Acordamos e o que existe de opaco, no sono,
perdura ao primeiro instante:
o eco da chuva vinda na madrugada,
o último respiro do orvalho,
e o bafio seco, o ar exaurido, a crua luz
do começo do sol. A crua luz e o alvorecer
semelhante à neve suja.
Acordamos e o que existe de cambiante, na alma,
perdura aos primeiros movimento do esqueleto:
levantar-se, não encontrar
o corpo amado junto ao seu
ou encontrá-lo e dele se apartar
após uma carícia sonolenta que é
como ter as asas arrancadas após o vôo;
levantar-se, lavar-se,
promover o encontro da pele ferida
com o vento tornado áspero,
com o branco céu que recrudesce.
A cidade é um galpão de tetos baixos.
A cidade é um galpão de luzes débeis
a apontar os caminhos.
O fumo dos cigarros. O fumo dos motores.
Tentar voltar a dormir durante a viagem de ônibus
e contemplar a paisagem entre lapsos
de consciência:
o rio é mais lama do que água,
o rio é mais lixo do que lama,
e, no entanto, o rio
é para onde fogem os animais mutilados
e os velhos que dormem entre cinzas frias.
A cidade é um galpão de paredes de vidro
e a luz, a crua luz puída
fere os olhos ao atravessar o vidro,
fere os olhos e rebrilha - amarela e quente -
quando o céu deixa de ser branco.
Na fronteira última da cidade e mais além
estão os ipês. Nunca passei por esta estrada
e não vi ao menos uma árvore coroada de flores
em lancinante esplendor.
Como se um deus que não pode ser visto
(pois não há deus que possa ser visto)
fosse ferido, no coração, pela ponta de uma lança
e não mais deixasse de sangrar.
Ainda quando o dia é estio, ainda
quando o céu é duro mármore abrasado,
o sangue parece germinar ipês nas árvores,
o dia ganha uma cor que assombra
e a agonia, a perpétua perpétua agonia deste deus
que não pode ser visto e não morre
é a única explicação para os ipês resistirem.
A única explicação para alcançarem fevereiro
quando o calor já calcinou todas as raízes
e quando a repetição dos dias volta a machucar.
Mais uma vez estarei entre assassinos
e o meu coração não saberá o que sentir.
Mais uma vez conversarei com homens
que morrerão no curso do ano.
Na fronteira última da cidade e mais além
estão os ipês e então me pergunto
se o amor, com a sua natureza bravia,
terá igual permanência.
domingo, 12 de fevereiro de 2012
domingo, 5 de fevereiro de 2012
Planície dos Pessegueiros
Uma vez estive numa planície com pessegueiros
a perder de vista. Tarde de um domingo eterno
e o calor pousando suave - luz trançada à brisa -
sobre a paisagem que respirava em tons de vermelho
e amarelo e da terra subia uma doçura
ondulante. Uma doçura que se pegava à tua pele, Lídia,
e aos teus cabelos e tinha o ardente e calmo
sabor de pêssegos maduros sob o sol.
Uma vez estive numa planície com pessegueiros
a perder de vista, Lídia, e o teu corpo eu vi
- o teu rosto adormecido, Lídia! - na tarde
de luz branda. O rumor da brisa sobre as árvores
abria túneis de silêncio e o silêncio
- este silêncio cálido e diáfano -
beijava o teu rosto, beijava o teu corpo
e eu sabia que a minha riqueza era maior
do que estar ali, na planície dos pessegueiros.
Do teu peito enlanguescido, do teu rosto
incendiado por sangue jovem, do teu colo
que se expandia quando se expandia
a vida em ti - de tudo isto
também subia um clamor ondulante.
