fechada, mas olho-a.
Vejo-a como quem vê um mausoléu,
o gelado mármore que sepulta
os demônios de minha mãe.
E assim, soberba e fúnebre, a catedral
fere o coração da cidade.
Todavia acredito piamente
que a catedral seja um refúgio para o homem
e um sepulcro para os seus demônios.
Acredito tão piamente que desejo invadir esta casa
e orar e ajoelhar-me perante um deus
encoberto pelo frenesi dos dias.
Acredito e de súbito vejo os olhos de pietá
a dizer que todos os refúgios são efêmeros.

domingo, 7 de março de 2010

não é uma pena?

UMA MENINA NO FÓRUM E OUTRA MENINA NA RUA




É uma aldeia ínfima
e, todavia, a lei deve alcançar
o que é ínfimo assim:
as casas baixas, os rostos derruídos
por algo mais cruel do que o tempo
e mais cruel do que todas as quedas –
pois queda não há. Não aqui
onde o ar é transparência carmesim
onde o dia é a inútil permanência
da luz.


Aqui, beleza não foi criada
por homens ou pelo acaso: não há catedrais
e o arrebol de franjas róseas.
Não há a pujança dos trigais
após a terra cheirar a queimado.
Não há cerejeiras prestes
a serem cantadas e prestes
a serem vendidas.


Aqui, também o tribunal
é uma casa ínfima:
não há colunas de mármore
ou a deusa de olhos vazados
ou o latim gravado
nos portões de entrada –
"Deixai aqui, ó viajante,
toda a esperança".


O que existe, na aldeia,
são corações estragados
como pianos deixados ao sol
e às chuvas. Há tardes em que o vento
- sobretudo no falso limiar
do outono que nunca chega –
sopra sobre as teclas
e alguma melodia reverbera
e é como se fosse possível
o arrebol de franjas róseas
o louro ondular dos trigais
a doçura derradeira e inútil
de cerejas cantadas e depois vendidas
ou vendidas e depois cantadas.


Mas o vento cessa. O sol encrespa-se
e a beleza auguriada
não foi mais do que augúrio.
Não foi mais do que a vã
força de um dia que se verga:


Pelos corredores do fórum, uma menina
sente sumir o orvalho de seus olhos
e o seu corpo é cansaço e vontade.
Pelas esbraseadas ruas, uma menina
cheira a sol e cabelos crestados
e o seu corpo é pisoteado pelas cabras
até se tornar inútil para a colheita.