sábado, 8 de janeiro de 2011

Poema

Uma cidade santa é
uma cidade perdida.
O judeu chorou Sião
por estar na Babilônia
e por manar as lágrimas
que a areia frutificavam.


Quanto a mim, sou o arroio
que ao nascedouro retorna –
o que a água devolve é
o que foi adulterado.
As horas são como seixos
roídos até a nudez.


Aqui, os dias são como
antes: céu esvaziado.
No entanto, sob o vazio,
as crianças nascem, brincam
e os olhos do minotauro
não lhes parece perverso.


Aqui, a imagem do dia
é lavada até ser
como a estátua que todos
olham sem saber quem é:
eis o grandioso Apolo,
eis a sua fronte enegrecida.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Trecho (Zanzi Bar)

Eu nunca bebi um bom drink no Zanzi Bar, que também não é um lugar de boas mulheres. Ainda assim, a cada três ou quatro meses, eu e todos os integrantes de nosso pequeno grupo para lá retornamos com os corações renovados por generosas expecativas. O motivo de tantos retornos é simples, melancólico: não é fácil viver por essas plagas e não é todo mês que é possível dirigir por quatro horas até a capital. Nessas ocasiões hospedamo-nos na casa de Illinois, que, embora viva distante desde o início da vida adulta, também nasceu no nosso pequeno vilarejo. De todo modo, seja na metrópole ou nos pântanos que nos serviram de cenário para a infância, o objetivo é gastar algumas noites de sábado entre luzes faiscantes, bebidas preparadas com esmero e raparigas que sabem se maquiar. Sursum corda!, eu também poderia gritar sobre o que nos tirava da inércia, sem estar errado.


continua aqui

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Paizinho, Paizinho (trecho)

Ainda espero por Vladimir, disse o velho e então voltou os olhos na direção do portão aberto para a pequena rua tranversal à entrada da igreja. Uma rua tão quieta que não existia, ali, uma natural fluidez regendo a alternância entre silêncio e barulho. Era como habitar um planeta vazio até que algo rachasse, quebrando a espinha dorsal de uma gigantesca mudez, e, ainda assim, este rumor clandestino nunca era distinguido com clareza: um murmúrio que bem poderia ser o vento sobre as árvores podia se revelar como o ecoar de passos sobre a rua seca. Nessa vertigem as tardes declinavam até que um novo ponto de inércia fosse alcançado: a fraturada abóbada de silêncio deixava passar um único sussurro tão logo a luz começava a esmorecer. Era o invisível e fantasmagórico farfalhar das asas dos pardais que, organizados em grupos, invadiam as copas das árvores que ocupam a praça defronte à igreja.


continua aqui

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Holiday Blues (trecho)

A manutenção da felicidade: esta era uma das maiores preocupações de Anthony nas semanas que precederam o casamento, talvez porque houvesse a suspeita de que, em algum momento, a vida perderia mais do que o seu centro – perderia a dádiva de se ligar ao centro de outras existências, que era a única forma de alegria e comunhão que lhe pareciam possíveis. E essa possibilidade de conexão com outros centros era muitas vezes comparada por Anthony com o que os cientistas convencionaram chamar de matéria escura, ou seja, algo como uma cola primordial, cujo único efeito conhecido é manter a coesão entre os bilhões de aglomerados de galáxias existentes. No entanto também é especulado pelos cientistas, e também isso era do conhecimento de Anthony, que, em oposição à matéria escura, há no universo uma outra força ainda mais inexplicável, e inexplicável porque atua em completa oposição à matéria escura. A combinação entre esses dois fenômenos pode ser explicado com a imagem de um cabo de força tão antigo quanto derradeiro, e o mais desolador, ainda especulam os cientistas, é que ao final as forças desagregadoras irão prevalecer. Soltos no espaço, os aglomerados de galáxias se afastarão para as longínquas periferias do cosmo, a príncio dispersas uma das outras, depois se dispersando em si mesmas, até que o espaço não seja mais do que uma última onda de poeira cósmica lançada para fora enquanto no centro vige um negror absoluto.