Um clamor que se pegava à minha pele
e aos meus cabelos e tinha o sabor
do que eu bebera em ti - teu orvalho agreste
que em mim ficou, minha Ana, minha alegre Lídia,
enquanto longe de nós, longe
de nosso coração intacto, ficou a planície
dos pessegueiros, eterno domingo de luz
que de súbito alcançou o outono
e cada fruto caído, cada fruto deixado por nós
(longe de nós, menina, longe de nós)
passou a ter o nome de um dia que se foi.
a perder de vista. Tarde de um domingo eterno
e o calor pousando suave - luz trançada à brisa -
sobre a paisagem que respirava em tons de vermelho
e amarelo e da terra subia uma doçura
ondulante. Uma doçura que se pegava à tua pele, Lídia,
e aos teus cabelos e tinha o ardente e calmo
sabor de pêssegos maduros sob o sol.
Uma vez estive numa planície com pessegueiros
a perder de vista, Lídia, e o teu corpo eu vi
- o teu rosto adormecido, Lídia! - na tarde
de luz branda. O rumor da brisa sobre as árvores
abria túneis de silêncio e o silêncio
- este silêncio cálido e diáfano -
beijava o teu rosto, beijava o teu corpo
e eu sabia que a minha riqueza era maior
do que estar ali, na planície dos pessegueiros.
Do teu peito enlanguescido, do teu rosto
incendiado por sangue jovem, do teu colo
que se expandia quando se expandia
a vida em ti - de tudo isto
também subia um clamor ondulante.
Um clamor que se pegava à minha pele
e aos meus cabelos e tinha o sabor
do que eu bebera em ti - teu orvalho agreste
que em mim ficou, minha Ana, minha alegre Lídia,
enquanto longe de nós, longe
de nosso coração intacto, ficou a planície
dos pessegueiros, eterno domingo de luz
que de súbito alcançou o outono
e cada fruto caído, cada fruto deixado por nós
(longe de nós, menina, longe de nós)
passou a ter o nome de um dia que se foi.
domingo, 29 de janeiro de 2012
Segunda Garapa Com Manuel Bandeira
Ainda me lembro da última garapa ao seu lado.
Entre todos os meus amigos, era o único morto
e o que mais vinha até mim, o que mais vinha
quando a tarde abria o peito
e trazia uma dor que não era apenas dor:
era um espasmo de ternura, uma vertigem amorosa
pelo que vem e pelo que passa, uma ânsia de reter
neste peito doído o longo vôo das andorinhas
e eu aqui, como um dia você aqui esteve,
eu aqui à toa e cantando a tarde
(a tarde que fere, a tarde com um cheiro
de terra e cheiro de flores e cheiro de morte
mas não cheiro de mortos, que os vivos
que aqui estão ainda caminham solenes);
eu aqui à toa, o peito aberto, ao lado
do meu único amigo morto e lavrando cada palavra
sua como se fosse minha e assim passei
a nomear todo pássaro de andorinha
e a nomear a tarde de tardinha. Tardinha funda
e doída e nós aqui à toa, bebendo a primeira garapa,
e olhando para as mulheres de pele cheirosa
e dizendo Lá vão as mulheres de Araxá. Lá vão,
e assim a noite veio e assim
você se diluiu. Deixou-me com a noite
cada vez mais próxima. A noite que abria
as suas asas em meu coração
e eu ainda à toa, ainda sozinho, ainda
enrodilhado ao tempo que se desfazia.
Ó noites do límpido frio de maio.
Ó ventanias enoveladas ao calor de agosto.
Ó nascente canto de cigarras nos idos de outubro.
Ó dia que se demora - luz que reverbera em dezembro
entre coros natalinos, e o coração imerso
em ternura orfã. Ternura que, por não saber onde olhar,
abisma-se perante os abertos céus da infância.
Ternura que, por não saber o que dizer, guarda a voz
da chuva forte e depois da chuva mansa.
Ternura que, por ser silêncio, agarra-se à voz úmida e pura
que é a noite após o temporal: madrugada
embalada pela garoa que apenas é
um orvalho mais ardente e mais denso.
