sexta-feira, 11 de março de 2011

Sentimento

No breu que recrudesce
há jardins em ruínas,
negros entre os arvoredos
e um apetite canino.


Do prédio que se fecha
saem rostos pisados
por verbos repetidos:
acordar, caminhar.


Tenho lama nas barras
da calça e um vapor
de tabaco soma-se
à treva gotejante.


O néon é luar
vermelho, liquefeito,
disperso na sarjeta
como raiz convulsa


na quadra fértil do ano –
raso sopro que o tempo
tem para germinar
os cabelos dos mortos.


Chove e o mais doído
é o fim do aguaceiro:
sujo bafio dos becos
quando finda o dilúvio.


A umidade que resta
(e que ainda goteja)
é a água estragada
e os seus podres perfumes:


casas esboroadas,
resto azedo do almoço,
grosso fedor dos cães
que no quintal secaram.


Um quarto é uma fuga
mas nenhuma fuga é
coração estanque,
sem sangue nas paredes.

terça-feira, 1 de março de 2011

Juventude II (Canção)

Porque o coração
dói como animal
que pouco se move.


Cresce em sua sombra
escuro murmúrio
e musgo que abril


apenas germina
em manhãs esparsas,
ocas como a brisa


em dias sem mortes
que o ocaso margeiam.
Vênus é fagulha


da fundura vinda
do corpo exaltado
e quente. Beleza


imorredoura é
igual à vindoura
em cada regresso


e o que um dia cai
cai todos os dias.
Conheço este céu,


sei a cor dos teus
olhos e recolho
o que fica à margem


do tempo: cordões
do cabelo que
jovem tu me deste.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Juventude (Canção)

Pode ser doçura
ou medo a infância.
Sei apenas que é
um encanto cego.


Dos olhos, o abrir
é maçã nascida
em noite sem dia
que seja farol.


Arrebol que rompe
vem muito depois.
O que era maçã
tornou-se coração


que o orvalho feria
e que o sol retalha.
Um dia claro é
o mais longo dia.


Diante dos olhos,
o céu, o subúrbio,
o sábado inútil,
a queda dos velhos.


Afiando os dentes,
o luar que aponta
e é mais que luar:
primeira nudez


que não se possui,
que respira longe,
que a insônia queima,
que afoga a cidade.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Terra Plana Como Um Lago

Sei de uma terra plana, que afunda nas horas
como se ao fundo de um lago estivesse –
não rio, não regato, nada que indique fuga
ou fluxo e nada que receba os despojos
tidos ou perdidos em outras vazantes.


Apenas um lago: as águas claras durante
os movimentos cristalinos do dia
e nunca pura sombra porque são águas
rasas e, ainda durante a noite,
o luar filtrado tremula como um peixe
que a luz trespassa e assim intangível
tangencia o negro silêncio.


Sei de uma terra como um lago e de uma aldeia
submersa e que essa aldeia
não é cruzada por qualquer rio.
O céu é uma transparência gasosa que,
entre essências de grama selvagem,
bananeiras e samambaias, traz antes
o cheiro da noite e depois os astros.


Os rios e mares que existem (se é que
existem) são apenas memórias
sem sangue e sem ossadas:
o oceano descoberto durante a infância,
o sujo tietê que nunca significou exílio,
vltava e sena vistos durante o outono
(vltava enquanto o sepulcro de um fantasma
sem rosto que ali morreu afogado
e que, com a sua voz de seixo roído,
uiva para os homens e para as estátuas
da ponte Carlos e uma chaga
nasce em cada coração;
sena tido entre goles de cerveja
e que, margens ondulantes e agudas,
serpenteia sob a luz e sob a febre
como imorredouro corpo de fêmea).


Rios perdidos ao cruzarem
planícies onde não fica a minha casa
pois estar em casa é algo que dói
dia após dia sem nunca deixar
de significar alegria. Rasas piscinas
e rasos lagos ao pé de árvores tísicas:
lembro-me de como a morte da avó
feriu os vossos flancos e lembro-me
de como o amor, sarça ardente em noite de abril,
chamou morcegos, vaga-lumes, estrelas
e era como se uma nascente houvesse
para que o luto e o esplendor vazassem.

domingo, 16 de janeiro de 2011

Trecho (Are You Lonesome Tonight?)

Ao primeiro gole, senti uma náusea de intensidade incomum para quem iniciava a noite. Era a primeira vez que bebia absinto. Por um instante fiquei sem saber se considerava a bebida doce ou amarga, dúvida que se fortaleceu à medida que o gosto alcóolico do absinto se pegava à minha língua. A única imagem que se formava em meus pensamentos, reforçando o nojo, era o de água guardada em tóneis de madeira apodrecida.

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sábado, 8 de janeiro de 2011

Poema

Uma cidade santa é
uma cidade perdida.
O judeu chorou Sião
por estar na Babilônia
e por manar as lágrimas
que a areia frutificavam.


Quanto a mim, sou o arroio
que ao nascedouro retorna –
o que a água devolve é
o que foi adulterado.
As horas são como seixos
roídos até a nudez.


Aqui, os dias são como
antes: céu esvaziado.
No entanto, sob o vazio,
as crianças nascem, brincam
e os olhos do minotauro
não lhes parece perverso.


Aqui, a imagem do dia
é lavada até ser
como a estátua que todos
olham sem saber quem é:
eis o grandioso Apolo,
eis a sua fronte enegrecida.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Trecho (Zanzi Bar)

Eu nunca bebi um bom drink no Zanzi Bar, que também não é um lugar de boas mulheres. Ainda assim, a cada três ou quatro meses, eu e todos os integrantes de nosso pequeno grupo para lá retornamos com os corações renovados por generosas expecativas. O motivo de tantos retornos é simples, melancólico: não é fácil viver por essas plagas e não é todo mês que é possível dirigir por quatro horas até a capital. Nessas ocasiões hospedamo-nos na casa de Illinois, que, embora viva distante desde o início da vida adulta, também nasceu no nosso pequeno vilarejo. De todo modo, seja na metrópole ou nos pântanos que nos serviram de cenário para a infância, o objetivo é gastar algumas noites de sábado entre luzes faiscantes, bebidas preparadas com esmero e raparigas que sabem se maquiar. Sursum corda!, eu também poderia gritar sobre o que nos tirava da inércia, sem estar errado.


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