sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Cadernos de Viagem: Tudo Continua

Não pertenço a estas planícies
ou pântanos, ou montanhas
de uma terra que para mim
é o norte não apenas físico
mas também o norte de um espírito
que eu quis tornar meu: uma carícia
tida em sonho e que ainda continua
pois tudo continua. Os fantasmas continuam
ainda que ninguém evoque os seus nomes
e também os sonhos continuam
ainda quando evaporados e ainda
quando o ar da tarde parece certo
e sem dores e assim sem dores
o amor continua
ainda quando apenas um solitário riacho
flui por um coração que apenas se desbrava
durante aventuras em novos e estranhos mares;
novos e estranhos e perdidos mares que continuam
qual o passado continua
e com o passado todas as sombras continuam;
todas as sombras que avançam,
todas as sombras que se tornam transparência
de pálido júbilo ou pálida morte - vazio
róseo ou dourado ou carmesim
que escava o céu naquela hora
em que nada existe para que tudo exista.


                                                                   escrito em Dallas, quarto de hotel.

domingo, 24 de julho de 2011

Julho

No céu, nenhuma sombra. É o sol
que volta a ser maciço.
Cintila e fere os olhos, embotando-os
e embotando a imagem
que para si cada homem construiu.


As árvores já mortas
e ipês de cores já plenas pontuam
uma única avenida.
Ainda se evapora o último orvalho
e o calor é silêncio.


Trabalho que não cessa, caminhões
que toldam o ar de negro,
o almoço gorduroso feito às pressas
e pesado o torpor.
Não há corpo que não queira dormir.


Raivosa e crua luz meridiana
e o seu coração sujo.
O céu é torvelinho. Lancina a tarde.
Um vento carmesim
torna ásperos suor e epiderme.


Se os dias são poemas
são poemas que integram alfarrábios
que toda a gente leu
sem saber que leu – elegia vinda
dos pianos da infância.


E se os dias são poemas, os versos
ardem como esta luz
trêmula e sôfrega que corta o ar
e que ateia fogo às asas dos pássaros.
Cinzas que toda a gente
respira como se não respirasse.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Insônia

Deixa o frio de ser branco
quando venta e é noite:
rumor de samambaias.


Mais longe, o luar
e o seu véu cristalino
no céu adormecido.


Sou um homem doente
e tenho olhos que doem:
tudo perde a irmandade.


Um corpo não é rio.
A morte não é mar.
Na aurora, um insone


não distingue a penumbra
das mãos a clarear.
Aurora naufragada


e seus bichos sonâmbulos:
meu sangue que goteja
até que haja manhã.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Domingo, a partir de Fernando Pessoa

Ninguém conhece que alma tem,
mas a alma aparece e dói
como algo que desperta e cai
em sua álgida nudez.
Os céus opacos então ferem
por serem opacos, e as noites
então vazias escavam
abismos por serem vazias.
Há dias de brumas e mágoas
e todas as mágoas se emanam
da dor deixada aos nevoeiros
ainda antes dos nevoeiros.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Maio Que Termina (Canção)

Eis aqui uma elegia:
é maio que termina
qual a magra menina
que ardia e caía.


Na noite que cicia,
estrela cristalina:
terá a magra menina
um peito que agonia?


Se o agora é cinza fria
é que a magra menina
findou a sua sina:
arder mais do que o dia.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Para A Menina Que Mentiu o Seu Nome e Disse se Chamar Francisca

     Francisca, me dá a tua boca e o teu ventre.
     Francisca, me dá a tua madrugada de raízes túrgidas.
     Francisca, me dá um céu matinal e os teus cabelos na penumbra azul.
     Francisca tão igual a do poema de Manuel Bandeira que a ele direi: "Que bonita era Francisca.  Tão bonita que, ainda quando nada me dava, eu nunca deixava de dizer: "Que bonita era Francisca! Que bonito era o nome de Francisca!".

     A Francisca tanto eu pedi
     apenas por se chamar Francisca.
     Mas a ti, menina, a ti eu pedi tão pouco
     e tão pouco pedi apenas para dizer ao amigo morto:
     "Eu vi Francisca indo embora.
     Eu vi as auroras solitárias e com chuvas que principiaram bonitas."

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Para Thaís Emília, Que Ama as Mexericas

                                  Na aurora faz frio
                                                                                                e o abraço de um corpo seria uma vida.
                                                                                                        Cesare Pavese, "O Jantar Triste"


Será um esplendor a aurora
em que Thaís Emília voltar a queimar.
O céu ainda estará gelado. As estrelas
sumindo no arrebol serão cristais de neve
desmanchando-se sobre a cidade
em brisas de neblina e orvalho.
E Thaís Emília, quando o seu corpo
for colhido pelo outro corpo contido
nessa fria aurora, lembrar-se-á
das mexericas que tanto ama
e que tanto a intrigam. Lembrar-se-á
da improvável, da cítrica doçura
propícia ao calor, mas que longe do calor
amadurece – o que é uma alegria
e um mistério; a hora branca
manchada por aromas que da terra
ascendem, que na terra fermentam,
que na terra bebem o sol
mais distante, mais ínfimo.
Será um esplendor a aurora
que desvelar o corpo de Thaís Emília.
A boca e o sexo como nascentes
vermelhas e os seios róseos iguais
às tangerinas do frio, às tangerinas
de cítrica doçura, às tangerinas
cujo sabor e exaltação pedem
o sol e a sua língua de fogo.