Ternura orfã e eu preso ao tempo que me desfaz, saudoso
da garapa bebida com um amigo morto
e confiante, alegre, também solene
caminhando junto aos amigos de agora. Homens
que irão morrer e eu um homem como eles.
Um homem que teme a vida passada à toa
e que se lança para a frente: ao irreversível
dos sonhos que podem ser erguidos uma única vez
e ao tremor que é beijar a estrela da manhã e saber
que a estrela da manhã é uma mulher
e não há milagre maior do que este: ter
a estrela da manhã; queimar na estrela da manhã;
com a estrela da manhã partir
aos dias vindouros, aos dias que já se somam
ao presente. Com a estrela da manhã
ingressar na alegria dos dias não vividos
mas já enrodilhados ao tempo que constrói.
Destes dias extrair da poeira o que me seja
imagem e semelhança.
Destes dias e deste sonho extrair a argila
do que pode ser erguido uma única vez
e construir, construir, construir
e você de novo ao meu lado -
um morto, mas não um fantasma;
apenas um amigo que me fala A vida é traição
e no entanto amei a vida. Apenas um amigo
que me fala Perdi muitas mulheres
e no entanto não há milagre maior
do que um ventre fecundo. Apenas um amigo
que me escuta falar do que construo,
que me escuta falar dos homens
e das mulheres de agora. Apenas um amigo
preso às minhas retinas quando vejo
que a vida é traição (tão triste é o que vejo
pelos corredores do tribunal)
e que sabe o que evoco quando evoco
a estrela da manhã e para a estrela da manhã
digo Quero que seja a estrela de toda a vida.
Um amigo que, bebendo garapa,
comigo entra nas tardinhas
e observa o revoar das andorinhas
e de que modo as vidas se misturam:
a vida passada, a vida vivida, a vida que nunca vem
enquanto, caindo sobre os ombros do sol crepuscular,
ao meu lado se assombra com o tempo
que evapora todos os rostos
e iguala as palavras de um vivo às de um morto.
Entre todos os meus amigos, era o único morto
e o que mais vinha até mim, o que mais vinha
quando a tarde abria o peito
e trazia uma dor que não era apenas dor:
era um espasmo de ternura, uma vertigem amorosa
pelo que vem e pelo que passa, uma ânsia de reter
neste peito doído o longo vôo das andorinhas
e eu aqui, como um dia você aqui esteve,
eu aqui à toa e cantando a tarde
(a tarde que fere, a tarde com um cheiro
de terra e cheiro de flores e cheiro de morte
mas não cheiro de mortos, que os vivos
que aqui estão ainda caminham solenes);
eu aqui à toa, o peito aberto, ao lado
do meu único amigo morto e lavrando cada palavra
sua como se fosse minha e assim passei
a nomear todo pássaro de andorinha
e a nomear a tarde de tardinha. Tardinha funda
e doída e nós aqui à toa, bebendo a primeira garapa,
e olhando para as mulheres de pele cheirosa
e dizendo Lá vão as mulheres de Araxá. Lá vão,
e assim a noite veio e assim
você se diluiu. Deixou-me com a noite
cada vez mais próxima. A noite que abria
as suas asas em meu coração
e eu ainda à toa, ainda sozinho, ainda
enrodilhado ao tempo que se desfazia.
Ó noites do límpido frio de maio.
Ó ventanias enoveladas ao calor de agosto.
Ó nascente canto de cigarras nos idos de outubro.
Ó dia que se demora - luz que reverbera em dezembro
entre coros natalinos, e o coração imerso
em ternura orfã. Ternura que, por não saber onde olhar,
abisma-se perante os abertos céus da infância.
Ternura que, por não saber o que dizer, guarda a voz
da chuva forte e depois da chuva mansa.
Ternura que, por ser silêncio, agarra-se à voz úmida e pura
que é a noite após o temporal: madrugada
embalada pela garoa que apenas é
um orvalho mais ardente e mais denso.