continua aqui

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Um Homem Deseja Ir, Um Homem Deseja Voltar

Tantas vezes coube o céu em meus olhos
que o próprio céu se mudou em raiz
saída da fundura mais doída.
Entrava nova estação e eu sabia
que luar a cingiria e qual fogaréu
traria as cinzas do dia futuro.
Era belo, mas também magoava
e deste encanto onde cantos eu
buscava vinham a idéia de que Ítaca
era minha e era o que me bastava.
Em Ítaca, mar e céu são inteiros.


Mas Ítaca não existe se não
existe casa para trás deixada.
Preciso é que a distância se desdobre
não em algo maior ou nunca visto
mas em algo que o sangue não conheça
como seu, ainda que imagens gêmeas
sejam dos muitos dias repetidos.
Eis o luar, e o lusco fusco,
e a luz embebida em luz, fogo leve,
não diferente da brandura de abril
embora lá fosse a agonia de setembro.


Um mundo multiplicado em espelhos
é imenso ou é repetição?
Longe, encontrei beleza daqui
diversa, mas o que me aturdiu
é que o pólen de todo o coração
é soprado por um único deus
ou é vestígio de única ruína.
Longe, outras ítacas encontrei
e quanto mais eu as tornava minhas
mais a casa deixada para trás
era dor que ia do branco ao vermelho.

domingo, 17 de outubro de 2010

Sobre o Verão

O céu é uma sombra baixa.
Uma sombra cuja impureza
é egressa da primavera
e da fecunda poeira
que em rubros espirais
subiu em busca do sol.


Mais véu do que nuvem
nenhum fogo o varreu
até que o vermelho
viu o redobrar da luz
e a chegada de dia longo:
vulto pesado, esmaecido
e um coração escuro
trespassado pelo que restou
das colheitas e dos festivais.


Mais do que açoite, a calidez
que à noite assoma
é o tremor de uma corda
até o limite tensionada
e não há consciência
que não perceba esse tremor
como uma voz interna e voraz.


O dia e a noite serão tristes
se não houver mar ou açude
para que o corpo afunde
e o dia e a noite serão tristes
se a doçura de nenhum fruto
não manchar o crepúsculo
e se a acidez de nenhuma vontade
não se abrir ao luar
e não for bebida por bocas
presas ao travo da juventude.
Apodreceremos juntos: eu, você,
o coração, a carne,
o vigor do abraço que do seu corpo
nunca obteve o molde.

domingo, 10 de outubro de 2010

Trecho



A terra de um homem é onde os seus pés pisam, eis uma frase bastante dita por Gregor Duduch, velho exilado das brumas irrecuperáveis de um mundo que, após convulsionar de ódio e miséria por duas vezes no espaço de duas décadas, terminara os seus dias como plantador de café nas áridas planuras do nordeste paulista. Ele dizia a frase com um tremor na voz. Como se as palavras estivessem cravadas em seu coração e de lá não pudessem ser extraídas sem uma dor que ultrapassasse os limites desse próprio coração, e, ainda depois de proferidas, o que permanecia em Gregor era um vazio de margens trêmulas, que pouco a pouco – como uma maré que desce – perdiam fundura e alcance, até a própria certeza de espírito árido se esvair em si própria. A frase era obviamente uma mentira, mas Gregor a proferiu tantas vezes que esta farsa tornou-se o maior tema de seu envelhecimento; tema este que alcançou a sua variação mais desesperada quando Gregor Duduch, agora um corpo quebrado pelo câncer, o azul dos olhos recoberto pela opaca membrana da morte próxima, disse a terra de um homem é a terra onde o seu espírito foi esquecido. As palavras foram ditas a Luís Fonseca, o seu genro, mas não se tornaram célebres como a sentença banal e mentirosa que se pespegou a Gregor com a natureza simbólica de um epitáfio.

.... continua aqui