Ternura orfã e eu preso ao tempo que me desfaz, saudoso
da garapa bebida com um amigo morto
e confiante, alegre, também solene
caminhando junto aos amigos de agora. Homens
que irão morrer e eu um homem como eles.
Um homem que teme a vida passada à toa
e que se lança para a frente: ao irreversível
dos sonhos que podem ser erguidos uma única vez
e ao tremor que é beijar a estrela da manhã e saber
que a estrela da manhã é uma mulher
e não há milagre maior do que este: ter
a estrela da manhã; queimar na estrela da manhã;
com a estrela da manhã partir
aos dias vindouros, aos dias que já se somam
ao presente. Com a estrela da manhã
ingressar na alegria dos dias não vividos
mas já enrodilhados ao tempo que constrói.
Destes dias extrair da poeira o que me seja
imagem e semelhança.
Destes dias e deste sonho extrair a argila
do que pode ser erguido uma única vez
e construir, construir, construir
e você de novo ao meu lado -
um morto, mas não um fantasma;
apenas um amigo que me fala A vida é traição
e no entanto amei a vida. Apenas um amigo
que me fala Perdi muitas mulheres
e no entanto não há milagre maior
do que um ventre fecundo. Apenas um amigo
que me escuta falar do que construo,
que me escuta falar dos homens
e das mulheres de agora. Apenas um amigo
preso às minhas retinas quando vejo
que a vida é traição (tão triste é o que vejo
pelos corredores do tribunal)
e que sabe o que evoco quando evoco
a estrela da manhã e para a estrela da manhã
digo Quero que seja a estrela de toda a vida.
Um amigo que, bebendo garapa,
comigo entra nas tardinhas
e observa o revoar das andorinhas
e de que modo as vidas se misturam:
a vida passada, a vida vivida, a vida que nunca vem
enquanto, caindo sobre os ombros do sol crepuscular,
ao meu lado se assombra com o tempo
que evapora todos os rostos
e iguala as palavras de um vivo às de um morto.
domingo, 15 de janeiro de 2012
Saber (todos os poemas até agora, ordem cronológica)
I
Saber dos mortos que são atirados
ao mar para que lá desapareçam
e para que o espírito, atônito,
jamais esqueça a calma com que os deuses
ocultam um naufrágio. Quietas as águas,
quieta a descida às algas, quietos os olhos
que fixam este improvável sepulcro:
saber em qual sombra caiu a sombra,
saber em qual madrugada a manhã
uma última vez clareou o rosto
espelho do amor e da juventude.
II
Saber do primeiro morto: aquele
rosto que se transmudou no bolor
de dias claros – o pai, os cigarros
fumados nas tardes sem esperanças,
a palha com que me coçava as plantas
dos pés, o enterro a que não assisti.
Saber que não somente os cemitérios
reúnem mausoléus. Saber que a cidade
é a maior cova comum que existe.
Saber que ali, à Rua São José,
jogava-se bilhar naquela casa.
Jogava-se aos fundos, entre os velhos
que ouviam música passada e o cão
que ali havia, agrilhoado às ruínas.
Saber que aquele cão amigo é morto.
III
Saber que um morto germina somente
no coração que envelhece e na mente
que esquece. Saber que a descida às algas
e às ervas é descida ao oblívio,
descida ao escuro sítio que o sol
não alcança. O fado da carne é
o fado das sombras: tudo acaba.
Saber que as palavras também são sombras
embora durem mais. Saber falar
a tudo isto: carne e sombras de agora
e carne e sombras que ainda virão.
IV
Saber que a lenta hora é o entardecer
e é lenta para que os olhos não percam
cada matiz da paisagem vista
pelas janelas deste comboio
que parte sem destino onde chegar
e que chega sem nunca ter partido.
Saber que o porvir é luz vindoura
da próxima, mas longínqua cidade,
e que a infância é aquele bosque
do qual nos aparta não a distância
mas a névoa que cai sobre o arvoredo.
Saber que a hora é lenta porque o comboio
é tão veloz que o dia se queda inerte.
Saber que o comboio apenas existe
quando se mira o que já partiu.
V.
Saber que há homens que perseguem Ítaca
sem terem deixado Ítaca. Saber
que voltar para casa a cada dia
dói como partir. Conta-me, Ó Musa,
um destino de Musa que não seja
o destino da erva: surgiu verde
e agosto que torna a tornou castanha.
Saber que há homens que jamais alcançam
Ítaca por não terem deixado Ítaca.
Saber que o chamamento das sereias
não foi mais do que as sirenes da velha
cervejaria. Ao amanhecer,
ao meio dia e às dezoito em ponto:
ressoava e um cheiro de cevada
marcava cada dia de trabalho.
Saber que no areal ficaram todos
aqueles chamados pela sirene
enquanto galeras iam ao mar.
VI.
Saber que apenas trazes a alegria
em ti (devolvida, imaculada)
porque trazes ferido o coração
desde o início. Saber o fado -
nem duro, nem leve - somente o fado
das noites de calor tempestuoso.
Saber que este vapor que se eleva
do teu corpo é incandescente sopro
do querer saciado: queima o céu
e não há pele que lamente o frio.
Saber que não existe altar de amor
que não tenha como bruto artesão
o gozo passado ou o prometido.
Saber que se a manhã seguinte vem
chuvosa é preciso saber andar
entre ruínas. Saber que o coração
não é virgem e não é intocado
igual um jardim de inverno. Saber
beijar a lágrima como beijaste
o gozo. Saber que apenas celebras
a imorredoura alegria do agora
porque apenas sabes celebrar - do início
até ao fim - um coração ferido.
VII.
Saber consagrar o que mais lancina
quanto mais se tem: pungente e precária
chaga aberta em teu peito e no entanto
o sangue que ali queima não provém
apenas de ti. Também ali grita
sangue clandestino pois clandestina
é toda a alegria no início - júbilo
inominado que tanto mais gozas
quanto mais numerosas as palavras
que de ti se elevam. Febre. Amor.
Exílio. Lume que arde, perene,
e não existe dia que não seja
delírio, noite que não seja êxtase,
e no entanto este olimpo, esta chaga,
este gozo é fagulha que a si própria
não aquece e por isso tu evocas
o júbilo também inominado
deste corpo que agora é exaurido
pelo teu. Corpo que na crua noite
dorme tão próximo que é indistinto
do teu próprio abraço. Assim ingressas
no amanhecer. Assim um rio encontra
outro rio e assim, lânguidas as águas,
há quem confunda estes rios com o mar
e assim confunde (no olhar a distância)
tal mar com o céu que se incendeia.
Saber que estas espumas que requeimam
se enrodilham no rubro seixo que é
este coração de sangue cruzado.
Saber que as espumas que ainda avançam
fecundam o sal do gozo e da lágrima.
Saber dos mortos que são atirados
ao mar para que lá desapareçam
e para que o espírito, atônito,
jamais esqueça a calma com que os deuses
ocultam um naufrágio. Quietas as águas,
quieta a descida às algas, quietos os olhos
que fixam este improvável sepulcro:
saber em qual sombra caiu a sombra,
saber em qual madrugada a manhã
uma última vez clareou o rosto
espelho do amor e da juventude.
II
Saber do primeiro morto: aquele
rosto que se transmudou no bolor
de dias claros – o pai, os cigarros
fumados nas tardes sem esperanças,
a palha com que me coçava as plantas
dos pés, o enterro a que não assisti.
Saber que não somente os cemitérios
reúnem mausoléus. Saber que a cidade
é a maior cova comum que existe.
Saber que ali, à Rua São José,
jogava-se bilhar naquela casa.
Jogava-se aos fundos, entre os velhos
que ouviam música passada e o cão
que ali havia, agrilhoado às ruínas.
Saber que aquele cão amigo é morto.
III
Saber que um morto germina somente
no coração que envelhece e na mente
que esquece. Saber que a descida às algas
e às ervas é descida ao oblívio,
descida ao escuro sítio que o sol
não alcança. O fado da carne é
o fado das sombras: tudo acaba.
Saber que as palavras também são sombras
embora durem mais. Saber falar
a tudo isto: carne e sombras de agora
e carne e sombras que ainda virão.
IV
Saber que a lenta hora é o entardecer
e é lenta para que os olhos não percam
cada matiz da paisagem vista
pelas janelas deste comboio
que parte sem destino onde chegar
e que chega sem nunca ter partido.
Saber que o porvir é luz vindoura
da próxima, mas longínqua cidade,
e que a infância é aquele bosque
do qual nos aparta não a distância
mas a névoa que cai sobre o arvoredo.
Saber que a hora é lenta porque o comboio
é tão veloz que o dia se queda inerte.
Saber que o comboio apenas existe
quando se mira o que já partiu.
V.
Saber que há homens que perseguem Ítaca
sem terem deixado Ítaca. Saber
que voltar para casa a cada dia
dói como partir. Conta-me, Ó Musa,
um destino de Musa que não seja
o destino da erva: surgiu verde
e agosto que torna a tornou castanha.
Saber que há homens que jamais alcançam
Ítaca por não terem deixado Ítaca.
Saber que o chamamento das sereias
não foi mais do que as sirenes da velha
cervejaria. Ao amanhecer,
ao meio dia e às dezoito em ponto:
ressoava e um cheiro de cevada
marcava cada dia de trabalho.
Saber que no areal ficaram todos
aqueles chamados pela sirene
enquanto galeras iam ao mar.
VI.
Saber que apenas trazes a alegria
em ti (devolvida, imaculada)
porque trazes ferido o coração
desde o início. Saber o fado -
nem duro, nem leve - somente o fado
das noites de calor tempestuoso.
Saber que este vapor que se eleva
do teu corpo é incandescente sopro
do querer saciado: queima o céu
e não há pele que lamente o frio.
Saber que não existe altar de amor
que não tenha como bruto artesão
o gozo passado ou o prometido.
Saber que se a manhã seguinte vem
chuvosa é preciso saber andar
entre ruínas. Saber que o coração
não é virgem e não é intocado
igual um jardim de inverno. Saber
beijar a lágrima como beijaste
o gozo. Saber que apenas celebras
a imorredoura alegria do agora
porque apenas sabes celebrar - do início
até ao fim - um coração ferido.
VII.
Saber consagrar o que mais lancina
quanto mais se tem: pungente e precária
chaga aberta em teu peito e no entanto
o sangue que ali queima não provém
apenas de ti. Também ali grita
sangue clandestino pois clandestina
é toda a alegria no início - júbilo
inominado que tanto mais gozas
quanto mais numerosas as palavras
que de ti se elevam. Febre. Amor.
Exílio. Lume que arde, perene,
e não existe dia que não seja
delírio, noite que não seja êxtase,
e no entanto este olimpo, esta chaga,
este gozo é fagulha que a si própria
não aquece e por isso tu evocas
o júbilo também inominado
deste corpo que agora é exaurido
pelo teu. Corpo que na crua noite
dorme tão próximo que é indistinto
do teu próprio abraço. Assim ingressas
no amanhecer. Assim um rio encontra
outro rio e assim, lânguidas as águas,
há quem confunda estes rios com o mar
e assim confunde (no olhar a distância)
tal mar com o céu que se incendeia.
Saber que estas espumas que requeimam
se enrodilham no rubro seixo que é
este coração de sangue cruzado.
Saber que as espumas que ainda avançam
fecundam o sal do gozo e da lágrima.
sexta-feira, 13 de janeiro de 2012
Saber, segunda série, segundo poema
Saber consagrar o que mais lancina
quanto mais se tem: pungente e precária
chaga aberta em teu peito e no entanto
o sangue que ali queima não provém
apenas de ti. Também ali grita
sangue clandestino pois clandestina
é toda a alegria no início - júbilo
inominado que tanto mais gozas
quanto mais numerosas as palavras
que de ti se elevam. Febre. Amor.
Exílio. Lume que arde, perene,
e não existe dia que não seja
delírio, noite que não seja êxtase,
e no entanto este olimpo, esta chaga,
este gozo é fagulha que a si própria
não aquece e por isso tu evocas
o júbilo também inominado
deste corpo que agora é exaurido
pelo teu. Corpo que na crua noite
dorme tão próximo que é indistinto
do teu próprio abraço. Assim ingressas
no amanhecer. Assim um rio encontra
outro rio e assim, lânguidas as águas,
há quem confunda estes rios com o mar
e assim confunde (no olhar a distância)
tal mar com o céu que se incendeia.
Saber que estas espumas que requeimam
se enrodilham no rubro seixo que é
estes corações de sangue cruzado.
Saber que as espumas que ainda avançam
fecundam o sal do gozo e da lágrima.
quanto mais se tem: pungente e precária
chaga aberta em teu peito e no entanto
o sangue que ali queima não provém
apenas de ti. Também ali grita
sangue clandestino pois clandestina
é toda a alegria no início - júbilo
inominado que tanto mais gozas
quanto mais numerosas as palavras
que de ti se elevam. Febre. Amor.
Exílio. Lume que arde, perene,
e não existe dia que não seja
delírio, noite que não seja êxtase,
e no entanto este olimpo, esta chaga,
este gozo é fagulha que a si própria
não aquece e por isso tu evocas
o júbilo também inominado
deste corpo que agora é exaurido
pelo teu. Corpo que na crua noite
dorme tão próximo que é indistinto
do teu próprio abraço. Assim ingressas
no amanhecer. Assim um rio encontra
outro rio e assim, lânguidas as águas,
há quem confunda estes rios com o mar
e assim confunde (no olhar a distância)
tal mar com o céu que se incendeia.
Saber que estas espumas que requeimam
se enrodilham no rubro seixo que é
estes corações de sangue cruzado.
Saber que as espumas que ainda avançam
fecundam o sal do gozo e da lágrima.
terça-feira, 27 de dezembro de 2011
Blow Up
Pedro sofreu o acidente que o deixou coxo em dezembro, e a sua esposa, se me recordo bem, teve machucados ainda mais horríveis. Portanto o natal foi pouco comemorado: após uma ceia breve e saudações à meia-noite, todos foram dormir. Eu estava sem sono e pensei em pegar o carro e dar uma volta pela cidade, talvez ir até o Radio City.
Na tarde seguinte liguei para um amigo e combinamos de nos encontrar no salão de bilhar. Assim que iniciamos a disputa, começou a chover. Junto ao balcão, o homem que administrava o lugar jogava um estranho jogo de cartas com outro sujeito. Às vezes esse outro sujeito gritava. Perto deles, comendo de um prato que recendia a gordura antiga, estava sentada uma adolescente – rosto claro ungido pelo suor e pela gordura que se emanava da chapa de grelhar hambúrgueres, os seios salientes (talvez engordurados também) sob o fino tecido da blusa, cabelos à altura do pescoço. À medida que a chuva ficava mais forte, a madeira dos tacos tornava-se pegajosa e não conseguimos nos divertir. Antes do crepúsculo eu já tinha voltado para casa e, quando a noite se insinuou e parou de chover, veio, dos fundos do quintal, um cheiro de bananeiras molhadas.
Nos dias que se seguiram, eu e Cartago voltamos a perambular pela cidade velha. As lojas – após a alegria natalina – estavam todas fechadas. A prefeitura ainda não tinha dado início aos trabalhos de limpeza, e as ruas encontravam-se atulhadas de papel picado e jornais de propaganda. Chovia forte quase todas as tardes, mas depois vinha o sol, e ascendia um mormaço doente e preguiçoso. A impressão que se tinha era de que a água estava estagnada há não sei quantas semanas e por isso apodrecera.
Na última tarde do ano também vagamos pelo centro: primeiro uma caminhada pelas ruas quietas e ensolaradas (aqui e ali explodiam bombas, e ao mormaço fundia-se o cheiro de pólvora), depois algumas partidas no salão de bilhar e por fim uma visita ao shopping, que tinha todas as lojas fechadas e, na praça de alimentação, as cadeiras empilhadas. Era a última sessão de cinema do ano e havia poucas pessoas na sala de exibição. Sentámo-nos e, enquanto esperávamos o filme, vimos chegar um grupo formado por uma mulher e duas raparigas de quinze ou dezesseis anos. As meninas não pareciam ser irmãs ou primas – o tom da pele, a cor dos cabelos, os ossos do rosto, as sombras ao redor dos olhos, os gestos: nada indicava parentesco e o único aspecto que tinham em comum era uma magreza desengonçada (era como se o silêncio e a melancolia – uma tristeza apenas adivinhada, apenas imaginada – tornassem o ar mais espesso ou rarefeito; como se as duas meninas, ou melhor, como se os seus dois corpos magros ainda não estivessem acostumados a variações na densidade das horas).
Quando saímos do cinema e ganhamos a rua, o crepúsculo ia pela metade. Tinha sido uma tarde sem chuvas e um sopro quente varria os papéis e as copas das árvores. Bombas ainda explodiam aqui e ali (agora com mais frequência). Do alto dos postes descia uma luz que, misturada à poeira do entardecer, assumia um tom alaranjando, enquanto o céu poente oscilava entre matizes pálidos e de um azul muito escuro. Por quase uma quadra, a mulher e as meninas caminharam diante de nós, e durante todo o tempo tivemos a impressão (agora também em relação à mulher) de magreza destroçada, aniquilada. Era como olhar para o retrato de alguém – um retrato tirado durante um momento de introspecção – e adivinhar uma morte triste, talvez por suicídio.
sexta-feira, 23 de dezembro de 2011
Saber
Saber que apenas trazes a alegria
em ti (devolvida, imaculada)
porque trazes ferido o coração
desde o início. Saber o fado -
nem duro, nem leve - somente o fado
das noites de calor tempestuoso.
Saber que este vapor que se eleva
do teu corpo é incandescente sopro
do querer saciado: queima o céu
e não há pele que lamente o frio.
Saber que não existe altar de amor
que não tenha como bruto artesão
o gozo passado ou o prometido.
Saber que se a manhã seguinte vem
chuvosa é preciso saber andar
entre ruínas. Saber que o coração
não é virgem e não é intocado
igual um jardim de inverno. Saber
beijar a lágrima como beijaste
o gozo. Saber que apenas celebras
a imorredoura alegria do agora
porque apenas sabes celebrar - do início
até ao fim - um coração ferido.
em ti (devolvida, imaculada)
porque trazes ferido o coração
desde o início. Saber o fado -
nem duro, nem leve - somente o fado
das noites de calor tempestuoso.
Saber que este vapor que se eleva
do teu corpo é incandescente sopro
do querer saciado: queima o céu
e não há pele que lamente o frio.
Saber que não existe altar de amor
que não tenha como bruto artesão
o gozo passado ou o prometido.
Saber que se a manhã seguinte vem
chuvosa é preciso saber andar
entre ruínas. Saber que o coração
não é virgem e não é intocado
igual um jardim de inverno. Saber
beijar a lágrima como beijaste
o gozo. Saber que apenas celebras
a imorredoura alegria do agora
porque apenas sabes celebrar - do início
até ao fim - um coração ferido.
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